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A guerra contra doenças

Na batalha pela vida, a medicina promete realizar avanços decisivos nos próximos anos. O papel principal poderá ser das células-tronco

Maurício Oliveira

A história da medicina certamente terá muitas novidades e reviravoltas nas próximas décadas, mas o papel de protagonista já está reservado às células-tronco. Se forem confirmadas as expectativas da comunidade científica sobre o potencial de recuperação de tecidos a partir do enxerto dessas células, vários problemas de saúde ganharão tratamento revolucionário. Degeneração das córneas, danos no coração provocados pelo mal de Chagas ou insuficiência cardíaca, distúrbios hepáticos, artrite reumatóide ou diabetes do tipo 1 já poderão estar sendo curados em 2020. Doenças com mecanismos mais complexos, como o mal de Parkinson e o mal de Alzheimer, precisarão de mais uma ou duas décadas. Espera-se também que, nos estágios mais avançados das pesquisas, os novos tratamentos ajudem paraplégicos e tetraplégicos a recuperar os movimentos.

LOBBY RELIGIO

Antes de mais nada, é preciso superar os entraves causados pelo lobby religioso que, ao emperrar a aprovação de leis sobre o uso de células-tronco embrionárias, está atrasando as pesquisas em vários países. A polêmica ocorre porque as células tonipotentes, aquelas que prometem maior eficácia por serem capazes de se converter em qualquer um dos mais de 200 tipos de tecidos do organismo humano, são encontradas apenas em embriões recém-fecundados, que precisam ser destruídos no processo de extração. Os pesquisadores argumentam que, no estágio imediatamente posterior à fecundação, os embriões não passam de um amontoado de células que ainda não pode ser considerado um bebê em formação. Na visão dos religiosos, no entanto, o milagre da vida já está feito a essa altura e interrompê-lo seria uma subversão à lei divina.

A saída para o impasse pode estar na clonagem. No ano passado, uma equipe liderada pelo coreano Woo San Hwang demonstrou que as técnicas de clonagem usadas em outros mamíferos podem ser aplicadas com sucesso em humanos, um passo importante para criar células-tronco embrionárias exclusivamente para fins de pesquisa. O trabalho de Hwang foi considerado pela revista Science o terceiro acontecimento científico mais importante de 2004 (ficou atrás da constatação de que já houve água em Marte e da descoberta, na Indonésia, de fósseis de uma espécie humana que viveu há 18 000 anos).

Outra vitória da medicina aguardada para as próximas décadas é contra a aids, que já matou 22 milhões de pessoas desde o início dos anos 80. A maior probabilidade é que isso ocorra não pela descoberta de uma vacina, mas pela sua transformação em doença crônica, possível de ser controlada. Talvez seja uma mudança já em andamento. Graças à melhoria da qualidade de vida trazida aos portadores do HIV pelos medicamentos, multiplicam-se casos como o do ex-jogador americano de basquete Earvin “Magic” Johnson, que em 1991 descobriu ser portador do vírus e hoje, aos 45 anos, vive normalmente. É provável que a ciência chegue à conclusão de que a doença deixou de ser fatal sem que os jornais estampem a tão esperada manchete sobre sua cura.

Outra grande aspiração da humanidade neste início de século 21 é a cura do câncer, mas a esperança de que surja um mecanismo único capaz de impedi-lo é quase utópica. Cada tipo de câncer é um front diferente para a ciência. O que se pode esperar são avanços no diagnóstico e tratamento dos diferentes tipos. Graças a esses avanços, metade das pessoas atingidas por um câncer já consegue superá-lo. Uma boa meta é fazer esse percentual chegar a 80% em 2030.

Já que o combate ao câncer e a várias outras doenças depende muito do diagnóstico precoce, o aprimoramento dos exames será decisivo para o aumento da expectativa de vida. A tecnologia nessa área tem evoluído rapidamente, com saltos gigantescos em raio X, ultra-som, ressonância magnética e tomografia computadorizada. Os exames do futuro revelarão o corpo humano com precisão inimaginável hoje. Diante do mapeamento completo de toda a estrutura ligada ao coração, por exemplo, em três décadas será possível prevenir infartos.

