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Tortura medieval ou fake news? A história da sangrenta donzela de ferro

Relatos do dispositivo só começaram a aparecer séculos depois de supostamente terem sido usados. Entenda

Por Victor Bianchin 25 Maio 2026, 10h01
Tortura medieval ou fake news? A história da sangrenta donzela de ferro Priorizar nos meus resultados Google

Ela está em filmes medievais, em episódios de Scooby Doo, em museus do mundo todo e até no nome de uma banda de rock: a donzela de ferro (“iron maiden” em inglês) é um dos instrumentos de tortura mais facilmente reconhecíveis de que se tem notícia.

Trata-se de uma espécie de sarcófago de metal com lanças projetando-se para a parte de dentro (ou então buracos para essas lanças serem inseridas manualmente). A vítima da tortura seria presa nesse dispositivo e, incapaz de sair, passaria as próximas horas ou dias sendo empalada pelos espetos — os quais seriam especialmente projetados para não atingir órgãos vitais.

É uma história fascinante de como a Idade Média podia ser brutal e de como a criatividade humana pode ser usada para o mal. Mas é preciso dizer: é bastante provável que seja tudo mentira.

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A primeira vez em que uma donzela de ferro foi citada em toda a História aconteceu muito depois da Idade Média, no final do século 18. O filósofo alemão Johann Philipp Siebenkees escreveu sobre a suposta execução de um falsificador de moedas em 1515 por uma donzela de ferro na cidade de Nuremberg.

Por volta dessa época, donzelas de ferro começaram a aparecer em museus por toda a Europa e também nos EUA. Entre elas, a Donzela de Ferro de Nuremberg, provavelmente a mais famosa, que foi construída no início do século 19 e destruída durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, em um bombardeio dos Aliados.

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Mas Siebenkees não foi o primeiro a pensar num artefato do tipo. O historiador grego Políbio, que viveu em cerca de 100 a.C., escreveu sobre Nábis, um governante de Esparta. Segundo o historiador, Nábis havia construído um manequim de sua própria esposa, coberto por espinhos perfurantes ocultos. Quando um convidado recusava os pedidos de dinheiro de Nábis, ele solicitava que o dito cujo abraçasse o manequim. Um mecanismo escondido no boneco erguia os braços e projetava os espinhos, prendendo a vítima. A partir daí, o pedido por dinheiro acabava sendo atendido.

Um livro de filosofia cristã do século 5 chamado “A Cidade de Deus” conta a história da tortura de Marcus Atilius Regulus, um general romano. Regulus teria sido trancado numa caixa com pregos que se projetavam das paredes — o general era obrigado a se manter acordado para não acabar sendo empalado pelos pregos. Segundo o livro, o homem morreu de privação do sono.

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Idade Média, uma história mal contada

É praticamente impossível saber com certeza se a donzela de ferro e seus similares realmente existiram. Informações sobre a donzela, como mencionamos, só começaram a circular no século 18, sem fontes confiáveis e por meio de escribas que obviamente não estavam vivos quando os dispositivos supostamente estavam na ativa.

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Outros artefatos atribuídos à Idade Média provavelmente são puro invencionismo de pessoas que vieram depois. Por exemplo: os cintos de castidade — dispositivos de metal criados pelos maridos para manter fiéis suas esposas — provavelmente nunca existiram, com a maioria das unidades existentes em museus tendo sido confeccionada nos séculos 18 e 19. O Museu Britânico, que tem uma dessas peças, descreve os cintos como “curiosidades para os pudendos ou piadas para os de mau gosto”.

Já a “pêra da angústia” seria um instrumento especialmente cruel: um aparato de metal em formato de pêra inserido nos ânus de homossexuais e nas vaginas das mulheres descomportadas. Ao ser ativada, a pêra se expandia, mutilando a vítima. Mais uma vez, pura invencionice.

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“Tal como o cinto de castidade antes, a ‘pêra da angústia’ evidencia o ‘medievalismo sombrio’ da consciência moderna, uma visão distópica da Idade Média que imagina a Europa pré-Reforma como um nexo de crueldade e perversão sexual”, resume um artigo sobre o tema.

Até mesmo anedotas mais inocentes são consideradas falsas hoje, fruto de uma confiança exacerbada em fontes históricas sem credibilidade. Por exemplo, a ideia de que os cavaleiros medievais, quando montados com suas armaduras, não conseguiam subir sozinhos nos cavalos e precisavam ser içados com cordas. A interpretação moderna é que essa crença veio de “relatos satíricos” do século 19.

Um epílogo triste

Curiosamente, embora as donzelas de ferro provavelmente não tenham sido usadas na Idade Média, talvez tenham sido nos tempos contemporâneos. Em 2003, durante a invasão estadunidense ao Iraque, jornalistas da revista Time afirmaram ter encontrado em um complexo ligado a Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, uma donzela de ferro com as pontas desgastadas.

Uday Hussein ocupava o cargo de presidente de organizações esportivas, chefiando o Comitê Olímpico Iraquiano e a Federação Iraquiana de Futebol. Segundo fontes da época, ele costumava torturar atletas e outros civis que, a seu ver, não tinham bom desempenho. Seu castigo preferido era a falaqa medieval, uma vara com grampos que prendiam os tornozelos para que o infrator, com os pés para cima, pudesse ser atingido nas solas descalças com um bastão.

A Time alegou que a donzela de ferro de Hussein parecia “gasta pelo uso”, com pontas parcialmente cegas, e estava tombada no chão. No entanto, não havia sangue e nunca houve comprovação forense pública de que aquele aparato realmente tenha sido usado para tortura — talvez fosse só um instrumento para assustar as vítimas. Ainda assim, a sugestão do provável uso por Hussein é muito mais razoável do que a utilização na Idade Média, quando as donzelas de ferro sequer existiam.

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