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O mundo se agita

Terremotos, erupções vulcânicas, secas e inundações abalam periodicamente a Terra. Por que isso acontece? Onde entra o homem nesse processo? É possível prevenir as catástrofes?

Os cientistas ainda não têm uma explicação acabada para o que vem acontecendo. Mas há sinais evidentes de que algo está mudando na superfície terrestre. A temperatura média global, em 1989, foi de 14,2 graus Celsius, a mais alta desde que se começou a fazer medições confiáveis, há 130 anos. Os cinco anos mais quentes deste século foram registrados na década de 80 e, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOOA), dos Estados Unidos, houve um aumento de temperatura de 1,71 grau Celsius de 1900 até hoje. Apesar disso, a maioria dos climatologistas concorda que conclusões definitivas só poderão ser tiradas daqui a alguns anos, mas, de todo modo, é virtualmente cerco que essas variações têm a ver com a ação do homem.

O aquecimento do planeta, com efeito, parece estar diretamente relacionado ao efeito estufa, causado pelo aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Isso ocorre, como se sabe, principalmente por causa da queima maciça de combustíveis fósseis, os derivados de petróleo. Além disso, os gases emitidos pela indústria estão aumentando nas camadas altas da atmosfera, o que contribui para o acréscimo da temperatura. Se, como prevêem os estudos científicos, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera crescer duas vezes e meia até o ano 2075 e a emissão dos gases afanosos continuar no ritmo atual, a temperatura terrestre poderá elevar-se entre 5 e 16 graus. Seria uma calamidade pior do que qualquer outra já experimentada pela espécie humana desde seu aparecimento na face da Terra. As secas, as ondas de calor e os furacões seriam mais freqüentes e intensos, talvez subvertendo radicalmente o clima do mundo.

Mas é preciso cautela com essas hipóteses, alerta o meteorologista Paulo Marques dos Santos, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo. Ressalva ele: “Ainda não foi possível manter o acompanhamento do que se passa com a atmosfera em todos os pontos ao redor do planeta ao mesmo tempo”. E questiona: “Será que somente a quantidade de gás carbônico que o homem lança no ar teria realmente o poder de provocar tantas mudanças? Elas podem ser parte de algum ciclo climático ainda desconhecido”. Todas essas circunstâncias só fazem aumentar o interesse pelas catástrofes naturais e o que elas podem ensinar sobre as forças inerentes ao planeta. Por isso a atenção se volta não apenas para as desgraças causadas por fenômenos climáticos— como secas, inundações, incêndios florestais —, mas também para aquelas que se relacionam com a dinâmica íntima da Terra: terremotos, erupções vulcânicas, erosões.

É preciso considerar ainda a relação que pode existir entre os fenômenos da natureza e os desastres que o homem desencadeia. “As perdas que se devem a catástrofes naturais estão crescendo como resultado do aumento da população e de sua concentração em áreas urbanas vulneráveis”, aponta Frank Press, presidente da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. “Durante os últimos vinte anos, esses desastres causaram quase 3 milhões de vítimas e afetaram 800 milhões de pessoas em todo o mundo”, contabiliza. Não que a freqüência dessas catástrofes tenha aumentado nos últimos anos. “A ocorrência dos desastres naturais parece ser aproximadamente a mesma do passado”, compara por sua vez o pesquisador Keillis-Berek, da Academia de Ciências da União Soviética. “O que acontece é que agora causam danos maiores por três motivos fundamentais: a explosão demográfica, a proliferação de grandes edificações e a desestabilização do solo nas metrópoles.”

Essa situação alarmante levou a ONU a proclamar os anos 90 como a Década Internacional para a Redução dos Desastres Naturais. O apelo à cooperação internacional nessa área crítica pode produzir resultados concretos, eventualmente atenuando as conseqüências de um terremoto, por exemplo. Os terremotos, como se sabe, têm suas origens nos movimentos das placas tectônicas—imensos blocos de rocha rígida —que se deslocam sobre a astenosfera, a camada menos rígida do manto, que fica logo abaixo da superfície da Terra. “É muito difícil saber com precisão quando um sismo vai ocorrer”, diz o professor Igor Pacca, do Instituto Astronômico e Geofísico da USP. “Um dos caminhos é observar continuamente os abalos que ocorrem em determinada região, fazendo o que se chama monitoramento sísmico, estando-se alerta a qualquer mudança na atividade desses abalos.”

