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Boas novas para o coração

Drogas, exames mais precisos e tratamentos mais eficazes - tudo para o nobre músculo do corpo humano viver melhor

Lúcia Helena de Oliveira e Regina Prado

Eis um drama capaz de destruir corações: o famigerado colesterol, isto é, a gordura de baixa densidade, se deposita na parede de uma artéria coronária e, numa reação de estranheza, o sangue que passa por ali coagula, tal qual acontece em cortes e feridas. Mas como, nesse caso, não se trata de uma coisa nem de outra, deve entrar em ação uma proteína, o plasminogênio, encarregada de dissolver esse coágulo formado em hora e local impróprios. Só que às vezes, por azar, no lugar desse solvente sangüíneo, gruda-se no coágulo outra substância de nome complicado, a apolipoproteína (a), ou LP (a). Por ter uma molécula muito parecida com a do plasminogênio, a LP (a) é convocada por engano para fazer um serviço para o qual ela não tem a menor competência — derreter o obstáculo à circulação. O capacitado plasminogênio, por sua vez, quando chega na região, encontra seu posto ocupado pela proteína semelhante e não pode fazer nada. O final da história é conhecido: ao impedir a passagem do sangue, o coágulo interrompe o fornecimento de oxigênio para as células do coração, que, então, morrem. É o infarto.

Essa troca infeliz, flagrada no final dos anos 80 por pesquisadores americanos, tem causado o maior rebuliço nos meios científicos, pois mostra que o colesterol—até então o principal réu nas acusações dos cardiologistas — divide a cena com outra vilã, a LP (a), que não pode ser contida por medidas simples, como dietas, pois sua dosagem no organismo é estritamente determinada pelos genes. Essa descoberta disparou uma corrida em laboratórios do mundo inteiro, à procura de uma solução para o novo problema. O coração, como se vê, continua sofrendo — e muito.A Organização Mundial da Saúde considera os problemas cardíacos como a epidemia do século. Não é à toa. Eles são a maior causa de mortalidade do planeta. Só nos Estados Unidos, todo ano, cerca de 5 milhões de pessoas recebem o diagnóstico de doente cardíaco e, dessas, 500.000 acabam morrendo. Entre os paulistanos, de acordo com um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 26 de cada 100 mortes são provocadas pelo coração. “Fizemos o acompanhamento somente até 1981, devido à demora de sistematização dos dados”, adverte uma das autoras das estatísticas, a médica epidemiologista Cecília Amaro de Lolio. “Mas os resultados podem ser projetados para os dias atuais.

”Essa taxa de mortalidade impressionante tende a despencar. Pois, nos últimos cinco anos, a Cardiologia avançou no sentido de fazer o mais nobre músculo do corpo humano trabalhar mais e melhor.Biólogos, farmacêuticos, médicos e cirurgiões—todos têm novidades, algumas ainda em teste, que vão desde a compreensão dos mecanismos das doenças cardíacas até diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficientes. As pesquisas sobre a LP (a), por exemplo, contribuem para a prevenção do infarto, o mais comum dos males que afligem o coração. Quando se desconfiou de que essa proteína, descoberta ainda na década de 60 pelo cientista sueco Kaare Berg, tinha parte da culpa pelo aparecimento dos perigosos trombos ou obstruções nas artérias, o Laboratório de Pesquisas do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, foi um dos primeiros a investigar a suspeita: Há um ano, comparamos o colesterol e a LP (a) no sangue de 350 pacientes. 

Além disso, realizamos exames de cinecoronariografia, que mostram a situação das artérias”, conta o endocrinologista Raul Maranhão, coordenador do estudo, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.Desde que retornou, em 1985, do Instituto de Biofísica de Boston, nos Estados Unidos, onde passou dois anos, Maranhão se dedica a apontar a relação entre as diversas formas de gordura ou lipídios—e a aterosclerose, o espessamento das artérias, preliminar de muitos problemas cardíacos. E, na sua opinião, em breve a dosagem da LP (a) será tão corriqueira quanto a do colesterol, nos pedidos de exames feitos pelos cardiologistas. “Na pesquisa, pessoas normais tinham 26,3 miligramas de LA (a) por decilitro de sangue, enquanto pacientes com trombos tinham 40,3. O colesterol, nesses casos, não fez diferença” o endocrinologista.

