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Arquitetura da destruição

Elevação do nível das águas, calor de torrar os miolos, geleiras derretendo... Saiba o que as cidades ao redor do mundo estão inventando para conviver com os efeitos do aquecimento global

Texto Alexandre Carvalho dos Santos

Não vai ter escapatória. Em seu mais recente relatório, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) afirmou pela primeira vez, sem meias palavras, que o aquecimento global é um fato e que a culpa é toda nossa. As empresas podem plantar florestas para compensar as chaminés, as pessoas podem trocar as lâmpadas convencionais por modelos mais econômicos, você pode substituir o carro pela bicicleta… Podemos até formar fila para ver o filme do Al Gore. Tudo isso é lindo e precisa ser feito. Mas não há como escapar das conseqüências do aquecimento que já produzimos e que vão mostrar as garras nas próximas décadas. Diante do inevitável, várias cidades ao redor do mundo estão tentando se reinventar para conviver com os efeitos do aquecimento global. A palavra de ordem dos engenheiros e arquitetos é “adaptação”, principalmente quando se trata de locais mais vulneráveis. Segundo o IPCC, adaptação, nesse contexto, “são ajustes nos sistemas humanos e naturais, possibilitando a resposta às mudanças climáticas e abrandando seus prejuízos”. Em outras palavras, é preciso repensar a arquitetura das cidades e prepará-las para o pior. Se você pensou em casas construídas em cima de árvores, quase acertou. O sentido da coisa é esse mesmo.

O que complica é a incerteza sobre quando e onde o bicho vai pegar. “Sabemos que o aquecimento global é um fato, mas ainda não temos certeza sobre os impactos locais para que haja estímulo a programas caros de adaptação”, explica o professor Michael Glantz, diretor do Consortium for Capacity Building (Consórcio para Construção de Capacidade), da Universidade do Colorado, nos EUA, entidade que tem a missão de ajudar países às voltas com os perigos das mudanças climáticas.

A boa notícia é que muita idéia já saiu do papel, principalmente nos países mais desenvolvidos, onde evidências de riscos no horizonte já estão rendendo iniciativas práticas. “Locais úmidos, se os cientistas estiverem certos, devem ficar encharcados, e as cidades podem investir recursos com isso em mente”, afirma Glantz. Pois é pensando dessa forma que governos e a iniciativa privada, com muita criatividade, estão se antecipando para que as cidades lidem com os problemas que vão aparecer no futuro sem que a população tenha de fazer as malas às pressas e abandonar suas casas.

A casa flutuante

Holandeses pagaram cerca de 400 mil euros por casa anfíbia. Que venham as enchentes!

Com a provável elevação das águas, os pesadelos com afogamento devem se tornar bem comuns na Holanda. Boa parte do país já está abaixo do nível do mar, o que leva muita gente a pensar: se o país virar uma Atlântida, como fazer sexo em praça pública ou fumar o que se queira em cafés moderninhos? Para que os holandeses possam continuar com a boa vida, a empresa Dura Vermeer construiu 32 casas anfíbias, preparadas para boiar em caso de alagamento. As residências ficam em Maasbommel, uma vila em que o Aquaman se sentiria em casa, pois é cortada por vários rios e diques. Os abonados moradores, que pagaram cerca de 400 mil euros por elas, até torcem por uma enchentezinha para verem suas casas flutuando, mas até agora são Pedro não colaborou.

Nível de água normal – A casa e o alicerce se apóiam em pilares.

Nível de água elevado – Quando o nível sobe, a casa passa a flutuar.

O museu e o rio

O local escolhido para abrigar, desde o ano 2000, o museu de arte moderna de Londres, a Tate Modern Gallery, poderia render um filme-catástrofe. É uma estação de energia elétrica desativada, às margens do rio Tâmisa. Dá até para chegar de barco. Mas quadros, por mais modernos que sejam, não são muito amigos da umidade. Para evitar que o aquecimento global leve o rio a transbordar e a encharcar expoentes do futurismo e do minimalismo, o museu passou por uma reforma. Os engenheiros colocaram mais material no solo, elevando a altura da margem, e aumentaram a distância entre a construção e a beira do rio.