Quando se fala na medicina do futuro, não se pode esquecer que os desafios não se limitarão ao combate das doenças já conhecidas: o mundo certamente conhecerá novas doenças nos próximos 50 anos. Basta lembrar o que aconteceu na segunda metade do século 20, com o advento da aids e as ameaças trazidas por vários outros vírus – ebola, hantavirose, febre do Nilo.

Outra hipótese que não pode ser desprezada é a volta de inimigos conhecidos, como a influenza, a temida gripe espanhola que em 1918 matou pelo menos 20 milhões de pessoas no mundo, 1% da população na época. Nada impede que uma tragédia de tais proporções volte a se repetir – com a agravante de que, hoje, uma epidemia é capaz de “viajar” de um lado a outro do mundo em poucas horas. Muitos cientistas chegam a apostar que, cedo ou tarde, algo do gênero voltará a ocorrer, por mais que a medicina avance. Afinal, a luta pela sobrevivência faz parte do cotidiano da humanidade desde os tempos das cavernas – quando chegar aos 20 anos era um ótimo prognóstico de longevidade.

Tendências

• AIDS

É provável que a vitória contra a aids ocorra não pela descoberta de uma vacina, mas pela sua transformação em doença crônica, possível de ser controlada.

• CÂNCER

Hoje, metade das pessoas atingidas por um câncer já consegue superá-lo. Uma boa meta é fazer esse percentual atingir 80% em 2030.

• CÉLULAS-TRONCO

O uso de células-tronco embrionárias deverá revolucionar o tratamento de várias doenças. Insuficiência cardíaca, distúrbios hepáticos e diabetes do tipo 1 poderão ter cura em 2020.

• NOVAS AMEAÇAS

Nos próximos 50 anos, o mundo poderá conhecer novas doenças ou sofrer com a volta de inimigos que já eram dados como vencidos.

Depende de você

A ciência desenvolve terapias cada vez mais sofisticadas contra doenças. Mas você precisa fazer a sua parte

Ampliar a expectativa de vida da humanidade é responsabilidade da ciência e da medicina, certo? Não apenas. Cada pessoa tem uma grande contribuição a dar nesse sentido. Afinal, tão importante quanto combater as doenças é melhorar as condições gerais de vida: promover a alimentação saudável e a prática de exercícios, combater o fumo e a obesidade, reduzir a violência urbana e no trânsito.

Se a ciência tem feito a parte que lhe cabe, a humanidade está devendo. Acidentes automobilísticos matam 1,2 milhão de pessoas por ano, a maior parte delas abaixo dos 40 anos. Enquanto os fabricantes desenvolvem modelos de carro desnecessariamente velozes, o número de vítimas fatais nas estradas cresce 5% ao ano.

Nenhuma descoberta da ciência poderia ser mais eficaz para diminuir os casos de câncer do que a simples decisão de abandonar o hábito de fumar. Cinco milhões de pessoas morrem por ano no planeta em decorrência de doenças provocadas pelo cigarro, responsável por 90% dos casos de câncer no pulmão. Essa impressionante estatística não tem sido argumento suficiente para impedir que 1,1 bilhão de pessoas no mundo continuem presas ao vício.

Um dos maiores empecilhos para que a expectativa de vida da humanidade dê um salto é o abismo entre ricos e pobres. De acordo com uma nova metodologia da Organização Mundial da Saúde (OMS), que leva em conta a expectativa de vida sem o convívio com problemas como amputações, cegueira, paralisia e seqüelas causadas por doenças como a malária, os japoneses irão viver 74,5 anos em saúde plena, enquanto os moradores de Serra Leoa, o país com as piores condições de vida no mundo, viverão 28,6 anos.

A diferença brutal indica que o acesso aos avanços da medicina continuará nas próximas décadas restrito à elite. Enquanto a ciência desenvolve exames apurados e terapias sofisticadas, muitas nações africanas enfrentarão problemas básicos como a falta de água potável.