No futuro porém, os exames para acusar esse e outros fatores de risco deverão se tornar mais precisos. Para isso, Maranhão e sua equipe tentam criar moléculas artificiais de lipídios, marcadas quimicamente, de modo que, graças a equipamentos especiais, possam ser perseguidas no organismo pelos olhares dos médicos. Isso porque se sabe que é muito relativa, por exemplo, a taxa sangüínea de colesterol obtida em certo instante. “O que interessa é quanto tempo aquele colesterol ficará na circulação”, explica Maranhão. Todas as células têm receptores, que servem de entrada para o colesterol e para outros tipos de gordura. “Existem pessoas cujas células possuem receptores em menor quantidade ou defeituosos”, conta o pesquisador. Resultado: a gordura, sem vazão para as células, vai se acumulando no sangue—e, muito provável, nas paredes das artérias.Técnicos do Centro de Pesquisas de Winchester, na Inglaterra, e a IBM acabam de realizar um programa, com recursos da computação gráfica, para localizar eventuais depósitos gordurosos e mostrar até que ponto eles atrapalham a passagem do sangue no coração. Tira-se uma série de radiografias da região, em ângulos diferentes, usando uma substância de contraste para delinear os vasos.

Com essas imagens, o computador cria uma animação, isto é, fabrica um modelo de como esses vasos se comportam durante os batimentos. Calcula-se que apenas daqui a dez anos o exame fará parte da rotina hospitalar. Hoje em dia, a situação dos vasos coronários é checada por pequenos tubos ou cateteres que filmam o seu interior.Os primeiros angioscópios, como se chama esses aparelhos, só conseguiam entrar nos vasos maiores do coração. No ano passado, contudo, cientistas franceses do Laboratório Baxter desenvolveram um cateter extremamente luminoso, cuja espessura— apenas 1 milímetro—permite um trânsito livre pela maioria dos vasos do músculo cardíaco. O novo angioscópio começa a ser usado até mesmo para orientar o gesto de cirurgiões. Mas os técnicos franceses não se contentam e pretendem acoplar pinças microscópicas ao cateter, para que ele também possa retirar os trombos. Na verdade, há cerca de dez anos, uma corrente de cardiologistas defende a substituição do bisturi por esses tubinhos, que a princípio surgiram apenas para diagnosticar, e não para curar. A chamada angioplastia com balão se tornou um procedimento comum: O cateter leva na ponta um balão de borracha que infla no local obstruído, dilatando a artéria e esmagando a gordura. Hoje, porém, mesmo seus adeptos reconhecem que a obstrução invariavelmente volta—dias, meses ou anos mais tarde.”Se eu tivesse um problema cardíaco iria preferir a operação”, imagina o cardiologista Euclydes Marques, da Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Sua opinião pode parecer suspeita—afinal, Marques é um dos mais conceituados cirurgiões do país. Mas, com sua calma típica, ele tece argumentos: “Numa angioplastia, ninguém consegue prever até onde é possível inflar o balão, antes de a artéria estourar. Se isso acontece, o paciente, que antes fugia do bisturi, acaba sem escapar dele —mas numa situação pior, a da cirurgia de emergência”. 

De fato, apesar de aparentemente traumática, a cirurgia de coração é um dos procedimentos mais seguros da Medicina moderna.Marques admite que a angioplastia é uma solução para casos específicos— “quando a obstrução é pequena”, define. Ele mesmo conta que alguns pesquisadores buscam novas formas de angioplastia, usando raio laser, por exemplo. Esse passaria por uma fibra ótica flexível, conduzida por uma artéria do braço até o coração, onde derreteria depósitos de gordura. “Por enquanto, o risco de o laser errar na mira e rasgar a coronária não autoriza essa angioplastia ser praticada rotineiramente”, esclarece Marques. Mais sucesso, na opinião dos médicos, vem conseguindo a chamada arterectomia: trata-se também de um cateter, só que com uma hélice giratória na ponta. “Ele funciona como uma furadeira”, descreve o cirurgião. Tanto os adeptos da cirurgia como os da angioplastia ganharam um aliado na luta para salvar infartados: as chamadas drogas trombolíticas, capazes de dissolver coágulos. Injeta, das na primeira hora após o aparecimento de sintomas, como dor no peito, elas evitam a morte do paciente em 70% dos casos. Faz sentido: quanto menos tempo o coração fica privado do sangue oxigenado, menos fibras do músculo degeneram. E, daí, o que resta de músculo vivo e sadio pode ser suficiente para o coração continuar a bater. Basicamente, existem duas drogas trombolíticas—a estreptoquinase, extraída da bactéria estreptococo, e a t-PA (do inglês, ativador da plasminogênio tecidual), substância existente em doses mínimas no organismo, mas de que técnicas da Engenharia Genética possibilitam a produção em massa. 

