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O jardim rochoso de Minas

Em meio a suas pedras, o Parque Nacional da Serra do Cipó abriga a maior comunidade vegetal em espécies por metro quadrado do mundo.

Marcelo Affini e Cadu Ladeira

A paisagem agreste, castigada pelo sol ardente do cerrado, guarda mais segredos do que podem supor os olhos do viajante, e a primeira impressão será sempre enganosa. As rochas pontiagudas, que inspiraram no século XIX o geólogo alemão Ludwig von Eschwege a batizar as montanhas com o nome de Cordilheira do Espinhaço, ainda se espalham por todos os recantos, a vegetação rala e seca reforça a sensação desolada das regiões áridas. Mas tudo não passa de uma miragem. Por trás desse cenário de aparência inóspita, repousa um dos mais belos santuários ecológicos brasileiros: ali onde já foi o fundo do mar, há 1,7 bilhão de anos, a natureza hoje abriga um jardim muito especial.

Com seus campos pedregosos, cortados agora pelas águas mansas de riachos que despencam em cachoeiras cristalinas, a Serra do Cipó, em Minas Gerais, tornou-se nos últimos anos um surpreendente laboratório a céu aberto. O filão de pesquisas para cientistas de todo o mundo é quase inesgotável. As inscrições rupestres lá encontradas ainda desafiam os arqueólogos a seguir as pistas da milenar presença humana e zoólogos já catalogaram na serra 131 espécies de aves, 56 de mamíferos e 35 de anfíbios, alguns sem similares em outras partes do planeta.É na riqueza da flora, no entanto, que ela revela todo o seu encanto. “Numa área de apenas 150 quilômetros quadrados identificamos um número de espécies vegetais equivalente à metade das que existem em toda a Inglaterra”, conta a chefe do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo, Nanuza Luísa de Menezes, que desde 1965 fez da região a ante-sala de seu gabinete de trabalho na universidade paulista. São mais espécies por metro quadrado do que na própria Amazônia — cerca de 5 000, boa parte delas endêmicas, ou seja, encontradas só naquela área — e de suas plantas já foram isoladas 150 novas substâncias por químicos brasileiros, algumas enviadas aos Estados Unidos para estudos por apresentarem atividades contra o câncer e o vírus HIV, o vilão da Aids.Localizado na porção sul da Cordilheira do Espinhaço, urna sólida parede montanhosa que se prolonga até a divisa entre a Bahia e o Piauí, o Parque Nacional da Serra do Cipó foi criado em 1984 e engloba boa parte desse tesouro em sua área de 33 800 hectares, ou 338 quilômetros quadrados. Sua topografia, porém, remete a tempos bem mais distantes, quando, onde estão estas cadeias de montanhas, imperava o oceano.

“A Cordilheira do Espinhaço já foi um pequeno mar, possivelmente tão estreito quanto o Mar Vermelho, entre a África e a Península Arábica”, explica o geólogo Carlos Noce, do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais — UFMG. Na época, América do Sul, África, Índia, Oceania e Antártida compunham um único supercontinente. “Quando essa placa continental começou a se cindir, surgiram fraturas por toda a crosta terrestre. O oceano que existia onde agora se encontra a cordilheira formou-se a partir da inundação de uma dessas fendas”, completa Wilson Teixeira, diretor do Centro de Pesquisas Geocronológicas do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo — USP.As marcas desse tempo em que o sertão era mar ainda são nítidas na região. As rochas, inclinadas na mesma direção, são sinais das forças tectônicas que elevaram uma cordilheira onde antes estava a paisagem marinha. E o quartzito, formado pela consolidação das areias depositadas no fundo do mar, predomina na composição do conjunto de pedras do Parque Nacional da Serra do Cipó, hoje aboletado em altitudes que variam dos 900 até os 1 800 metros. “É lógico que, depois de tantos anos sob a ação do tempo. a paisagem de agora não é mais do que uma foto desbotada das montanhas que se alçaram do mar há milhões e milhões de anos”, lembra Noce.

Desbotado ou não, é a esse berço rochoso que a exótica comunidade vegetal da serra, que tem nas sempre-vivas sua estrela mais popular, deve muito de sua personalidade. Graças ao solo, que praticamente não absorve água, as plantas de lá desenvolveram sua característica mais marcante: uma extraordinária capacidade de viver em ambientes hostis. Castigadas durante o dia pelo excesso de luminosidade e de calor — que aquece as pedras até os 50°C — , por um frio noturno capaz de baixar a temperatura dessas mesmas pedras a 0 grau e pela escassez de água, elas aprimoraram o nível de especialização que garantiu sua sobrevivência.

