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A nova arma do vírus – e o próximo ano da pandemia

As mutações e a desobediência popular fizeram o número de casos explodir no Brasil. E o Sars-CoV-2 já demonstra uma habilidade preocupante: a recombinação genética.

Por Bruno Garattoni Atualizado em 17 mar 2021, 17h46 - Publicado em 17 mar 2021, 08h02

Dia 12 de março, um ano atrás, a OMS declarou pandemia. Foi por ali, também, que a vida começou a mudar: nos trancamos em casa, passamos a trabalhar e estudar à distância, mergulhamos em álcool gel. No começo, você lembra, usar máscara não era recomendado. “Só para profissionais de saúde”, diziam. Com o tempo, isso mudou (o ar é um grande meio de transmissão do vírus) e as máscaras se tornaram obrigatórias para todos. Vieram os lockdowns, as restrições, a suposta imunidade de rebanho em Manaus (onde estudos diziam que 66% a 76% da população havia sido infectada, e, portanto, estaria imune) e as vacinas, que encheram todo mundo de esperança. Mas, mesmo com todos esses atenuantes, o número de infectados e mortos no Brasil não para de subir – bate o recorde todos os dias. (Inclusive em Manaus, onde a imunidade de rebanho se revelou ilusória.) Houve avanços no combate ao coronavírus; mas estamos pior do que nunca.

A explicação disso, você sabe, é um dominó com várias peças. Muitas pessoas não usam máscara, ou não usam direito. Por isso, tem muita gente pegando e, portanto, transmitindo o novo coronavírus (em fevereiro, a média ultrapassou 60 mil infectados por dia no país). A base de disseminação é maior, e por isso a pandemia continua acelerando mesmo com a vacinação, que ainda é lenta. E, como o vírus está se espalhando muito, ele sofre mais e mais mutações: que o deixam mais contagioso, mais resistente às vacinas, mais letal e capaz de reinfectar quem já teve Covid.

Os primeiros estudos sobre a cepa P.1, que surgiu em Manaus e está dominando o Brasil, confirmaram que ela se espalha mais rápido e pode reinfectar quem já teve Covid. E, nas últimas semanas, apareceram três novas variantes: a B.1.525, na Inglaterra (onde ano passado surgiu a B.1.1.7, primeira a chamar atenção), a B.1.526, em Nova York, e a B.1.429, na Califórnia. Todas têm mutações benéficas para o coronavírus. A tendência é que isso continue, com novas variantes. Mas há outro fator evolutivo, ainda pouco comentado, que pode ter um impacto até maior – a ponto de redesenhar totalmente a pandemia.

A raiz dele está na coinfecção, ou seja, quando uma pessoa é contaminada por duas variantes do Sars-CoV-2 ao mesmo tempo. Isso não é uma exclusividade do coronavírus (há casos com os vírus da catapora, da herpes, da hepatite e da aids), é raro (existem alguns poucos relatos, espalhados pelo mundo) e não necessariamente resulta em Covid mais grave. Os dois primeiros casos de coinfecção pelo coronavírus no Brasil, ambos descobertos no Rio Grande do Sul, só provocaram sintomas leves (com a ressalva de que os dois pacientes tinham 30 anos, idade em que os sintomas da doença costumam ser menos agressivos). Em suma: o maior problema não é nem a coinfecção em si. É o que vem junto com ela.   

Até agora, as variações do Sars-CoV-2 foram surgindo por “força bruta”: conforme ele se multiplica, acabam acontecendo erros na cópia do RNA. São as mutações, que podem trazer alguma vantagem para o vírus: quando isso acontece, elas se consolidam e nasce uma nova variante. Mas a coinfecção segue uma lógica diferente, porque ela traz consigo outro fenômeno: a recombinação genética. Se duas variantes do vírus infectam uma pessoa ao mesmo tempo, elas podem trocar material entre si e originar uma cepa híbrida, “hipermutada”, que mistura pedaços das duas.

O coronavírus usa uma enzima chamada “RNA polimerase dependente de RNA” para se replicar. Às vezes ela se solta do RNA, interrompendo a cópia no meio. A enzima acaba se reacoplando e retoma o trabalho. Mas se houver outra variante do vírus por perto, dentro da mesma célula, a RNA polimerase pode pegá-la – e se basear nela. Esse processo pode acontecer várias vezes, alternadamente, durante a replicação do vírus. É como se você fosse xerocar um documento e durante o processo pausasse e religasse a copiadora, colocando e tirando outro papel. O resultado seria um mosaico dos dois documentos.

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A recombinação genética do Sars-CoV-2 não é uma possibilidade teórica: ela já aconteceu. Em fevereiro, uma cientista do Los Alamos National Laboratory (centro de pesquisas do governo dos EUA que foi responsável, na década de 1940, pelo desenvolvimento da bomba atômica) relatou a descoberta da primeira variante híbrida do novo coronavírus. Ela foi identificada em Los Angeles e é formada pela fusão das cepas B.1.1.7, aquela primeira da Inglaterra, e B.1.429, a nova variante da Califórnia.

O vírus híbrido combina o RNA das duas, inclusive nos pontos mais vantajosos. Ele tem a mutação N501Y, que o torna mais transmissível (e veio da cepa inglesa) e a mutação L452R, que confere resistência parcial a anticorpos (e que o vírus herdou da cepa californiana).

A recombinação permite que as variantes do coronavírus compartilhem suas melhorias genéticas – os erros na cópia do RNA, que vão gerando mutações, não são mais o único caminho evolutivo. Ou, talvez, nunca tenham sido. A recombinação é um fenômeno comum em vírus, e uma das teorias que tentam explicar o surgimento do Sars-CoV-2 propõe que ele teria vindo justamente da fusão de outros coronavírus (1).

A nova cepa híbrida, que foi apresentada numa conferência da New York Academy of Sciences e ainda não tem nome, não é nenhum monstro se comparada a outras que estão girando o mundo. Ela é mais transmissível e, como tem alguma resistência a anticorpos, talvez possa reinfectar pessoas que já tiveram Covid. Mas outras variantes, como a brasileira P.1 e a sul-africana B.1.351 (também chamada de 501Y.V2), já fazem isso. Parando por aí, até que tudo bem: a cepa híbrida será apenas mais uma entre diversas outras.

Mas o que aconteceria, por exemplo, se o Sars-CoV-2 se recombinasse geneticamente com outro coronavírus – como o HCoV-229E ou o HCoV-OC43, que causam o resfriado comum e são extremamente disseminados no mundo? O resultado seria um HCoV mais agressivo, pronto para começar uma segunda pandemia? Ou o surgimento de um Sars enfraquecido, incapaz de provocar sintomas graves – mas contagioso a ponto de varrer do mapa as cepas anteriores e, ao se tornar dominante, ir minando a pandemia atual?

Os países do Hemisfério Norte, onde a vacinação já está mais avançada do que no Brasil, sugerem um caminho diferente: com cada vez mais pessoas imunizadas, os números de casos e mortes começam a cair. Na prática, as vacinas freiam o Sars-CoV-2 sem que haja tempo para o surgimento de variantes hipermutadas. Talvez esse seja o destino mais provável. O mais desejável, com certeza, ele é.

(1) Genomic recombination events may reveal the evolution of coronavirus and the origin of SARS-CoV-2. Z Zhu e outros, 2020

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