Ambas têm um perigoso efeito colateral: ao impedir a coagulação sangüínea, podem provocar hemorragias graves. Nesse sentido, a t-PA tem a vantagem de agir apenas durante poucos minutos (a outra pode durar seis horas no organismo), mas é muito cara para o orçamento da maioria dos hospitais brasileiros. Por isso, médicos do Incor, em São Paulo, experimentam mais uma vez o cateter, para aplicar a estreptoquinase diretamente na placa—sua dosagem, assim, passaria a ser muito menor.Além das novas drogas, a Cardiologia ganhou, recentemente, novos aparelhos: há oito meses, na Universidade de Campinas (Unicamp), interior de São Pauto, o cardiologista Claudio Pinho e sua equipe construíram o primeiro exemplar nacional do eletrocardiograma de alta resolução. As células do coração são comparáveis a pilhas, geradoras de um potencial elétrico que o próprio coração consome para bombear sangue. A freqüência desse potencial, em um coração normal, oscila entre 100 e 120 hertz.O mais sofisticado dos aparelhos convencionais de eletrocardiograma capta somente sinais entre 0,5 e 250 hertz, desenhando os gráficos nos quais os médicos prestam tanta atenção para saber se um paciente está, ou não, à beira de um ataque do coração. Feito dessa maneira, no entanto, é possível que, logo depois de tranqüilizado pelo resultado do exame, o paciente tenha uma parada cardíaca.
 
Isso porque o coração doente produz freqüências até 1000 hertz, que só o equipamento de alta resolução é capaz de perceber. “Um amplificador acoplado ao equipamento envia os sinais para um computador”, explica Pinho. “Ele é programado para, através de equações matemáticas, fornecer detalhes sobre os batimentos cardíacos.” Quando o coração não vai bem, suas pilhas ou células se tornam mais fracas e, para compensar isso, são ativadas mais vezes—daí o aumento na freqüência do potencial—pelo pequeno nódulo, no lado direito superior do músculo, que governa suas contrações. Sim, porque o coração é o único órgão com um sistema nervoso próprio.Às vezes, por causa de infecções ou de uma má irrigação de sangue, surgem outros nódulos nervosos. Obedecendo a mais de uma ordem ao mesmo tempo, o coração perde a sincronia e surgem as arritmias. A mais grave delas é a taquicardia dos ventrículos, as câmaras inferiores do coração, que mandam o sangue de um lado, o direito, para os 2 pulmões e de outro, o esquerdo, para todo o corpo. Segundo o professor Paulo Jorge Moffa, da Universidade de São Paulo, com o eletrocardiograma de alta resolução se nota o problema: “Os ventrículos aceleram a tal ponto, que não têm tempo de encher, batem no vazio. Assim, não enviam sangue para o organismo. O cérebro não agüenta essa ausência por mais de três minutos”. 

