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Liberdade e reeducação para os bichos

No Centro de Triagem e Recepção de Animais Silvestres, animais em extinção, apreendidos de caçadores e traficantes, se readaptam para a volta ao lar

Francisco de Assis Monteiro

Algumas das 200 espécies de animais brasileiras em extinção, como o mico-leão-de-cara-dourada e a arara-azul, se preparam não muito longe do centro da cidade, para retornar a seus habitats. Eles são hóspedes provisórios do centro de Triagem e Recepção de Animais Silvestres – encravado no centro do Parque Ecológico do Tietê, na zona leste.Único no Brasil, o centro abriga mais de 3000 animais que sob a constante observação de dois biólogos e uma veterinária se preparam para voltar à vida livre, longe da cobiça dos caçadores e traficantes de “animais exóticos”.

A maioria deles veio das apreensões feitas pela Policia Florestal, Policia Federal e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em feiras, lojas e mini – zoológicos clandestinos.

Inaugurado em 1986

E ocupando apenas uma pequena área de 500 metros quadrados, dos 14 milhões que compõem o parque, o Centro de Triagem recebe animais vindo de todos os cantos do pais. Para abrigá-los, o centro se utiliza das muitas ilhotas que se espalham pelos lagos do parque e mais 36 viveiros , além de um pequeno ambulatório equipado para eventuais cirurgias, um laboratório e duas salas aquecidas artificialmente que reproduzem a temperatura do ambiente natural de alguns desses animais. Uma infra-estrutura de poucos recursos para um trabalho tão importante. “Muito chegam aqui em péssimo estado, doentes e assutados. Com um longo e paciente trabalho , conseguimos que esses animais possam tornar a viver sem a tutela do homem “, diz o engenheiro civil Luiz Antonio Labruna. Responsável pelo centro, ele é funcionário do DAEE, Departamento de Águas e Energia Elétrica, órgão estadual que administra o parque – abandonou a profissão há cinco anos para cuidar dos animais.
Labruna não somente recebe cada animal que chega, como o acompanha em sua recuperação e faz questão de levá-lo de volta à natureza. Por exemplo, em março deste ano , ele acompanhou o retorno de 38 animais . Eram araras – vermelhas, tucanos, papagaios, jaguatiricas e um tamanduá – mirim. Depois de alguns meses de estudos feitos pelos técnicos do centro – essa é a fase da triagem propriamente dita ­– , decidiu – se que a área da Hidroelétrica de Itaipu , no Paraná , era o ecossistema que melhor reproduzia as condições de seus habitats originais.

Quatro meses antes

Labruna levara trezes araras-azuis ao Pantanal.”Caçadas ali no Pantanal, elas forma apreendidas na Argentina e vieram para o centro magras e doentes. Eram quarenta, mais 21 morreram ainda na Argentina e outras seis aqui”, lembra Labruna . Ele as acompanhou durante os seis primeiros meses de liberdade, fase inicial da readaptação.”As araras precisavam reaprender a voar e caçar a própria comida. Tinha de refazer suas vidas e formar novos bandos”.

O retorno das aves bem como as dezesseis viagens de Labruna ao Pantanal somente foram possíveis graças ao apoio da iniciativa privada. A Enco Engenharia e Comercio, empresa de construção e pavimentação com sede em Cuiabá, pagou todas as despesas: cerca de 6 milhões de cruzeiros. Antes do final deste ano, outras trezes araras-azuis, apreendidas em Brasília e Belo Horizonte, serão levadas de volta ao Pantanal.Como as primeiras, elas serão soltas numa fazenda da própria Enco.Outro trabalho bem-sucedido foi a soltura de 400 canários-da-terra .Como tinham sido usados em rinha para brigar entre si, tiveram de se readaptar para poder viver novamente juntos.

Receber animais

E prepará-los para a volta ao lar , na natureza ,não é a única atividade do Parque Ecológico do Tietê .Ele também serve de local de lazer para a população daquela região, uma das mais pobres da capital. Cerca de 10% da área do parque são ocupadas por campos de futebol e beisebol, quadras poliesportivas , piscinas, quiosques, lanchonetes, lagos de águas limpas e pistas de cooper .Suas instalações recebem visitas de 20.000 pessoas nos finasi de semana. Alem disso, caminhadas orientadas, ao longo de uma trilha de 6 quilômetro , fazendo parte de um projeto coordenado pelo engenheiro civil e professor de educação física Fernando P. Teixeira , há sete anos empenhado nele.

Quase todos os fins de semana, Teixeira acompanha grupo de adultos e crianças ensinando-os a plantar e cultivar árvores. Mais, quando da sua inauguração pelo governo do Estado, em 1976, dez anos antes do surgimento do Centro de Triagem e Recepção de Animais Silvestres, a finalidade do parque era outra.

“Ele foi criado para preservar as várzea do Rio Tietê e conter as enchentes na cidade”, conta Luis Zuneiga Medel , administrador do parque desde a fundação .

O projeto original previa uma área de 60 milhões de metros quadrados – desde o município de Salesópolis , onde o rio nasce, ate Santana do Parnaíba a 44 quilômetros da capital – , a construção de seis barragens e um grande reflorestamento em toda a extensão das margens do rio. Por falta de verbas ou descaso das últimas administrações estaduais , o projeto original não se concretizou e apenas uma barragem, a da Penha , foi construída. Enquanto isso , as chuvas de verão continuam a provocar inundações e a infernizar a vida da cidade.Apesar de tanta água e tantos visitantes, os animais do Centro de Triagem permanecem protegidos.

Aqui eles ficam

Isolado, longe das pessoas e do barulho, para poderem reaprender a viver. Muito desses animais crescem aprisionados e dependentes do homem, e o isolamento é extremamente importante , explica Lara Biasi, a veterinária responsável , desde o final do ano passado , pela saúde dos bichos.Aos 23 anos, ela é uma exemplo de amor à causa dos animais.

Logo depois de terminar o curso de Veterinária, Lara, que mora com os pais , se ofereceu para trabalhar sem remuneração , na esperança de ser contratado.”Venho todos os dias , porque adoro os bichos e quero vê-los soltos na natureza , no lugar onde deveriam estar há muito tempo.”