O primeiro obstáculo foi a falta de nutrientes. Como as chaves sempre foram escassas na região e a pouca água trazida pelas precipitações do verão escoa rapidamente devido à impermeabilidade do terreno, a flora teve que se adaptar para aproveitar a umidade do ar como principal fonte de sustento. As canelas-de-ema, por exemplo, da família das velosiáceas, desenvolveram uma espécie de falso caule, composto pelas bainhas das folhas velhas que caem: ao se ligarem ao ramo principal da planta, as bainhas vão formando uma camada protetora para as raízes que nascem coladas ao caule. Encobertas por essa capa, elas passam a acumular água como se fossem uma esponja. “Apesar da aparência espessa, o caule real não tem mais do que um centímetro”, informa Nanuza. Sua prima, a Vellazia glabra, tem como dote especial minúsculos orifícios em suas folhas (estômatos), situados em fendas que permanecem abertas quando há muita água disponível e são fechadas quando o precioso líquido escasseia.

Mesmo buscando surpreendentes mecanismos de sobrevivência, as plantas rupestres apresentam floradas belíssimas para quem tem oportunidade de apreçiá-las. “A multiplicidade de tipos e gêneros é tamanha que a Serra do Cipó está sempre florida, não importa a época do ano. Há flores para a primavera, verão, outono e inverno”, enfatiza o cientista Angelo Machado. Apaixonado pela região desde garoto, o médico — que nunca exerceu essa profissão — chega aos 55 anos como um dos grandes incentivadores da pesquisa científica não somente nas imediações do Cipó, mas em toda a Cordilheira do Espinhaço. São orquídeas, bromélias, margaridas, cactos, ipês, quaresmeiras e, principalmente, as famosas sempre-vivas, aquelas flores secas que não murcham nem perdem a cor, utilizadas na ornamentação de vasos e na decoração de embrulhos de presentes.Só em 1982 foram extraídas nas cidades de Diamantina, MG, e Mucugê, BA, nada menos que 1 milhão de quilos dessas flores. Uma colheita recorde, que indignou a comunidade científica e deu impulso definitivo à luta pela criação do parque nacional, dois anos depois. Para se ter uma idéia do volume da depredação, basta um simples cálculo matemático. Um quilo corresponde a mais de 18 000 escapos (bolotas) de sempre-vivas mutiladas dos campos. Como uma planta produz em média 18 bolotas, cada uma delas contendo de 200 a 500 flores minúsculas, a quantidade exportada representa a incrível batelada de 1 bilhão de plantas, ou uma média de 5,5 bilhões de flores. Com o Parque Nacional, o estigma da extinção foi afastado da Serra do Cipó. “Protegidas por lei, as floradas agora serão eternas”, comemora Nanuza Menezes.

As pinturas rupestres da Lapa Sucupira, uma enorme cavidade esculpida nas rochas nos últimos 20 000 anos pelas enxurradas, não tiveram tanta sorte. Embora fique nos limites do município mineiro de Santana do Riacho, onde se encontra boa parte do território do parque nacional, o sítio arqueológico está oficialmente fora de proteção. Ali, foi encontrado um cemitério que pode ser o mais antigo do mundo, já que até hoje nenhum arqueólogo encontrou um terreno reservado exclusivamente aos mortos que remontasse a 15 000 anos.Nas suas paredes, os desenhos estampados através de milênios registram imagens que vão dos veados e peixes cercados por figuras antropomorfas, datados entre 8 000 e 7 000 anos atrás, até figuras humanas menores e mais naturalistas, provavelmente feitas há 2 000 anos. “Interpretar essas pinturas é tarefa complicada”, diz o arqueólogo francês André Prous, chefe da equipe de arqueologia da UFMG que tem se encarregado de estudar o acervo da Lapa Sucupira. “Por enquanto, sabemos que eram Homo sapiens sapiens e apesar de reproduzirem animais, o tipo de desgaste de seus dentes indica que deviam comer pouca carne.”O mundo florido da Serra do Cipó é também a residência eleita de uma impressionante quantidade de pássaros. Beija-flores ali não faltam. Milhares deles se alimentam do néctar e, em troca da polinização, ajudam a perpetuação dos vegetais. Alguns são particulares daquela região, como o Leucochloris albicolis, de cor verde metálico e pescoço branco “Parece que ele usa um lenço no pescoço”, brinca Ângelo Machado.

