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O que fazer com a educação pública? 3 lições para São Paulo

Pesquisa da Fundação Lemann detecta ilhas de excelência na educação pública. O que essas histórias de sucesso podem ensinar para o estado de São Paulo, que vive uma crise profunda na educação?

Por Denis Russo Burgierman - Atualizado em 4 nov 2016, 19h04 - Publicado em 2 dez 2015, 18h45

Enquanto a educação pública de São Paulo, o Estado mais rico do País, passa por uma grande crise, algumas dezenas de escolas pelo país conseguem resultados excelentes, mesmo em regiões pobres e com condições difíceis. A Fundação Lemann, uma organização dedicada à educação, divulgou esta semana a pesquisa Excelência com Equidade, que lista 35 escolas pelo Brasil, que, mesmo com sérios problemas sócio-econômicos, conseguem níveis de aprendizado altíssimos. A lista tem algumas lições que podem inspirar São Paulo, onde há cerca de 200 escolas ocupadas por alunos, em protesto contra a reestruturação imposta pelo governo do Estado.

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Lição número 1: Mudar de escola é sempre difícil

Uma constatação bem clara da pesquisa da Lemann é que quase todas as melhores escolas públicas do Brasil são lugares onde os alunos passam muitos anos – elas oferecem todo o ensino fundamental e médio, ou ao menos o fundamental inteiro, do 1º ao 9º ano. Dessa maneira, conseguem criar um projeto pedagógico claro que vai das primeiras letras e números até a preparação para o mercado ou a faculdade. Além disso, os alunos não precisam ficar trocando de escola no meio do ciclo, o que muitas vezes é um trauma, ainda mais para um pré-adolescente que tem nos amigos uma referência muito forte. “Mudar de escola é sempre um desafio”, diz o especialista em políticas públicas Ernesto Martins Faria, coordenador-geral da pesquisa da Lemann.

Nesse sentido, a reorganização proposta pelo governo de São Paulo vai na contramão da excelência, já que a ideia é separar as escolas em três tipos: as que oferecem os primeiros anos do fundamental (do 1º ao 5º), os anos finais (do 6º ao 9º) e o ensino médio. “Não está necessariamente errado”, diz Ernesto. “Realmente isso otimiza recursos e faz sentido pensar escolas com infraestrutura mais adequada para cada fase do aprendizado. Mas isso só dará certo se houver um projeto muito claro para suavizar essas quebras – o Estado tem que ter um plano para que o projeto pedagógico não se perca a cada vez que os alunos mudarem de escola.” Nada indica que esse plano exista.

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Lição número 2: Escola tem que ser parte da comunidade

Outro padrão que apareceu claramente entre as escolas públicas que se destacam no Brasil mesmo em condições difíceis é que elas costumam ser referências muito fortes para a comunidade. Um caso extremo é o da Escola de Ensino Fundamental Miguel Antônio de Lemos, em Pedra Branca (CE), a 260 km de Fortaleza, sobre a qual a SUPER fez esta reportagem. A escola de Pedra Branca é uma referência tão forte para a cidade que toda a população sente-se incentivada a participar do ensino das crianças, oferecendo aulas ou mesmo serviços a baixo custo. O resultado é que o índice de evasão é zero e os funcionários da escola são profundamente envolvidos na vida de cada criança.

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Novamente esse é um ponto de atenção para o Estado de São Paulo, que pretende fechar várias escolas tradicionais, com laços antigos com a comunidade à sua volta. “O ensino público precisa mesmo mudar, e a preservação desse vínculo da comunidade com a escola não pode ser um empecilho para a inovação”, diz Ernesto. “Mas fechar uma escola que é uma referência forte só pode acontecer depois de muita conversa com a comunidade.” Não foi o que aconteceu.

 

Lição número 3: O aluno é o protagonista, o Estado ajuda

Um dos grandes problemas da educação contemporânea – não só na rede pública e não só no Brasil – é a dificuldade de envolver os alunos, de fazer com que eles sintam que aquilo é importante para eles. Para fazer isso, só tem um jeito: levar muito a sério as opiniões deles, deixá-los inclusive moldar em algum nível o ensino que é oferecido. “Neste sentido, o maior problema dessa reorganização talvez não seja o que eles querem fazer, mas o como”, diz Ernesto. A reestruturação foi decidida de cima para baixo, sem envolver a comunidade na discussão, passando a sensação de uma intervenção de burocratas na vida da escola. Natural que isso provoque uma reação negativa.

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Na lista das escolas excelentes, mesmo em regiões carentes, dois Estados se destacam muito: Minas Gerais e Ceará. De um total de 35 escolas, 12 são cearenses e 15 mineiras. Ernesto diz que uma característica importante da educação pública nesses dois Estados é que, em ambos, há uma proximidade muito grande entre a administração e as escolas. “Em boa parte do Brasil, a secretaria de educação apenas vai lá, aponta o dedo, diz que está tudo errado e vai embora. Em Minas e no Ceará é diferente.” Lá, as secretarias de educação têm clareza do projeto pedagógico e são reconhecidas pelas escolas, inclusive porque ajudam a lidar com os problemas locais, em vez de apenas cobrar.

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