Morte por emparedamento: uma das punições medievais mais terríveis é, na verdade, um exagero histórico
Os medievais preferiam outros tipos de punição
Em Antígona, a tragédia de Sófocles composta no século 5 a.C., a personagem-título transgride as ordens do soberano de Tebas, Creonte, e é condenada a ser sepultada viva numa tumba de pedra. Além da punição política, havia também um simbolismo religioso: Antígona era retirada do mundo dos vivos sem estar morta. Ficava, portanto, em um estado intermediário entre a vida e a morte, o que pode ser interpretado como uma espécie de sacrifício.
Ainda que Antígona seja uma história de ficção, esse pode ser considerado uma das primeiras representações históricas de immuratio (“colocação dentro do muro”), a ideia de uma punição em que a pessoa era encerrada num túmulo, numa gruta, entre muros apertados ou até mesmo numa câmara sob o solo e deixada para morrer.
Mas esse conceito de immuratio é, antes de tudo, uma mitificação. Em geral, os casos que existem em registros históricos são esporádicos ou incidentes isolados. As histórias remontam aos gregos e romanos, de onde vieram os primeiros relatos conhecidos no Ocidente.
Um dos casos mais antigos conhecidos é o das Virgens Vestais: jovens romanas de boas linhagens que faziam voto de celibato e passavam a se dedicar a honrar a deusa da casa e da família, Vesta. Caso quebrassem seu voto, essas moças eram condenadas à morte. Porém, a tradição jurídica/religiosa romana determinava que uma vestal condenada à morte não poderia ser executada diretamente dentro dos limites da cidade. A solução era ser criativo: trancar a moça numa câmara apertada sob o solo e esperar que morresse de fome ou sede.
Caráter religioso
Esse aspecto religioso é muito importante para entender essas primeiras manifestações do emparedamento — que, na realidade, geralmente envolviam o confinamento em celas apertadas, não dentro de paredes. Ao longo dos primeiros séculos d.C., quem adotava essa prática eram as autoridades eclesiásticas, que geralmente possuíam celas para hereges, criminosos reincidentes e outros que descumpriam as regras monásticas.
Um caso concreto ocorreu em 1246 com uma freira do convento de Lespinasse, em Alto Garona, na França. Ela foi acusada de heresias e de ter feito uma confissão considerada falsa. A sentença determinou que fosse colocada para sempre em uma cela separada dentro do próprio convento, onde ninguém poderia entrar ou vê-la. A comida era introduzida por uma abertura.
Durante a Baixa Idade Média, existiram mulheres chamadas de emparedadas, ou reclusas, que voluntariamente escolhiam uma vida de isolamento religioso. Elas não estavam sendo punidas, mas sim buscando deliberadamente esse tipo extremo de vida como forma de exercitar sua fé. As celas tinham comunicação com o mundo exterior e as reclusas podiam manter contato com outras pessoas.
O emparedamento na Idade Média
Na Europa medieval, a prisão geralmente não era considerada uma punição em si e, geralmente, era apenas usada para manter criminosos sob custódia durante o julgamento. Isso porque manter criminosos na prisão era dispendioso: exigia a construção ou adaptação de edifícios ou celas, a remuneração de guardas e o custeio da alimentação e alojamento dos detentos. Por isso, os medievais preferiam formas de punição imediatas, como a pena de morte, a mutilação ou multas.
Foi só no século 13 que o hábito de prender condenados (em celas, não paredes) começou a pegar entre os governantes. Às vezes, a pena era extremamente severa: na França, havia o “murus strictus”, uma sentença em que o preso era confinado a uma cela pequena sem janelas e ficava com as mãos e pés acorrentados, sem poder sair ou ter contato com o mundo exterior. Em geral, o “murus strictus” era aplicado a hereges que forneciam falsos testemunhos durante o julgamento.
Na Inquisição espanhola, a sentença de immuratio não consistia em emparedar vivos os prisioneiros, mas sim em confiná-los numa cela contígua ao escritório do inquisidor. Se não houvesse prisões à disposição, a pena era cumprida num monastério. Muitas vezes, a pena era convertida em uma peregrinação ou uma indenização.
Casos reais
Apesar de tudo isso, houve sim casos reais de emparedamento ou de uma punição similar, não necessariamente na Idade Média:
- Em seu livro From Eve to Dawn: A History of Women in the World, a historiadora Marilyn French traz o relato de um espanhol do século 17 que afirma ter observado as festividades incas em homenagem ao Sol. Segundo seu depoimento, quatro donzelas entre 10 e 12 anos, após cumprirem uma longa agenda cerimonial, eram baixadas em um poço sem água e emparedadas vivas.
- O historiador Peter Dinzelbacher menciona um caso em que quatro clérigos da cidade de Augsburgo, na Alemanha, foram condenados por ter relações sexuais com meninos. Depois, foram colocados em caixões de madeira, pendurados na torre do sino e deixados para morrer.
- No século 17, as anotações de um mercador de joias que viajava pela Pérsia (atual Irã) mencionam que ele avistava com frequência “monumento de ladrões ‘emurados’ em terror”. Esses criminosos eram emparedados até o pescoço em tumbas cilíndricas de pedra, com a cabeça ficando para fora para que ficasse sujeita ao clima e às aves de rapina. Outros testemunhos sugerem que esse costume perdurou até o começo do século 20.
- Na Mongólia, o emparedamento também foi uma forma de pena capital até o começo do século 20. Relatos falam de caixões pesados de ferro em que os prisioneiros não conseguiam se deitar ou ficar de pé e só viam a luz solar uma vez por dia, quando recebiam comida. Uma foto de 1922, originalmente publicada na revista National Geographic, mostra uma mulher trancada em um caixão de madeira, supostamente condenada a morrer de fome.