O ornitólogo francês Jacques Veielliard, que trabalha no laboratório de bioacústica do Instituto de Biologia da Universidade de Campinas — Unicamp —, identificou há pouco tempo, por mero acaso, uma nova espécie de ave.Durante uma sessão de gravações de cantos de aves, Veielliard percebeu um som diferente e encontrou sua fonte: um passarinho diminuto, marrom-pardo, endêmico da cadeia do Espinhaço e provavelmente em processo de extinção. “Ele é parente do joão-de-barro, da família dos furnarídeos, e seu canto se destaca no ambiente, pois pode ser escutado a mais de um quilômetro”, garante o francês. Em suas incursões à Serra do Cipó, ele já detectou a presença do gavião-pomba, inserido na lista das espécies brasileiras ameaçadas de extinção, e até de águias chilenas, comuns do sul do Brasil, Chile e Argentina. “Parece que elas gostaram do lugar e resolveram morar por ali. Encontramos ninhos delas no parque.”Embora não estejam catalogados cientificamente, os mamíferos da Serra do Cipó têm também proporcionado surpresas agradáveis aos pesquisadores. Num trabalho para a UFMG, o biólogo Júnior Augusto dos Santos Silva faz o levantamento preliminar a respeito, onde estão incluídas onças-pardas, lontras, tamanduás, jaguatiricas, raposas, lobos-guarás e veados. “Eu ainda não vi, mas há registros de técnicos do governo federal que indicam a existência do cachorro-do-mato-vinagre, um bicho raríssimo e considerado extinto”, afirma Júnior, que tem pela frente a responsabilidade de realizar o primeiro inventário sistematizado dos mamíferos da região.Se a população de mamíferos ainda não é totalmente conhecida, insetos e anfíbios, em contrapartida, já foram largamente estudados. O precursor das pesquisas com anfíbios foi Werner Bokermann, hoje um dos diretores da Fundação Parque Zoológico de São Paulo.

Há trinta anos, o Dr. Werner, como é conhecido, passou a se interessar pela Serra do Cipó depois de ouvir os comentários de seus colegas Angelo Machado e Amilcar Martins sobre os bichos exóticos do lugar, como libélulas e mosquitos. Procurando um tipo especial de sapo encontrado na Serra do Caraça. outra elevação que faz parte do sistema Espinhaço, o anfibiólogo acabou por visitar o Cipó. Desde então, foram mais de trinta expedições, em que ele catalogou 35 espécies de sapos, rãs e pererecas, onze delas endêmicas.Entre elas a Hyla cipoense, uma perereca cujas listras lhe valeram o nome de perereca-de-pijama. Há também a rã-da-careta, apelidada por afugentar seus inimigos de forma pouco convencional. Para se proteger, ela abaixa a cabeça contra o chão e estica as patas posteriores, levantando a parte traseira do corpo. Com esse efeito, ela assume formas bem maiores do que realmente apresenta: além de triplicar no tamanho, os ocelos das virilhas — manchas pretas arredondadas — dão a impressão de serem olhos enormes e aterrorizantes, utilizados sabiamente para assustar os predadores.Quase toda essa riqueza natural está hoje sob o manto protetor do Parque Nacional da Serra do Cipó. A devastação não ameaça tanto como no passado o paraíso onde os campos rupestres, cravados de pedra, a secura do cerrado e as matas ribeirinhas convivem em harmonia. Com a beleza das mais de sessenta cachoeiras e dos desfiladeiros de até 80 metros de profundidade em meio a suas colinas, esse pequeno pedaço da serra que serviu de rota para os bandeirantes, foi vasculhado pela ambição da corrida do ouro no século XVIIl. e calçado pelas mãos dos escravos negros, pertence agora ao futuro.

Para saber mais:

Cerco ao campo

(SUPER número 4, ano 4)

Fortes aliados contra o câncer e AIDS

Atrás de remédios contra o câncer e o vírus da Aids, o HIV, o Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, está investigando duas novas substâncias — a nanuzona e um tipo de cleistanta — isoladas a partir de plantas brasileiras. Identificadas por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, comandada pelo professor Ângelo da Cunha Pinto. as substâncias fazem parte de um grupo de 150 estruturas químicas, inéditas na literatura científica especializada, obtidas após a análise de trinta espécies vegetais naturais da Serra do Cipó.Tudo começou durante uma visita de Cunha Pinto ao parque nacional e as grandes vedetes da história chamam-se Vellazia nivea e Vellazia nanazue — que ganhou esse nome para homenagear a pesquisadora Nanuza Luiza de Menezes. As duas, que são largamente encontradas na serra, chamaram a atenção do químico carioca principalmente porque, além da sua extraordinária habilidade para viver, dificilmente são atacadas por predadores. “Quando vi plantas sadias em lugares com pouca terra e água, o meu interesse foi imediato”, conta ele. “A resistência é um forte indício da presença de mecanismos de defesa quimicamente aperfeiçoados.”Mas foi só a partir da publicação dessas descobertas na revista inglesa Phytochemistry, que divulga internacionalmente trabalhos e estudos de químicos de todo o mundo, que as substancias despertararn o interesse dos americanos. Não demorou muito e o diretor do Instituto Nacional do Câncer, localizado no Estado de Maryland, entrou em contato com o pesquisador brasileiro. “Eles perceberam que as características descritas eram semelhantes às de outras estruturas presentes em alguns extratos que já estavam sendo testados contra câncer e HIV”, diz Cunha Pinto. Atualmente, a professora Lígia Maria Marino Valente, também do Instituto de Química da UFRJ, está participando das pesquisas realizadas no Instituto Politécnico da Universidade Estadual de Virgínia com os extratos que Cunha Pinto retirou das velosiáceas. “Sabemos que eles são ativos no combate ao câncer, mas o isolamento em forma pura da substância ainda não foi totalmente realizado”, revela Lígia.