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Ecologia como auto-ajuda

O ambientalista Adam Werbach conta por que foi trabalhar para grandes empresas e afirma: lutar pelo planeta é lutar para melhorar a própria vida

Pedro Burgos

Até comparecer a um jantar no fim de 2004, Adam Werbach era o rosto mais emblemático do movimento ambientalista americano: jovem, cheio de energia e radical. Até que, diante de 250 dos mais importantes ambientalistas dos EUA, ele fez um discurso de 31 páginas que deixou parte da platéia boquiaberta. “Quem acha que nosso trabalho é proteger ‘coisas’, como parques e árvores não entende nada”, disse. “Que tal pararmos de tratar o aquecimento global como problema ambiental e falarmos de suas oportunidades econômicas?”

Werbach considera que o discurso foi um marco do amadurecimento de Werbach – para a maioria da audiência, porém, foi o dia em que ele virou a casaca. Não que tenha se distanciado demais dos amigos – ainda é um dos 6 conselheiros mundiais do Greenpeace. Mas agora prefere agir a seu modo: trabalha junto de megacorporações, justamente as mais poluidoras, como o Wal-Mart. Para ele, em vez de propor taxas e multas pela emissão de carbono, o melhor é tentar mudar hábitos de quem trabalha nessas empresas. Em entrevista à super, ele afirma que o caminho para a felicidade pessoal passa pelo cuidado ecológico. Uma espécie de auto-ajuda ambiental.

Por que você resolveu sair do ambientalismo tradicional para trabalhar numa megacorporação como o Wal-Mart?

O Wal-Mart colocou para si mesmo ambiciosos objetivos sustentáveis – usar 100% de energia renovável, tratar todo o lixo, vender mais produtos verdes. A única maneira de tornar isso realidade é fazer com que todas as pessoas que trabalham na empresa se sintam parte da missão. Eu achei que poderia ajudá-los. O que fazemos é desenvolver para cada funcionário um “Projeto de Sustentabilidade Pessoal” (PSP) onde cada um, se quiser, tem uma chance de realizar práticas mais sustentáveis.

Entre esses objetivos pessoais a que você se refere estão parar de fumar, reduzir o peso… O que isso tem a ver com o ambiente?

Para a maioria das pessoas, quando você fala de sustentabilidade pessoal, elas vão primeiro pensar em si próprias. Essa é a base do nosso pensamento. A partir de pequenas ações do dia-a-dia, elas vão procurar formas de resolver os grandes problemas do planeta. Faz sentido, por exemplo, começar a pensar em passar mais tempo com a família, seguindo o raciocínio “eu não posso pensar em aquecimento global enquanto não passar mais tempo com meu filho”. Precisamos prestar atenção nessas prioridades.

Uma espécie de auto-ajuda ecológica?

O movimento em que estou envolvido é o da sustentabilidade, onde as pessoas estão no centro. É um conceito mais amplo que o de ambiente. A sustentabilidade é uma boa moldura para pensarmos como vamos lidar com os desafios da nossa vida. Uma vez que você começa a, por exemplo, desligar luzes e aparelhos eletrônicos da sua casa antes de sair, começa a estabelecer ordem na sua vida, nos problemas que tem. Se eu conseguir me disciplinar para reciclar uma lata toda vez que bebo, vou prestar mais atenção no que como. Parar de fumar ou perder peso são ótimos jeitos de lutar por um mundo mais sustentável. Nós estamos destruindo o planeta, e esse tipo de comportamento nem ao menos nos faz felizes. É só você ver quanto mais feliz você está ficando por quilo de carbono consumido.

É possível fazer essa conta?

Sim. Governos ou ativistas não podem fazer essa conta, mas cada indivíduo sim. Veja o caso dos países historicamente mais poluidores, como os da Europa. Há um bocado de gente rica e descontente. A questão não é se vamos piorar nossa qualidade de vida, mas como melhorá-la sem usar a desculpa do carbono como razão para isso.

Você começou a se diferenciar do movimento quando criticou os ambientalistas por chamarem o aquecimento global de um “problema de poluição”. O que há de errado nisso?

Para combater a poluição, você faz pressão para que sejam aprovadas leis que proíbem algum tipo de emissão, e as pessoas e empresas são obrigadas a parar de emitir. A questão do aquecimento global é outra história, é onipresente, está em todas as partes da economia, em tudo que fazemos, no transporte, nas construções, na agricultura… Quando se fala de poluição, há tipos específicos de táticas e ferramentas que não são usados de maneira efetiva. Precisamos pensar o problema como um todo, já que é necessário reescrever totalmente a economia, “descarbonizar” o mundo.

Alguns dos seus companheiros antigos dizem que você mudou de lado, indo trabalhar em uma empresa grande. O que você acha disso?

Trocar de lado é forte. Eu não o fiz. É uma visão muito pequena pensar no mundo como uma luta do bem contra o mal. A questão mais importante é saber como fazer as mudanças e como colocar as grandes instituições, mais influentes, trabalhando na mesma direção.

As empresas também estão enxergando o aquecimento global como oportunidade comercial?

Sim, há uma enorme variedade de oportunidades. Um emergente mercado de produtos que vão dos orgânicos a qualquer um que tenha a etiqueta de “verde”. Os empresários começaram a perceber também que podem diminuir seus custos adotando práticas sustentáveis, como reduzir a conta de luz, aumentar a eficiência dos carros, diminuir o lixo que produzem. E há, é claro, a questão da produtividade: as pessoas mais felizes produzem mais.

Um discurso comum entre os chamados “ecochatos” é que as grandes empresas são “do mal”. O movimento ambientalista poderia tentar dialogar mais com elas?