Em fevereiro de 1975, na região de Liaoning, China, a terra tremeu, mas causou um número reduzido de vítimas. Isso porque, além do acompanhamento científico, os chineses se valeram de um interessante recurso para se prevenir, observaram antes do abalo que os animais estavam completamente desorientados. O mesmo, porém, já não ocorreu no ano seguinte, quando, segundo dados oficiais, morreram 242 000 pessoas num terremoto em Tangshan, também na China.Na verdade, esse país, bem como o Japão, o Irã, o Afeganistão, as Filipinas, a Indonésia, a costa do Pacífico nas Américas, a Turquia e a Nova Zelândia são as principais zonas sujeitas a tremores de terra. As erupções vulcânicas têm a mesma origem dos terremotos: os movimentos das placas tetônicas. Os efeitos, naturalmente, variam. A erupção do Vulcão Kilauea no Havaí, em 1987, foi suave perto da destruição causada pelo Nevado del Ruiz, na Colômbia, em 1985, quando 23 000 pessoas morreram e a cidade de Armero foi varrida do mapa.

A razão principal da tragédia foi a mistura de lava, gelo e barro, que se transformou em verdadeiro, arrasando os lugares por onde passava. Um rio de lava pode alcançar velocidades de até 100 quilômetros por hora e percorrer centenas de quilômetros. Ele se forma quando a erupção do vulcão derrete a neve em volta da cratera. Tanto os terremotos quanto as erupções vulcânicas submarinas podem provocar os tsunamis—gigantescas ondas de até 50 metros de altura que se deslocam a cerca de 200 metros por segundo, o equivalente a 720 quilômetros por hora, mais depressa do que um avião a hélice.

A explosão do Krakatoa, na Indonésia, em 1883, levantou tsunamis que arrasaram as ilhas de Java e Sumatra e três centenas de aldeias e vilarejos.

Os furacões ou tufões também são devastadores: ventos com velocidades acima de 100 quilômetros horários se originam no mar, devido ao encontro de duas massas de ar com temperaturas diferentes. Gera-se então um ciclone, núcleo de baixa pressão, com fortes ventos que provocam vagalhões, muralhas de água com mais de 10 metros de altura. Estas, muitas vezes, chegam a alcançar a costa, espalhando destruição. A mesma queda de pressão capaz de elevar violentamente o nível das águas do mar pode formar em terra os tornados: ventos de até 500 quilômetros por hora, que arrancam árvores e casas. Dependendo do lugar onde aparecem, esses fenômenos recebem nomes diferentes: furacões, nos Estados Unidos, onde costumam ocorrer de julho a outubro; tufões, que surgem entre julho e outubro na China; ciclones, na Índia, de abril a junho e de setembro a dezembro; ciclones tropicais, entre dezembro e março nas Filipinas; willy-willies de dezembro a março na Austrália. O costume de pôr nomes nessas tempestades tropicais começou por volta de 1900, quando um meteorologista batizou os willy-willies com nomes de pessoas de quem não gostava. Desde a Segunda Guerra Mundial, os furacões passaram a receber nomes femininos, porque seriam tão imprevisíveis quanto as mulheres. O feminismo acabou com essa moda. Os dois últimos furacões que assolaram o Caribe foram chamados Gilberto e Hugo—e seus efeitos não foram tão imprevisíveis assim, graças à defecção proporcionada por satélites artificiais. Junto com os furacões, chegam as chuvas torrenciais e as inundações, agravadas às vezes, por alterações causadas pelo homem na superfície terrestre. Entre 1980 e 1985, as inundações afetaram quase 200 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, em 1983, dez dias de chuvas intensas causaram cheias que atingiram os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, deixando desabrigadas 400 000 pessoas.