Constatado a tempo, o problema é reversível com choques e massagens— nada suaves—no coração.Paulo Jorge Moffa dirige o setor de diagnósticos do Incor, onde são examinadas cerca de 500 pessoas por dia. Não fosse sua paixão pelos modernos equipamentos que o rodeiam, confessa, teria voltado a Casa Branca, onde nasceu, cidade interiorana paulista com 30 000 habitantes. “O progresso não chegou por lá e, por isso, é um lugar tão bonitinho”, orgulha-se. Os olhos claros por trás dos óculos azuis redondos brilham mesma maneira quando se refere a uma das últimas aquisições da Cardiologia: o chamado aparelho de mapeamento de superfície, desenvolvido no Japão. “Enquanto no eletrocardiograma medem- se com eletrodos apenas doze pontos do tórax, o mapeamento registra 84 pontos”, compara. O resultado é uma leitura tridimensional do músculo.”Outros aparelhos de mapeamento estão sendo desenvolvidos para situar eventuais nódulos nervosos extras. Pois, se antes só havia uma solução para arritmias—o marcapasso, que aplica um corretivo no coração na forma de descarga elétrica—, agora os cirurgiões começam a extrair o pedaço do músculo que está dando ordens erradas. Para localizá-los, por enquanto, utilizam-se cateteres que se dirigem até o coração. No subsolo do Incor, porém, há quem planeje algo mais simples. Ali, atrás de uma porta automática, por onde só passa quem tem autorização, espalham-se máquinas e dispositivos de aparência estranha a um hospital: é a Divisão de Bioengenharia. 

Nela, 52 cientistas—físicos, bioquímicos, médicos e engenheiros— se reúnem, por exemplo, para testar válvulas cardíacas artificiais, em dispositivos que Ihes provocam, em seis meses, o desgaste equivalente a seis anos se estivessem implantadas no corpo humano. É também em seus silenciosos laboratórios que engatinha o projeto de um novo aparelho para diagnosticar arritmias—“um balão, que seria simplesmente engolido como numa endoscopia convencional, para registrar, dentro do esôfago, os fenômenos elétricos do coração”. adianta Adolfo Leirner, diretor da divisão. Extremamente cauteloso, usando frases curtas, ele foge dos detalhes desse e de outro projeto em andamento — o da produção de pequenos vasos sangüíneos artificiaisA bioengenharia, área da ciência se ocupa, da criação desses dispositivos, é uma espécie de casamento perfeito para Adolfo Leirner. Em 1958, ele foi um dos primeiros da turma o antigo instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, SP. No ano seguinte, junto com o renomado cardiologista Adib Jatene, Leirner montou o primeiro aparelho de eletrocardiograma brasileiro; dois anos mais tarde, em 1961, o primeiro marcapasso. Mas foi só depois de quinze anos de experiência como engenheiro que se aventurou no vestibular da Universidade de São Paulo para Medicina. Entrou, fez o curso, deixou sua empresa de equipamentos médicos para atender em prontos socorros — vestiu, enfim, o jaleco branco em tempo integral. 

Há três anos, convidado a trabalhar na área de bioengenharia, voltou ao mundo dos motores elétricos, da Física de materiais e da Matemática—ainda que por meio período, antes de ir para o consultório.Seis meses atrás, Leirner e sua equipe presentearam a sala de cirurgia do Incor com um aparelho novo, testado e aprovado: o dispositivo de assistência ventricular (DAV), com 8 centímetros de diâmetro, para auxiliar a câmara inferior do coração, região do músculo que deveria ser a mais vigorosa, para expulsar com força sangue para todo o organismo. Mas, depois de uma cirurgia grave, nem sempre o ventículo volta a ser o mesmo. É relativamente comum ele demorar para retomar seu compasso costumeiro. “Em cirurgias com mais de cinco horas são instaladas na saída do ventrículo bombas centrífugas, semelhantes às de gasolina, que mandam sangue para o corpo num fluxo contínuo”, conta Leirner. O DAV. porém, é capaz de ficar quinze a vinte dias no paciente.” Esse prazo pode fazer uma diferença de vida ou morte para aqueles cujo coração não volta mais ao normal, em um país com uma longa fila de pacientes à espera de transplantes. Sete de cada dez doentes nessa situação, antes do DAV, esperavam em vão.Outra forma de auxílio circulatório — esta, definitiva — é a cardiomioplastia, uma cirurgia criada há seis anos na França e realizada com sucesso no Brasil desde 1988: um músculo achatado, o grande dorsal. é descolado das costas. deixando- se ali apenas a ponta. onde está sua ligação com os nervos: atravessando o tórax, o dorsal envolve o coração como um papel de embrulho e, com estímulo de eletrodos. passa a contrair e relaxar no mesmo ritmo. Faz, enfim, metade do esforço pelo coração. “O grande dorsal, porém, precisa ser treinado gradualmente, com a ajuda de estímulos elétricos, para essa nova função”, revela o cirurgião Noedir Stolf, do Incor. “Ele é estriado como o músculo do braço, isto é, consegue fazer muita força, mas por pouco tempo”, explica, com a mímica de um levantador de pesos. “Precisa aprender a fazer pouca força, mas trabalhar o tempo inteiro, sem ficar cansado.”