Sim, é claro. Mas você precisa de organizações fiscalizadoras, que fiquem de fora. O Greenpeace, por exemplo, tem conseguido sucesso em vários campos. Eles usam táticas diferentes – com que nem sempre eu concordo. O Greenpeace trabalha necessariamente fora das empresas; eu trabalho para elas. Mesmo assim, é uma organização que não recebe dinheiro de outras companhias ou de governos, não se envolve em política. Essa credibilidade é bastante útil.

O que você achou da premiação de Al Gore com o Prêmio Nobel e o Oscar?

Achei ótimo, merecida. Não teremos um vice-presidente assim em um bom tempo. Ele é uma pessoa fundamental nessa mudança de ânimos agora. Al Gore não trouxe nenhuma informação nova e radical para as pessoas, mas produziu um efeito catalizador muito forte. Ele pinta cenários assustadores, mas, para resolvermos os problemas, temos que nos concentrar neles. Se ignorarmos ou ficarmos com medo, não vamos resolver nada.

Você já disse que o movimento ambientalista, em geral, fracassa ao tentar assustar as pessoas com o futuro da Terra.

Os ecologistas não fazem só isso. Estive no Brasil dois meses atrás com o Greenpeace. Estávamos trabalhando com comunidades do Tapajós, onde a organização está ajudando as comunidades a serem auto-sustentáveis. Não estamos assustando ninguém, só dizendo que é preciso preservar a floresta Amazônica, e ajudando-os a fazer isso. É uma oportunidade, não uma ameaça.

Foi a primeira vez no Brasil?

Sim, e a experiência foi incrível. Apesar de ter lidado com a natureza a minha vida toda, o encontro com a imensidão da floresta Amazônica foi algo espiritual para mim. Um momento em que pude aprender muito para a minha vida.

De fora, como você avalia a atuação do Brasil na proteção do ambiente?

O mundo todo está observando o Brasil. A ministra [Marina Silva, ministra do Meio Ambiente] é muito respeitada por aqui. Mas o país ainda tem muitos desafios. Do ponto de vista da sustentabilidade, há pontos bons e ruins. O Brasil é uma nação que ainda está em desenvolvimento, com milhões de pessoas sem uma condição econômica básica. Ao mesmo tempo, há áreas superdesenvolvidas, mais desenvolvidas que cidades americanas.

Carl Pope, do Sierra Club [organização conservacionista americana com 600 mil membros], disse que o movimento ambiental usa soluções do século 20 para problemas do século 21. O que isso quer dizer?

É engraçado ele dizer isso, já que o Carl Pope é um dos mais importantes líderes do movimento tradicional. Mas eu concordo. O ambientalismo tradicional – do qual eu tento me distanciar – falha em alcançar uma parcela imensa da população mundial que ainda aspira a ser de classe média, a maior parte do globo. Ainda não temos resposta para as pessoas que têm o consumo como maior necessidade.

Você lida com essas questões desde os 7 anos de idade. Como inspirar pessoas jovens?

Inspirar as pessoas é ouvir quais são as suas idéias e colocá-las no centro. Muitos adultos acham que estão ajudando os jovens dizendo o que eles devem pensar. Besteira. O melhor é só ouvir a molecada. Os jovens têm inspiração, o que não têm, freqüentemente, é autoconfiança.

Você é otimista quanto ao futuro do planeta?

Sim, muitíssimo otimista. Na verdade sou mais hoje que em toda a minha vida. Estou nesse trabalho há muito tempo e agora vejo coisas mudando. Isso tem a ver com uma nova mentalidade. Antes, pensávamos só em proteger a floresta Amazônica. Hoje, já vemos oportunidades em trabalhar nela. É um entendimento bem mais sofisticado.

Trabalhando para o inimigo

Em seus primeiros 30 anos de vida, Adam Werbach foi só uma vez ao Wal-Mart. Tinha ódio da gigante que definiu, em um livro escrito em 1997 (Act Now, Apologize Later, “Aja Agora, Desculpe-se Depois”, sem edição brasileira), como um “vírus, infeccionando e destruindo a cultura americana”. A gigante mundial de supermercados é a maior companhia do mundo em faturamento: US$ 351 bilhões, mais de um terço do PIB brasileiro, e é constantemente acusada de maltratar fornecedores, empregados e emitir 250 milhões de toneladas de gases do efeito estufa por ano. Por ironia, o Wal-Mart virou o maior cliente da Act Now, consultoria de Adam, e a bandeira para sua nova forma de trabalhar.

A decisão de aceitar o trabalho não foi fácil – ele diz que ficou quase um ano pensando até topar. Foi bastante criticado por ambientalistas, dizendo que estava vendendo seu prestígio para dar uma cara melhor à empresa. Ele não deu ouvidos e começou o trabalho. O plano é simples: Adam reúne grupos de funcionários de cada uma das lojas (o Wal-Mart tem 1,3 milhão de funcionários diretos) e ajuda a desenvolver planos (voluntários) para melhorar a vida. Cerca de metade dos participantes está seguindo a sua cartilha – e 12 mil trabalhadores já pararam de fumar – iniciativa-padrão da revolução ecológica de Adam.

Adam Werbach

• Mora em São Francisco (EUA) com sua mulher e duas filhas.

• Quando tinha 7 anos, checava a qualidade do ar antes de ir para os treinos de beisebol. Entrou no Greenpeace aos 13.

• Em 1995, fundou a Sierra Student Coalition, hoje com 30 mil membros. Dois anos depois virou presidente do próprio Sierra Club, maior organização ambiental dos EUA.

• Foi vegetariano por 20 anos. Voltou a comer carne, coincidentemente ao trabalhar para o Wal-Mart.

• Acha a cidade de Curitiba um exemplo mundial de sustentabilidade.