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Encantadas Galápagos

Com suas paisagens lunares e animais bizarros, um dos arquipélagos mais jovens da Terra ajuda a entender a origem da vida

São cinco ilhas, dezenove ilhotas e quarenta e sete rochedos expostos aos tórridos raios do sol equatorial e, ao mesmo tempo, cercados por águas anormalmente frias para a região. Em terra, o solo escuro, basáltico, não cessa de absorver calor. Cavernas e vulcões, florestas e desertos são povoados por animais de comportamento estranho, com os quais o homem aprende lições fundamentais para entender a evolução das espécies. Estamos no Oceano Pacifico, a 965 quilômetros da costa do Equador, no arquipélago cujo nome oficial, Colombo, ninguém usa e que é conhecido por uma palavra que evoca invariavelmente ásperas paisagens e seres pré-históricos—Galápagos.

Mas, na verdade, essas ilhas formadas por erupções sucessivas de vulcões submarinos são geologicamente jovens – muito mais jovens, por exemplo, que a América do Sul, surgida há pelo menos 65 milhões de anos. A mais antiga das rochas da ilha de Espanhola não tem sequer 2 milhões de anos. As Galápagos, com tantas espécies nativas de flora e fauna, surgiram muito depois do aparecimento da vida no planeta.

Isso dá origem a inúmeras teorias de como o arquipélago foi originariamente habitado. Provavelmente, os ventos fortes que sopram do continente, formando ondas velozes no mar, carregaram grãos de terra, sementes e fetos que acabaram sendo os primeiros colonizadores do basalto; de seu lado, os pássaros também devem ter transportado sementes nas penas e patas. Mas a gélida corrente de Humboldt, que sobe da Antártida pelo Oceano Pacifico, é a protagonista da maioria das teorias. Acredita-se que ela teria transportado, sobre troncos que serviram como balsas naturais, vários animais apanhados no caminho. como o iguana dos mares do sul e o pingüim do Pólo.

Por causa dessa corrente, a temperatura das águas em torno das Galápagos fica apenas em 20 graus centígrados aproximadamente; enquanto no ar a temperatura varia de 17 a 30 graus, nas zonas mais frias, e de 36 a 45 graus, nas áreas mais quentes. Galápagos tem seis zonas climáticas diferentes – um dos motivos da enorme diversidade de espécies, espalhadas pelos 7 800 quilômetros quadrados do arquipélago. A maior ilha, Isabela, ocupa mais da metade do total: 4 588 quilômetros quadrados, cerca de setecentos a menos que a área de Brasília.

À primeira vista, o arquipélago parece um campo negro de lavas. Nas rochas surgidas de pedreiras submarinas. o vento e a água esculpiram blocos lisos como muralhas naturais e escarpas perfuradas como esponjas. A paisagem, às vezes, é lunar. Mas no litoral há mangues e lagunas protegidas —local predileto dos flamingos. As areias das praias desertas variam do branco-amarelado aos inusitados verde e roxo.

Há vulcões por todo o arquipélago. O maior deles, o Wolf, em Isabela, com 1075 metros de altura, é cercado por 2 500 minivulcões com menos de 150 metros. É à beira das crateras vulcânicas que vivem os corvos típicos das Galápagos, com suas asas atrofiadas. Mas essa não é a única espécie exclusiva do lugar. O pingüim das Galápagos. o único que se aventurou até o Equador, é o menor pingüim do mundo: com menos de um metro, parece um anão perto de seus parentes do Pólo Sul.

O albatroz que vive na ilha de Espanhola também é a única das treze espécies dessa ave a morar nos trópicos. Os iguanas, répteis de 60 centímetros com cara de monstrinhos pré históricos e que são encontrados em quase toda a parte do arquipélago, possuem glândulas especiais, para poderem beber à vontade a água salgada das ilhas sem dano ao organismo. Mergulhões de pés azuis, uma espécie de ave marinha, também só são encontrados lá.

Mas sem dúvida são as tartarugas gigantes os habitantes mais ilustres das ilhas-tanto que deram nome ao arquipélago: galápago, em espanhol arcaico, é o nome desses animais, que medem mais de um metro de comprimento, pesam cerca de 300 quilos e vivem, em média, 250 anos. Com um certo exagero, um marujo inglês do século XVII deixou escrito em registros de bordo que se podia atravessar uma ilha sobre uma trilha formada apenas por cascos das tartarugas.

Quando as ilhas Galápagos foram descobertas, em 1535, pelo bispo do Panamá, Tomás de Berlanga, deviam amontoar-se ali cerca de 250 mil tartarugas gigantes. Hoje, não restam mais de seis mil; quatro das espécies encontradas antigamente estão extintas. As tartarugas foram uma das maiores vítimas da chegada do homem. Segundo arquivos da marinha norte-americana, no século XIX um único navio carregava até catorze toneladas de tartarugas em apenas quatro dias de buscas; a frota dos Estados Unidos caçou mais de 13 mil exemplares desse animal em 27 anos. As fêmeas eram as mais visadas, por ter mais carne e óleo, o que apressou o processo de dizimação.