Em algumas situações, a cardiomioplastia pode perfeitamente dispensar o transplante. Essa é uma técnica que, realizada pela primeira vez com sucesso em 1967, continua rodeada de problemas de difícil solução. Eles começam pela dificuldade de encontrar um doador, no momento certo, e terminam no risco das infecções que rondam todos os transplantados, obrigados a usar drogas que neutralizem o sistema imunológico do organismo—não fosse assim, esse fatalmente rejeitaria o órgão novo. Segundo Stolf, os japoneses prometem uma droga para resolver esse impasse, a FK-506, que por enquanto está sendo testada em sigilo no Hospital de Pittsburgh, nos Estados Unidos. O cirurgião, que opera em média três vezes por dia, avalia os avanços em sua área pela idade dos pacientes. “Quando comecei, há 25 anos, considerava-se um doente idoso para a cirurgia quanto era sexagenário”, lembra Stolf. “Agora, cada vez tenho mais pacientes acima de 80 anos, da mesma maneira como tornam-se freqüentes as cirurgias em recém-nascidos, refletindo uma soma de progressos.”

A Associação das Indústrias Farmacêuticas dos Estados Unidos estima que o número de consumidores de remédios para cardíacos deve crescer cerca de 50% nos próximos dez anos. Isso significa que, de um lado, o coração continuará sendo maltratado por seus arquiinimigos, como o estresse e a má alimentação. Em contrapartida, ele terá mais chance de sobreviver, mesmo que sofrendo.

 

 

 

 

 

Para saber mais:

Salve o coração

(SUPER número 1, ano 1)

 

 

 

 

 

Inimigos por todos os lados

Será que as mulheres teriam o coração mais sensível? Sob certo ponto de vista, sim: depois de um ataque cardíaco, as mulheres têm duas vezes mais chances de morrer do que os homens, segundo cientistas da Universidade de Massachusetts nos Estados Unidos. Agora, com novas pesquisas, os americanos pretendem responder por que, uma vez doente, o coração feminino parece sair mais lesado. Em compensação, antes da menopausa, as mulheres têm problemas cardíacos em menor incidência.”Os hormônios femininos em plena ação protegem o organismo da aterosclerose· explica o cardiologista Radi Macruz, do Hospital da Beneficência portuguesa em São Paulo. “Eles fariam a maioria da gordura ingerida na alimentação se acumular sob a pele”, especula. As muIheres, assim, se tornariam rechonchudas com mais facilidade; nos homens, de seu lado, em vez de deformar a cintura, a gordura tende a se depositar nos vasos sangüíneos.Segundo o geriatra japonês Yukio Moriguchi, que desde 1971 leciona na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul “o cardápio brasileiro inclui poucas fibras e muita carne”—e, isso provoca 18% de queda na expectativa de vida da colônia japonesa no Brasil em comparação com quem vive no Japão. 

Sob encomenda da Organização Mundial da Saúde, o médico acaba de realizar um estudo em que tenta corrigir a hipertensão, um mal freqüente nos colonos japoneses da Região Sul, com o auxílio exclusivo de dietas com menos carne.Em seis de cada dez muIheres, a pressão foi normalizada, conta, com forte sotaque. A pressão aumenta justamente por uma constrição das artérias: além de o coração se esforçar mais, a diminuição do espaço para o sangue transforma qualquer pequeno coágulo em um grande obstáculo. Apesar do papel da alimentação, de acordo com o cardiologista paulista Marcos Fábio Lion, especialista no problema, 95% dos casos de hipertensão têm causa ignorada. E certo, porém, que substâncias liberadas no estresse aumentam a pressão. “A fumaça do cigarro tem o mesmo efeito, com maior intensidade”, ensina Lion, que exibe no consultório uma placa com os dizeres “parabéns por não fumar.”