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A ciência prova: odiar as mesmas coisas produz as melhores amizades

O desgosto pela mesma coisa faz sentir que conhecemos o outro mais rápido e traz sensação de pertencimento

Por Victor Bianchin 9 jun 2026, 18h00
A ciência prova: odiar as mesmas coisas produz as melhores amizades Priorizar nos meus resultados Google

Poucas coisas são tão satisfatórias quanto encontrar alguém que você gosta e descascar junto tudo aquilo que merece: as pessoas desprezíveis, os políticos detestáveis, o entretenimento medíocre, os acontecimentos mundanos que só são dignos de nota perante o asco. De fato, odiar junto é mais do que um extravaso ou uma troca de cumplicidades: é uma sinergia de sentimentos que apenas as mais fortes amizades conseguem entender.

A ciência concorda: e

m 2006, um estudo das Universidades de Texas e de Oklahoma analisou 120 pessoas com idades entre 16 e 25 anos e detectou que, quando elas descobriam que tinham uma aversão a algo e que outra pessoa (um estranho) sentia o mesmo, elas se sentiam mais próximas desse estranho do que das pessoas que diziam ter afeição por esse algo. Mesmo sem conhecer a pessoa, saber que ela desgostava do mesmo que você já bastava para trazer alguma proximidade.

Segundo os autores dessa pesquisa, “compartilhar atitudes negativas é atraente porque estabelece limites entre grupos internos e externos, aumenta a autoestima e transmite informações altamente diagnósticas sobre quem as possui”. Ou seja: não é só pela fofoca. O sentimento de desprezo pela mesma coisa traz informações que ajudam a entender aquela outra pessoa. “Se existe um lado positivo na fofoca, acreditamos que seja o de que atitudes negativas, ainda que leves, compartilhadas em relação aos outros podem criar e/ou ampliar a intimidade interpessoal”, diz o texto.

Esse estudo, embora não seja exaustivo, virou uma referência relativamente conhecida dentro da psicologia social sobre o fenômeno de “bonding through shared dislike” (“conexão por meio de antipatia compartilhada”). Desde então, outros estudiosos tentaram seguir a mesma linha para entender por que isso acontece.

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Em 2009, um graduando de Psicologia da Universidade da Flórida, orientado por uma das autoras do estudo de 2006, publicou uma tese tentando entender o fenômeno. O trabalho sugere dois mecanismos importantes: o ódio mútuo faz a gente sentir que conhece a outra pessoa muito mais rapidamente e também causa um aumento temporário da autoestima e da sensação de pertencimento.

E mais recentemente, em 2026, um estudo da Universidade de Wenzhou , na China, observou que as pessoas usam relações negativas compartilhadas para construir mapas sociais e enxergam alianças a partir de antagonismos mútuos. É uma inversão curiosa: embora relacionamentos negativos possam enfraquecer as experiências sociais, diz o texto, as interações negativas compartilhadas podem servir como ferramentas para construir relacionamentos positivos.

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Política

Essas formulações acadêmicas ajudam a entender um aspecto da nossa vida que vai muito além das amizades: o comportamento político. Em 2018, os autores Alan Abramowitz e Steven Webster

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publicaram o livro “Partidarismo negativo e a nacionalização das eleições nos EUA”, onde observam que eleitores modernos são cada vez mais motivados pelo medo, pela rejeição e pela antipatia ao outro partido.

Votar “contra” virou tão importante quanto votar “a favor” e identidade política virou identidade social. Da mesma forma, adversários políticos passaram a ser vistos como ameaça moral/cultural. Portanto, a pessoa A e a pessoa B podem até não votar no mesmo candidato, mas seu ódio mútuo por um mesmo político as unirá ideologicamente e criará uma sensação de comunidade entre elas.

Ou seja: se você vê um grupo de ativistas políticos e não entende como pessoas tão diferentes conseguem estar juntas, a explicação é que elas foram unidas pelo ódio. A sensação que elas têm ao criticar determinado candidato ou partido é a mesma que você e seu amigo sentem quando se juntam para falar mal de um desafeto.

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