O bispo Berlanga chegou às ilhas sem querer, levado pelos caprichos da corrente de Humboldt, que arrastou seu barco. Ao avistar as terras entre brumas—características do entardecer nessas ilhas—, deu-lhes o nome de Encantadas.

Berlanga foi o primeiro branco, mas não foi o primeiro homem a pisar no local. Restos de cerâmicas de civilizações pré-colombianas indicam a passagem dos incas pelo arquipélago. Mas nem eles nem outros povos permaneceram nas ilhas. Aliás, mesmo depois de descobertas, as Galápagos ou Encantadas continuaram terras-de-ninguém por muito tempo. Só despertaram o interesse dos piratas, que as transformaram em base de operações para emboscar galeões espanhóis, que voltavam à metrópole carregados de ouro das colônias.

O primeiro morador conhecido do arquipélago foi um irlandês, Patrick Watkins, que em 1807 pediu que o deixassem na ilha Floreana. Em 1809, porém, roubou um barco, enquanto a tripulação estava em terra caçando tartarugas. Fugiu com cinco negros, mas desembarcou sozinho em Guaiaquil, cidade portuária equatoriano, sem maiores explicações. Em 1832 o Equador resolveu tomar posse do arquipélago talvez à falta de concorrentes e deu-lhe o nome de Colombo, em homenagem ao genovês que descobriu a América.

Os cerca de trezentos equatorianos exilados nas ilhas por questões políticas, na época da posse, viajaram em verdadeiras arcas de Noé: levaram animais domésticos e, como passageiros clandestinos, pulgas e ratos. Os cães e gatos começaram a saborear tartarugas e iguanas. Os caprinos arrasaram a vegetação.

Poucos reconheceram o valor das Galápagos. Um desses foi o escritor norte-americano Hermann Melville, autor de um ensaio sobre as ilhas. Em 1842, o Essex, baleeiro que pertencia a Melville, foi atacado e afundado por um cachalote nas proximidades da ilha Isabela. Essa foi a inspiração de sua obra-prima, Moby Dick, sobre a baleia perseguida nos sete mares pelo implacável capitão Ahab.

Sete anos antes de Melville, em 1835, aportou nas Galápagos o seu mais famoso visitante de todos os tempos: o naturalista inglês Charles Darwin, então com 22 anos. Ali, após observar principalmente os bicos dos tertilhões (pequenos pássaros marrons, com bicos longos e finos nas ilhas em que há frutas e flores; com bicos grossos, nas regiões que só oferecem sementes duras), Darwin criou conceitos fundamentais para a teoria da evolução das espécies, como o da seleção natural em função das condições do ambiente. Ele ficou apenas 35 dias nas Galápagos — tempo suficiente para colher as provas que sustentariam uma revolução na história do conhecimento.

Em 1964, sob patrocínio da Unesco, foi inaugurada a Estação Charles Darwin, na ilha de Santa Cruz, para descobrir fósseis, proteger espécies em extinção e erradicar os animais trazidos pelos colonizadores. Não é fácil. Os antigos animais domésticos se adaptaram tão bem ao lugar que viraram selvagens, adquiriram garras e cascos grossos nas patas para suportar o solo quente. Uma medida tomada pelo governo equatoriano foi autorizar os sete mil moradores das ilhas a caçar esses animais.

Fora a pequena comunidade de cientistas, que tem interesse em trabalhar no lugar e vive isolada com certo conforto, os habitantes das Galápagos vivem em condições precárias. São descendentes de equatorianos e uma minoria de trezentos descendentes de alemães (os quais imigraram para as ilhas Santa Maria e São Cristóvão na década de 20). Eles ocupam uma área não superior a dez por cento das Galápagos, dividida em cinco ilhas, e suas dificuldades chegam a ser pitorescas. Em Porto Ayora, capital de Santa Cruz, maior vilarejo das Galápagos, as mulheres lavam roupa em cavidades naturais do solo: uma máquina de lavar não sobreviveria um ano à corrosão do ar salgado do arquipélago.

O Parque Nacional das Galápagos criado em 1936, ocupa a quase totalidade da área do arquipélago. Os turistas que se aventuram ali não podem montar acampamentos, devem andar com sacos plásticos para não -jogar objetos no chão e não podem tocar os animais. Esse cuidado tem lógica: as focas, por exemplo, que reconhecem seus pais pelo cheiro, sentem-se abandonadas ao aspirar um odor estranho; os pássaros, distraídos com afagos, podem abandonar seus ninhos, deixando os ovos expostos demais ao sol escaldante.

Em 1983 desembarcaram 20 mil turistas nas ilhas. Hoje o governo do Equador estabelece o limite de 20 mil por ano. Mas até os cientistas concordam que, um dia, ao menos as ilhas de Santa Cruz e São Cristóvão serão sacrificadas ao turismo. O sacrifício permitirá, porém, arrecadar fundos para a manutenção do Parque Nacional, onde a cada momento o homem encontra um passado misterioso e também se depara com o futuro incerto da natureza.

Para saber mais: SuperMundo