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Não, Shakespeare não inventou a palavra “drag”. Então, quem foi?

Entenda a origem do termo e como o escritor inglês entrou nessa história

Por Victor Bianchin 28 jun 2026, 11h45
Não, Shakespeare não inventou a palavra “drag”. Então, quem foi? Priorizar nos meus resultados Google

Existe uma teoria, bastante espalhada pela internet, de que a palavra “drag” seria um acrônimo de “Dressed Resembling A Girl” (“vestido para parecer uma garota”) e que teria sido criada por William Shakespeare, o famoso dramaturgo britânico. Essa história é um mito, mas com pitadas de verdade. Para desfazer esse nó, precisamos voltar alguns séculos no tempo.

Em primeiro lugar, é preciso separar a palavra drag como verbo, no sentido de “puxar” ou “arrastar”, do substantivo que abriga o sentido de pessoa travestida.

O verbo vem do inglês médio draggen, que já existia séculos antes de Shakespeare. Esse termo, por sua vez, vem do nórdico antigo draga, já com o sentido de “puxar” ou “arrastar”. Isso coloca a palavra dentro de um grupo antigo de vocabulário germânico comum no norte da Europa — ou seja, não é uma criação literária, mas uma herança linguística. 

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Agora, “drag” como referência a pessoas travestidas é um conceito com origem mais nebulosa. Acredita-se que o termo tenha nascido no teatro, relacionado aos vestidos que os homens travestidos usavam.  Segundo o jornalista e pesquisador Roger Baker,

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em seu livro Drag: uma história da imitação feminina no palco, o termo “drag” era uma gíria que descrevia “a anágua ou saia usada por atores ao interpretarem papéis femininos”, sugerindo que a palavra deriva do arrasto do vestido no chão, em contraste com o fato de as calças não arrastarem.

Essa teoria é muito difundida, mas não existe certeza absoluta sobre sua veracidade. E, mesmo que seja verdadeira, há ainda outro problema: quando surgiu?

Para além da etimologia

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É aqui que entra Shakespeare. O escritor começou a fazer as montagens das suas peças no final do século 16 e começo do século 17, quando as regras da Igreja eram claras: apenas homens podiam trabalhar como atores. Por isso, eles faziam também os papéis femininos. É possível que, nesse momento, o termo tenha começado a se difundir.

Uma aposta mais segura, entretanto, é que essa definição de “drag” apareceu mais tarde, nos séculos 18 ou 19. Lady J, uma artista drag que pesquisa a história dessa arte,

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traça a origem do termo à Inglaterra vitoriana da década de 1860, quando Ernest Boulton, da dupla Boulton e Park, descreveu sua performance de travestismo como “drag” — o primeiro uso documentado conhecido do termo. 

Os homens que se vestiam com roupas femininas em público e criavam pseudônimos para essa nova persona existiam pelo menos desde o século 18. Eles não necessariamente se chamavam de “drag queens”, mas o conceito estava ali. A primeira drag queen do Reino Unido, chamada Seraphina e apelidada por muitos de “princesa”, viveu no começo do século 18.

De qualquer forma, foi no século 20 que o termo se popularizou e passou a descrever não apenas uma atividade (o travestismo), como também uma forma de arte e uma identidade. Os bailes drag no bairro do Harlem em Nova York, que explodem a partir da década de 1920, marcam a exposição desse grupo para fora do circuito fechado, numa época em que as drags também passaram a se proliferar em shows de casas noturnas e apresentações de cabaré.

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Nos anos 1960, com a ascensão da cultura gay, as drag queens ganharam ainda mais visibilidade social. “Foi durante esse período pós-guerra que as drag queens emergiram como figuras importantes na comunidade gay. Na década de 1960, elas se tornaram muito visíveis durante a violência entre a polícia e as comunidades gays tanto em São Francisco quanto na cidade de Nova York”, afirma um estudo da Universidade de Nevada.

Ao longo da história, as drags foram sinônimo de arte, irreverência e desafio às convenções da sociedade (especialmente as excludentes e preconceituosas). Pode ser que nunca saibamos ao certo de onde o termo vem. Mas sabemos que veio para ficar.

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