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Banana que vale ouro

Em um quilombo na região mais pobre de São Paulo, a esperança retorna com um projeto que agrega valor à fruta, maior fonte de renda da comunidade

Bruno Leuzinger, de Ivaporunduva, SP

No Vale do Ribeira, região mais pobre de São Paulo, fica o Quilombo de Ivaporunduva, onde vivem 70 famílias. Para chegar lá, você deve dirigir por cinco horas (até Jacupiranga pela BR-116, seguindo depois rumo a Iporanga) e ainda precisa cruzar de canoa o rio Ribeira de Iguape. Longe do centro urbano, mora seu Silvestre. É o típico contador de história que só se acha no interior do Brasil, daqueles que gostam de receber as visitas para um cafezinho. A casa é simples, de pau-a-pique, mas a TV parece nova. Com a antena parabólica, dá para assistir aos jogos do São Paulo. Seu Silvestre é um dos beneficiados do projeto do Instituto Socioambiental (ISA), que vem mudando a vida da comunidade ao agregar valor ao produto que é a maior fonte de renda local: a banana.

Antes do ISA, o comércio da fruta sofria com uma praga terrível – o atravessador. “Chegava-se a vender 1 tonelada por 50 reais”, diz Fábio Graf, do ISA. Junto com a associação dos moradores, o instituto deu autonomia à comunidade. Os quilombolas ganharam um caminhão, com o qual fazem entregas para a capital paulista e cidades da região. Toda semana é despachado um carregamento de 6 a 7 toneladas de banana verde. Sem o atravessador, o preço da caixa de 20 quilos pulou de 2 reais para 5 reais, um aumento de 150%. E o valor deve chegar a 9 reais em dois meses, quando estiver funcionando a câmara de climatização, que possibilitará que a banana seja vendida madura.

O artesanato de fibra da bananeira é outra alternativa de renda. O ISA doou teares e ofereceu um curso de capacitação. Na etiqueta das bolsas de palha e outros produtos do gênero, aparece a logomarca do quilombo, criada voluntariamente por uma empresa de publicidade, a Art Urb. Os moradores escolheram a imagem. “Nada é imposto, tudo é discutido”, afirma Fábio. A coordenação das tarefas foi delegada aos jovens. Alexandro é encarregado do comércio da banana, Paulão cuida do artesanato e a coleta seletiva de lixo fica com Olavinho, o mais falante dos três. Com a eloqüência desenvolvida como guia turístico na região, ele dá palestras na escola local sobre reciclagem. “Se a gente não ajuda, o pessoal fica cego, sem informação”, diz Olavinho.

Recentemente, o quilombo alcançou outra grande conquista: a certificação orgânica de 39 produtores de banana, que lhes permitirá cobrar um preço melhor por seu produto, graças ao valor cultural, social e ambiental embutido. Seu Silvestre é um desses produtores. “O projeto é ótimo”, afirma. “Antes, sobrava banana, acabava estragando. Agora, chega a faltar.” Ele conta que até tentou a sorte no Rio de Janeiro, buscando fugir das dificuldades, mas ficou lá apenas 17 dias. Hoje, está feliz em Ivaporunduva. “Só saio daqui quando morrer.” A vida continua difícil, mas já existe esperança nos sorrisos quilombolas.