26,4% das adolescentes brasileiras não receberam nenhuma dose da vacina do HPV, aponta estudo
Estudo com dados de 80 mil meninas brasileiras investiga a baixa adesão à vacina do HPV em diferentes estados, níveis de escolaridade e classes
O HPV (papilomavírus humano) é a infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo. Com mais de 200 tipos, estima-se que cerca de 80% da população mundial carregue o vírus, que atinge a pele e as mucosas. Entre as possíveis complicações, alguns tipos de HPV são responsáveis pelas famosas verrugas genitais, enquanto outros causam tumores, principalmente o câncer de colo do útero, mas também o de ânus, de garganta, vulva, vagina e pênis.
A melhor forma de prevenção é por meio da vacina, oferecida gratuitamente pelo SUS desde 2014. Ao contrário de mitos, a vacina não é apenas para meninas, e a recomendação é que seja aplicada em ambos os sexos. A opção disponível no SUS é a tetravalente, que protege contra os tipos mais frequentes do vírus (6, 11, 16 e 18). Na rede particular, é possível encontrar também a opção nonavalente, que protege contra nove tipos de vírus (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58).
O público com acesso a vacina gratuita inclui crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de pessoas de qualquer idade que sejam imunodeprimidas, vítimas de abuso sexual, usuárias de PrEP (medicamento para pessoas que não vivem com HIV, mas estão expostas ao vírus) ou portadoras de papilomatose respiratória recorrente, uma doença crônica. Enquanto o primeiro grupo recebe apenas uma dose, os demais recebem pelo menos duas.
Apesar da disponibilidade do serviço, isso não significa que todas essas pessoas sejam vacinadas – e a questão não é simplesmente a quantidade de doses em estoque.
Pensando nisso, um novo estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, investigou os fatores por trás da não vacinação contra o HPV entre meninas adolescentes, como estado de residência, escolaridade materna e riqueza.
Publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, o estudo analisou dados de mais de 80 mil meninas de todo o Brasil, coletados em 2019 pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). As participantes estudavam em escolas públicas e privadas e estavam entre o 7º ano do ensino fundamental e o 3º ano do ensino médio, com idades entre 13 e 18 anos.
Os resultados mostraram um cenário alarmante: 26,4% das meninas não receberam nenhuma dose da vacina contra o HPV. A porcentagem varia conforme o estado. O menor índice foi registrado no Espírito Santo (17,3%) e o maior no Rio Grande do Norte (34,2%).
Em relação às desigualdades socioeconômicas, não houve uma diferença significativa em nível nacional. Porém, olhando dentro de cada estado, esses fatores se mostraram muito presentes.
Quatro estados (Acre, Amapá, Goiás e Maranhão) apresentaram menores taxas de vacinação entre adolescentes em condições econômicas mais vulneráveis. Porém, de forma inesperada, na Bahia e no Mato Grosso do Sul, a maior proporção de meninas não vacinadas pertence a famílias mais ricas.
No fator escolaridade materna, algo semelhante foi observado. No Acre, Amazonas, Amapá, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, a maioria das meninas não vacinadas era filha de mães com menor escolaridade. Por outro lado, no Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Paraíba, a maior proporção das não vacinadas era de filhas de mães mais escolarizadas.
Uma das explicações levantadas pelo estudo é a desinformação sobre vacinas, disseminada nas redes sociais por movimentos antivacinas.
“Vários aspectos influenciam essa desigualdade regional, como organização dos serviços de saúde, distância das estruturas de saúde, falta de profissionais e financiamento insuficiente, entre outros aspectos”, adiciona Fernando Wehrmeister, um dos autores do estudo, em entrevista à Bori.
Essas variações mostram a complexidade do problema, que demanda soluções específicas para cada estado. Assim, as informações da pesquisa podem ser utilizadas para a elaboração de políticas públicas de saúde adaptadas às realidades locais e aos motivos da hesitação vacinal. Mais do que ampliar a oferta de doses, o estudo indica que a solução deve passar também pela boa e velha educação, essencial para garantir acesso a informações confiáveis e embasar decisões conscientes.
Para os pesquisadores, essa baixa adesão pode, no futuro, sobrecarregar o SUS com casos de câncer e outras complicações relacionadas ao HPV.







