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Se o álcool substituir a gasolina, faltará comida no mundo?

Mesmo se 100% da gasolina fosse substituída por álcool, não faltariam terras para plantar gêneros alimentícios suficientes para alimentar o mundo inteiro. Mas a questão não é tão objetiva assim, afinal os alimentos não são distribuídos de forma igualitária e o crescimento da importância comercial do milho e da cana fatalmente faria o preço deles disparar. Por isso, alguns especialistas acreditam que, no caso da substituição total da gasolina, a população mais pobre passaria fome. Mas essa análise não é unânime: há quem defenda que o aumento cavalar da produção de milho e cana faria com que terras cultiváveis não cultivadas atualmente passassem a receber culturas alimentícias e haveria comida suficiente para todos. Nos dois casos, não faltaria comida, assim como acontece hoje: apesar de milhares de pessoas morrerem de fome, o mundo produz cerca de 2 quilos por cabeça ao dia, o que seria suficiente para deixar todos os 6 bilhões de habitantes do mundo gordinhos. “A fome não é conseqüência da falta de alimento, e sim da má distribuição”, diz o engenheiro químico Carlos Eduardo Rossell, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp. Além disso, se as novas áreas cultiváveis não fossem ocupadas de forma planejada, o esforço para redução das emissões de carbono na atmosfera poderia gerar um impacto ambiental muito mais devastador, inclusive com a intensificação do aquecimento global.

Quilômetros Rodados x Prato Cheio
Calculamos qual seria o impacto do império do etanol, e a perspectiva não é nada boa

DIVISÃO DA TERRA

A Terra é formada por 14,9 bilhões de hectares de terras emersas, mas apenas 20% disso – cerca de 3 bilhões de hectares – podem ser cultivados. O resto é ocupado por desertos, cordilheiras, geleiras etc. E atualmente apenas metade da área cultivável – 1,5 bilhão de hectares – é de fato cultivada. Ou seja: ainda há muito espaço para plantar

MEIA ÁFRICA

Para você visualizar melhor a quantidade de terra de que estamos falando, pense no seguinte: se juntássemos todas as áreas cultiváveis, elas ocupariam todo o continente africano, sendo que metade ainda não teria plantação de nada – embora possa ser ocupada por florestas, pastagens etc.

ETANOL HOJE

Dentro da “meia-África” (1,5 bilhão de hectares) cultivada atualmente, uma parte pequena é ocupada por plantações de cana (24 milhões de hectares) e milho (147 milhões de hectares), que são usados tanto para alimentação (para humanos e como ração) quanto para produção de etanol. Se 100% disso fosse transformado em álcool, teríamos 682 bilhões de litros ao ano. Hoje, porém, apenas 51 bilhões de litros de álcool são produzidos. Já de gasolina são 2,3 trilhões de litros por ano

100% ETANOL

Para substituir toda a gasolina consumida hoje, seriam necessários 3 trilhões de litros de etanol. Com milho como matéria-prima, 857 milhões de hectares seriam ocupados. Se fosse cana, seriam 427 milhões de hectares. Lembrando do 1,5 bilhão de hectares já ocupado hoje, concluímos que terras “virgens” teriam que passar a ser cultivadas, mas caberia tudo nos 3 bilhões de hectares

Mas tem um porém…

Se tudo caberia nos 3 bilhões de hectares, por que não dá para substituir totalmente a gasolina? Porque, embora o 1,5 bilhão de hectares não cultivados tenha terra boa, ele já é ocupado por ecossistemas como a floresta Amazônica, o pantanal, o cerrado etc. E, se eles fossem substituídos por lavouras de milho ou cana, muita coisa ruim poderia acontecer. Veja só:

DESERTIFICAÇÃO

As florestas são diretamente responsáveis pelas chuvas. Sem elas, o solo passaria a secar, ficaria vulnerável à erosão e talvez até se tornasse impróprio para o plantio

EXTINÇÃO

Uma vez destruído, o ecossistema não pode ser recuperado. E, dependendo de qual for o ecossistema, isso pode significar a extinção de comunidades inteiras de plantas e animais

EFEITO INVERSO

As florestas tropicais ajudam a regular os padrões climáticos globais, ou seja, sem elas a temperatura do planeta poderia disparar. Conclusão: o uso do etanol, que é uma medida antiaquecimento, no final das contas, acabaria intensificando o efeito estufa