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Alugue o seu carro para estranhos

É mais barato, mais ecológico - e desentope as ruas. Entenda por que você deveria alugar o seu carro para seus amigos, vizinho ou estranhos

Robin Chase

Quer ajudar a aliviar o trânsito, reduzir a poluição e combater as mudanças climáticas? De quebra, você ainda ganharia uma grana. Muita gente já está alugando carros, em vez de comprá-los. A Zipcar, que fundei em 2000, é hoje a maior rede de compartilhamento de carros do mundo, com 650 mil membros dirigindo mais de 9 mil veículos da empresa nos EUA, Canadá e Reino Unido. Com ela, aprendi que muitas pessoas querem dirigir carros, e não possuí-los. Por isso, eu depois criei a Buzzcar, na qual as pessoas podem alugar seu carro para amigos e vizinhos. Ela já conta com 14 mil usuários e 2.100 veículos na França.

A Zipcar faz o que chamo de “compartilhamento tradicional”. Ou seja, ela é dona dos veículos e aluga por hora ou por dia. Em minutos, a pessoa entra no site, reserva e busca o carro usando um cartão eletrônico. Como a Zipcar precisa do retorno do investimento, ela coloca os carros apenas onde sabe que serão muito usados, como áreas densamente povoadas e cidades universitárias. Já a Buzzcar funciona como um mercado entre as pessoas que desejam alugar seus próprios carros, e amigos, vizinhos ou desconhecidos. É um aluguel “entre pares”, sem retorno financeiro. Por isso, os carros podem estar disponíveis em qualquer lugar da cidade e até em áreas rurais. O valor do aluguel depende do tipo e da localização de cada carro. Os Zipcars custam desde US$ 7 a hora (um carro simples estacionado numa rua com muitas vagas) até US$ 16 a hora (um luxuoso no centro de Nova York). Os preços da Buzzcar são 25% mais baixos porque os veículos não são novos. Metade tem até cinco anos e o resto tem mais. O proprietário ganha 65% do aluguel, a empresa fica com 15% e a companhia de seguros, os outros 20%. O seguro cobre o locatário e protege o proprietário. Em caso de acidente, o prontuário do dono continua limpo.

Compartilhar muda nossa relação com o automóvel. Hoje, o americano médio gasta 17% do salário com o carro, mas só dirige 5% do tempo. Isso significa que o carro fica ocioso quase todo o dia, tomando espaço dos estacionamentos ou das ruas. E, quando dirige, a pessoa vai sozinha em 80% das vezes. Agora pense no trânsito de sua cidade e imagine 15 carros dando lugar a apenas um. É o que acontece com a Zipcar. Cada carro compartilhado substitui 15 carros pessoais. Isso porque 40% dos usuários os contratam por hora ou por dia. Na prática, eles só compram as quantidades que necessitam.

Quer mais uma vantagem? Quando as pessoas têm de pagar pelo uso do carro, elas dirigem 80% menos. É simples: se eu quero tomar sorvete e possuo um carro, vou com ele à sorveteria. Mas se preciso pagar US$ 10 por hora para ir até lá, pensarei duas vezes. Irei de bicicleta, caminhando ou de metrô. Quer dizer: quando pagamos para ir aos lugares, entendemos o real custo de um carro. E só dirigimos se essa for a escolha correta – por exemplo, se precisarmos carregar algo pesado ou se não houver outra opção.

Compartilhar carros nos deixa mais livres e independentes. Claro que não vamos eliminá-los no futuro, mas será tão caro mantê-los e estacioná-los que a maioria será compartilhada. E eles terão o tamanho exato de nossas necessidades: um casal vai usar um carro bem pequeno, uma família de quatro pessoas vai usar um carro maior, e assim por diante. Por enquanto, o desafio para levar a Buzzcar a países como o Brasil é obter o seguro. Levei um ano para consegui-lo na França e estou há quatro anos tentando nos EUA. E, quando alguém me diz que não alugaria o carro a um estranho, eu digo: “Tudo bem, não alugue.” Cada automóvel pode ser usado por 40 ou 50 pessoas. Portanto, só preciso que 1% da população abrace a ideia. Já estaremos bem assim.

* Robin Chase é fundadora e CEO da Buzzcar, uma empresa de compartilhamento de carros. É também fundadora e ex-CEO da Zipcar.