Do convencional ao mirabolante

Imagine juntar 140 milhões de miseráveis num país um tiquinho acima do nível do mar e sério candidato a sofrer o pior das mudanças climáticas. Essa é a situação de Bangladesh. Segundo o IPCC, 70% das terras baixas do país estão com os dias contados. Mas, apesar de todo o apuro econômico, a nação dos encantadores de serpentes não está esperando o mundo acabar em barranco. O governo já conseguiu US$ 45 milhões para projetos de adaptação. A coisa vai do convencional – construção de abrigos para vítimas de enchentes, reflorestamento de zonas costeiras – até invenções do arco-da-velha, como hortas flutuantes, para que a população não fique sem comer verdura em dias de aguaceiro.

Fazendo a dança da neve

Vá ser dono de estação de esqui em tempos de aquecimento global… Para a atividade ser viável, é preciso contar com 30 centímetros de neve nas pistas durante, pelo menos, 100 dias do ano. Nos Alpes, por exemplo, onde existem umas 600 estações, basta a média de temperatura subir 1°C para 100 delas se tornarem inviáveis. E a região vem batendo recordes de temperatura. A saída tem sido apelar para canhões de neve artificial, que estão segurando bem as pontas e recebendo elogios dos esquiadores. A composição da neve de mentirinha é diferente – é feita de água misturada a uma proteína biodegradável, que provoca a cristalização das móleculas de água.

Muro contra avalanche

Todo 1º de março é a mesma coisa na gelada vila suíça de Pontresina, que fica no sopé de duas montanhas: as crianças repetem um antigo costume, cantando e fazendo uma barulheira com sinos na tentativa de espantar o inverno, já no seu finzinho. Mas talvez elas devessem cantar para que o frio voltasse. Com o degelo provocado pelo aquecimento global, Pontresina corre sério risco de ser varrida do mapa por uma avalanche de dimensões apocalípticas. Para que uma inocente bola de neve não vire um tormento ao descer a montanha, o pessoal de lá construiu cercados ao longo de 16 quilômetros, mas a medida não deu muito certo. Uns tantos foram construídos sobre a camada de permafrost (solo permanentemente gelado), que está derretendo e levando os cercados com ele. Assim, restou concluir que uma hora a avalanche vai rolar, e a cidade construiu barragens para evitar o pior. Potencial para isso elas têm. São capazes de conter 280 mil m3 de neve e mais 100 mil de escombros. Pena que, para a construção, acabaram destruindo 3 hectares de floresta…

Quando Toronto vira Teresina

Cidade constrói espaço para quem precisa de refresco.

Sabe quando o calor é tanto que você enfia a cabeça na geladeira e ainda encosta a latinha de cerveja na testa? A população de Toronto, no Canadá, sabe bem o que é isso. Entre 2006 e 2007, a prefeitura local emitiu 13 “alertas de calor excessivo”, períodos em que a combinação de alta temperatura com umidade além da conta resultou em sensações térmicas de até 50 °C.

Já com a expectativa de que o aquecimento global só piore as coisas, e para que ninguém literalmente morra de calor, a cidade construiu 7 centros de resfriamento, locais que ficam abertos durante os alertas, com acesso gratuito a quem precisa desesperadamente entrar numa gelada.

Só não tem uma cervejinha

O que você vai encontrar num centro de resfriamento canadense.

Tira-gosto

Nos centros de resfriamento, o canadense afogueado pode contar com a brisa mansa de aparelhos de ar condicionado, água gelada e até um lanchinho.

Companhia

Animal também é gente! Os centros em Toronto aceitam a entrada de animais de estimação. Mas, se o cachorro tiver dor de barriga, a sujeira é por conta do dono.

Rapidinha

Os centros são usados mais para emergência. A maioria das pessoas não leva mais do que 10 minutos para sair revigorada.

Escolha onde você quer morar

Quem está mais preparado para um futuro cheio de aguaceiros, vendavais, secas e calor dos infernos? Uma consultoria de risco britânica chamada Maplecroft criou um ranking da vulnerabilidade aos riscos das mudanças climáticas, em que classifica 168 países. Para elaborar o ranking, o estudo levou em conta os seguintes fatores: ecossistemas e recursos naturais, economia, pobreza, saúde, agricultura, infra-estrutura, instituições e governos. Do que, de olhos fechados, já dá para desconfiar é quem está melhor e quem está pior – o Brasil ocupa um razoável 42º lugar. Vale lembrar que não se trata apenas de analisar onde vai ficar mais quente ou frio, com mais ou menos chuvas fortes. O negócio é que a fragilidade diante disso tudo desemboca em escassez de alimentos e de água potável, epidemias de doenças, migrações de populações inteiras, instabilidade política e até guerras. Um quadro nada animador para quem vive em países que estão na rabeira do ranking.

