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Quanto podemos tirar da mãe natureza?

Cientistas da Nasa calculam o tamanho da necessidade humana de alimentos, madeira e combustível. O objetivo é evitar o desperdício de recursos do planeta

Carla Aranha

Nos últimos anos, ecologia se tornou um assunto até para a Nasa, a agência espacial americana. A crescente preocupação com o meio ambiente motivou os pesquisadores do Nasa Goddard Space Flight Center, em Greenbelt, Maryland, a colocar a tecnologia espacial a serviço da salvação do globo. Em junho de 2004, pela primeira vez, o instituto obteve dados que mostram quanto o ser humano de cada parte da Terra precisa de alimentos, madeira e combustível em relação ao que é produzido no mundo. Para chegar a essa estimativa, mapeou o planeta com satélites de última geração e cruzou os dados obtidos com os índices de clima e vegetação. Os pesquisadores Marc Imhoff e Lahouari Bounoua descobriram então o impacto que os habitantes de cada região do planeta exercem sobre ecossistemas específicos. Agora é possível mensurar, com muito mais precisão, quais são as regiões que correm mais risco e que tipo de política ambiental é mais adequado para cada uma delas. “Usamos a tecnologia da Nasa para entender melhor como podemos manter a mais alta quantidade possível de produção de alimentos e, ao mesmo tempo, preservar as riquezas biológicas do mundo”, diz Imhoff.

Os cientistas utilizaram um índice chamado NPP (sigla em inglês de “produção primária líquida”), que mede a produção vegetal anual em terra firme no mundo inteiro, excluindo-se os oceanos. Eles calcularam que, em média, o homem precisa a cada ano de 20% da NPP gerada no mundo a cada ano, na forma de alimentos, madeira e combustível. Mas há diversas variações pelo mundo afora, às vezes até dentro de um mesmo país. Em regiões de baixa densidade populacional, como o Amazonas, é consumido um percentual bem pequeno da NPP gerada localmente. Na outra ponta, em grandes centros urbanos, o homem consome 300 vezes mais do que a produção local. Se a população dos países pobres aumentasse seu consumo ao mesmo patamar dos países desenvolvidos, a média global anual de consumo da NPP ultrapassaria 35%.

Em alguns casos, a tecnologia mais avançada ajuda a reduzir o desperdício no consumo. Os cientistas da Nasa dão um bom exemplo disso. Em nações industrializadas, uma tonelada e meia de árvore é a quantidade necessária para se obter uma tonelada de madeira de construção. Ao passo que, nos países em desenvolvimento, são necessárias mais de duas toneladas de árvores para obter a mesma quantidade de madeira.

Os dados da Nasa já estão nas mãos dos ecologistas, que procuram formas mais eficazes de proteger a natureza levando em conta as necessidades de consumo do homem. Imhoff e Bounoua apontaram que as regiões que mais precisam consumir alimentos, madeira e combustível são as mais suscetíveis a mudanças climáticas. Os estudos a esse respeito continuam, pois ainda não há certeza sobre a forma como a ecologia influencia o clima. “Mas a largada foi dada”, diz Imhoff.

O impacto da descoberta

O cálculo do quanto realmente precisamos da vida vegetal gerada pela Terra pode orientar futuras políticas ambientais. A estimativa possibilita o planejamento da produção máxima de alimentos sem comprometer a biodiversidade

Espaçosas

Cidades ocupamsolo mais fértil e afetamo meio ambiente

Os pesquisadores Marc Imhoff e Lahouari Bounoua, da Nasa, realizaram um estudo sobre o impacto da urbanização no meio ambiente. Baseando sua pesquisa nos Estados Unidos, os cientistas verificaram que a maior parte das cidades americanas prosperou em solos férteis, um fenômeno fácil de entender: ao longo da história, quando a agricultura dá certo numa região, ela logo vira um chamariz e provoca a urbanização, até ser expulsa para áreas mais remotas e, muitas vezes, menos férteis.

Imhoff e Bounoua concluíram que, embora as cidades americanas ocupem hoje só 3% do território nacional, essa área mais fértil bastaria para gerar o equivalente à produção agrícola atual, espalhada por 29% do país. Em outras palavras, para produzir a mesma quantidade de alimentos, os agricultores necessitam de área muito maior do que precisariam se não tivessem sido expulsos das cidades. Imhoff e Bounoua dizem que a urbanização não é uma coisa ruim em si, já que estimula a convivência entre as pessoas e permite o compartilhamento de recursos. O problema é que esse processo ocorre, na maioria das vezes, sem qualquer planejamento e sem levar em conta o impacto ambiental, já que a urbanização afeta a biodiversidade, a ocupação do solo, as reservas de alimentos, a qualidade do ar e até mesmo o clima.