Os deslizamentos de terra nas zonas montanhosas, provocados pelas chuvas, são especialmente numerosos e destrutivos nas áreas mais povoadas dos países do Terceiro Mundo, porque não se faz o planejamento do uso do solo. Em fevereiro de 1988, por exemplo, a cidade fluminense de Petrópolis ficou semidestruída pelos desabamentos ocorridos nos morros depois de chuvas intensas. Além da terra, do vento e da água, o fogo também pode se tornar um inimigo difícil de ser combatido. Os incêndios florestais de origem natural atuam como mecanismos de controle e de regulação das matas —algo muito diverso dos efeitos do fogo ateado pelo homem. No Brasil, as queimadas na Amazônia destinadas a incorporar à pecuária novas extensões de terra têm sido um escândalo internacional. Segundo dados recentes do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), o Pará é a maior vítima: já perdeu 11% de sua cobertura vegetal.

A capa vegetal do planeta, mais precisamente as selvas e florestas, tem importante missão a cumprir, regulando o regime de chuvas e o clima. Também mantém os solos compactos e firmes, favorecendo a circulação das águas e impedindo a erosão, grande inimiga desses ecossistemas. Com os incêndios, o equilíbrio se rompe, os solos se desnudam e ficam frágeis. Se essa situação se prolongar, o ambiente fresco e úmido da floresta se tornará aos poucos tórrido e seco. O Deserto do Saara foi há 70 milhões de anos uma exuberante floresta . A desertificação é um fenômeno complexo no qual influem alguns fatores como o clima e a atividade humana. Esse conjunto de interações provoca a drástica diminuição das chuvas durante prolongados períodos de tempo. A evaporação e a diminuição do fluxo das correntes de água acabam por transformar a região em deserto.

Sobretudo na África, as secas se intensificaram ao longo do século por causa do desmatamento. As instituições internacionais deram o alarme desde o início do processo, não só pelas conseqüências imediatas sobre o meio ambiente, mas também porque as secas propiciam o aparecimento de um dos desastres naturais mais temidos pelo homem: as pragas de insetos, sobretudo gafanhotos. Esses vorazes devoradores de vegetais sobrevivem em áreas distantes e semidesérticas, onde é muito difícil localizá-los e combatê-los. Dali, se lançam periodicamente ao ataque. Alguns enxames chegam a concentrar 100 milhões de indivíduos. Arrasam tudo: pastos e cultivos, flores, frutos e sementes, deixando atrás de si um rastro de desolação. A agricultura, o gado, a ecologia florestal demoram anos para se recuperar. A última invasão de gafanhotos no Norte da África, na primavera de 1988, formou uma nuvem que chegou a 35 quilômetros. Temeu-se que a praga pudesse alcançar o sul da Europa. Felizmente, esse exército devorador foi contido antes disso.

Os desastres naturais representam uma ameaça crescente para a população humana, que não cessa de crescer, e para os bens materiais que ela produz. No início do século, a Terra era habitada por 1,6 bilhão de pessoas. Hoje, esse número cresceu para 5,3 bilhões e prevê-se que, daqui a cinqüenta anos, a cifra se eleve a 12 bilhões. Se as forças naturais seguirem atuando no mesmo ritmo, o risco de perdas de vidas humanas pode duplicar. Essa é a principal motivação da campanha da ONU para reduzir os efeitos dos desastres naturais. O planejamento do futuro requer uma série de medidas que permitam identificar as zonas mais vulneráveis, organizar melhor o uso do solo, aperfeiçoar o fornecimento de serviços essenciais como água encanada, gás e eletricidade, fazer construções capazes de resistir ao desgaste de seus componentes. E, sobretudo educar as populações para torná-las aptas a se autoproteger e colaborar eficazmente nos trabalhos de salvamento e reconstrução.

Para saber mais:

Memórias da Terra

(SUPER número 8, ano 3)

Radiação, calor, movimento: terremoto

(SUPER número 3, ano 9)

1 000 léguas subterrâneas

(SUPER número 8, ano 10)