Os menos vulneráveis

1. Canadá

2. Irlanda

3. Noruega

4. Dinamarca

5. Suécia

6. Finlândia

7. Nova Zelândia

8. França

9. Uruguai

10. Suíça

Os mais vulneráveis

164. Níger

165. Iêmen

166. Burundi

167. Somália

168. Ilhas Comores

Até que o Brasil não está tão ruim das pernas. No ranking de 168 países, ocupa a 42ª colocação. Mas está pior que a Argentina (raios!), na 36ª, o Chile, na 29ª, e o Uruguai, que é o 9º país menos vulnerável e o único latino-americano no top ten. Se o Canadá fica muito longe, melhor fugir para Montevidéu.

Não é só por causa dos centros de resfriamento. O Canadá está com tudo no que diz respeito à preparação para o que vem por aí. Tem baixa densidade populacional, fartura de espaço, economia forte e instituições sólidas. Se o planeta tiver de recomeçar do zero, Adão e Eva serão canadenses.

Ilhas Comores? Pois é, se você não sabia que existiam, há grande risco de nunca ficar sabendo. O país africano é o mais vulnerável do ranking, e há previsão de que seja devastado por tempestades constantes, aumento do nível do mar e um colapso na agricultura. Dureza…

Aids, guerras civis, governos truculentos, miséria, fome… Além disso tudo – e também por causa disso tudo -, a África tem a maioria dos países mais indefesos contra os perigos das mudanças climáticas.

Salve-se quem puder

Os animais já entenderam que a casa pegou fogo. Na América do Norte e na Europa, pesquisadores constataram que pássaros, insetos e até plantas têm mudado seus habitats para regiões mais altas, geralmente mais ao norte, à procura de temperaturas amenas. Se os projetos de adaptação não correrem na mesma velocidade das mudanças climáticas, é capaz que o bicho-homem tenha de fazer o mesmo. A ONU estima que, até 2050, as mudanças climáticas poderão tirar 200 milhões de pessoas de suas cidades. Vale a torcida para que boas soluções de adaptação comecem a aparecer também no Brasil. Só falta termos que mudar para a Argentina…

Como se adaptar aos novos tempos

Três maneiras de preparar sua casa para as mudanças do clima

1. Cuide do seu telhado

O hábito de sair para o quintal, nos fundos ou na frente da casa, com um regador pode estar virando coisa do passado. Daqui a um tempo, não vai ser nada de outro mundo encontrar raiz de planta enrolada no lustre da sala. Uma das tendências de adaptação para cidades com previsão de aumento das chuvas é a plantação de jardins no telhado de casas e edifícios. A idéia é que a água dos temporais seja absorvida pelo jardim da vovó em vez de escorrer para a rua, inundando tudo, arrastando os carros, invadindo as lojas, causando aquela desgraça na cidade inteira.

2. Pense no seu bolso

Sua casa tem telhado reforçado contra as tempestades? Calhas maiores para que a água das chuvas escorra? Película nas janelas para filtrar o calor? Segundo Tony Fry, diretor da fundação australiana EcoDesign, os arquitetos e seus clientes devem ficar com a pulga atrás da orelha: logo, logo, as seguradoras vão se recusar a vender seguros para residências que não estejam adaptadas às conseqüências do aquecimento global.

3. Limpe o seu quintal

Pneu com água parada, garrafas e baldes expostos à chuva, virando piscina de insetos… Deixe de preguiça e arrume esse chiqueiro. Um relatório do Banco Mundial afirma que as mudanças climáticas vão criar um cenário perfeito para a proliferação de doenças tropicais em países como o Brasil. O mosquito da dengue está numa alegria só.

Para saber mais

O Atlas da Mudança Climática

Kirstin Dow e Thomas E. Downing, Publifolha, 2007.