Ser cego de nascença aparentemente “protege” contra esquizofrenia. Mas por quê?
O córtex visual tem uma participação importante nos sintomas da doença e, nesses casos, ele não se desenvolve da forma tradicional
Há muitos anos, pesquisadores tentam explicar uma relação bastante inusitada: por que praticamente não existem casos bem documentados de pessoas com cegueira cortical (aquela cuja origem é no cérebro e não nos olhos) desenvolvendo esquizofrenia com alucinações visuais típicas? Essa observação já vem sendo feita por cientistas desde os anos 1950, mas, até as décadas mais recentes, não havia dados disponíveis para investigá-la.
Em 70 anos de pesquisa, simplesmente não há nenhum caso reportado de pessoas cegas de nascença desenvolvendo esquizofrenia. Isso é estaticamente extraordinário. Mas qual a explicação?
Pessoas com esquizofrenia frequentemente apresentam alucinações visuais, distorções perceptivas e sintomas envolvendo integração sensorial. Mas, entre as que apresentam alucinações visuais, é extremamente difícil encontrar pessoas que também tenham cegueira cortical precoce (lesão no córtex visual).
Segundo estudos, a explicação mais provável é que, quando o cérebro perde a visão muito cedo, o córtex visual não fica ocioso, como se poderia pensar. Ele é reorganizado para outras funções cognitivas, especialmente: linguagem, processamento auditivo e memória semântica. Essa reorganização poderia, segundo os pesquisadores, reduzir a “matéria-prima neural” para alucinações visuais e alterar o modo como representações internas são geradas.
Ou seja: sem estímulos visuais gerando um fluxo constante de sinais ambíguos ou imprevisíveis, o cérebro pode se estabilizar em formas mais constantes de interpretar o mundo, reduzindo o risco de falhas nas previsões que caracterizam a esquizofrenia.
Só que essa reorganização não acontece em indivíduos que perdem a visão mais tarde na vida. Nessas pessoas, que puderam desenvolver seu córtex visual normalmente, permitindo que ele ocupasse um papel central no aprendizado e na gerência de emoções, por exemplo, as alucinações visuais são presentes. A essa altura, os anos de experiência visual já são suficientes para que essas alucinações possam acontecer.
O importante dessa discussão toda é que ela pode ajudar os cientistas a encontrarem métodos melhores de lidar com a esquizofrenia. Sabendo que diminuir a participação do córtex visual pode ajudar a atenuar os sintomas, é possível desenvolver medicamentos com esse objetivo, por exemplo. Esse campo ainda é novo, mas já dá sinais promissores.







