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Centenas de pessoas morreram por causa de fake news sobre Covid-19, diz estudo

A desinformação também causou suas vítimas fatais na pandemia ao prometer curas milagrosas – como ingerir desinfetante ou altas quantidades de álcool para curar a Covid-19.

Por Bruno Carbinatto - 17 ago 2020, 17h55

De curas milagrosas à teorias conspiratórias negacionistas, a onda de desinformação e notícias falsas que veio com a pandemia de Covid-19 pode ter causado diretamente centenas de mortes pelo mundo apenas nos quatro primeiros meses do ano, segundo um novo estudo publicado na revista American Journal of Tropical Medicine and Hygiene.

Segundo os autores do estudo, formada por pesquisadores de vários países do mundo, rumores e falsas informações sobre o coronavírus se espalharam rapidamente pelas redes sociais e pela internet assim que a pandemia começou. Para explicar esse cenário, eles utilizam o conceito de “infodemia“, que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é um cenário em que “um excesso de informações, algumas precisas e outras não, tornam difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

A equipe coletou 2.311 relatos de rumores em 25 línguas originados em 87 países diferentes, vindos de redes sociais, blogs e outros sites da internet. Desses, 2.276 haviam sido checados, e 1.856 foram classificadas como informações falsas. A equipe também separou as informações estudadas em categorias, e os resultados mostraram que 24% delas estavam relacionadas à doença, sua transmissão e sua mortalidade; 21% era sobre o controle da doença e intervenções médicas e epidemiológicas; 19% sobre tratamentos e cura; 15% sobre a causa de doença (incluindo sua origem); e 21% sobre outros motivos. Os autores ainda escrevem que a maior parte das informações falsas foram identificadas “na Índia, nos Estados Unidos, na China, na Espanha, na Indonésia e no Brasil”.

Estimar o impacto das fake news é difícil porque muitos dados não estão centralizados ou computados pelo mundo. Os pesquisadores falam em “centenas” de mortes com certeza, mas o número pode ser bem maior. Apenas uma fake news, que se espalhou em países como o Irã ainda nos primeiros estágios da pandemia, causou aproximadamente 800 mortes e 5.876 internações. A desinformação dizia que ingerir altas quantidades de metanol curaria o coronavírus, levando a uma onda de pessoas se intoxicando com o álcool. Além das mortes, 60 pessoas ficaram totalmente cegas em consequência da prática.

Outras histórias com mentiras também causaram diretamente mortes e danos à saúde, embora em números menores. Elas incluem a ingestão de desinfetante, outros tipos de álcool, sementes de plantas tóxicas e outras substâncias perigosas à saúde. Recentemente, uma criança morreu na Argentina por ingerir dióxido de cloro, um tipo de alvejante altamente tóxico, para se prevenir da doença. O “tratamento” falso está ganhando fama na internet, principalmente na América Latina, e já chegou até a ser aprovado por parlamentares da Bolívia, mesmo se mostrando ineficaz e perigosíssimo.

Outros relatos de desinformação foram identificados pelo estudo, embora não haja nenhuma relação oficial com fatalidades confirmadas. Uma história que ficou popular na internet era de que ingerir altas quantidades de alho poderia ajudar a prevenir a Covid-19 e estimular o sistema imunológico; na Índia e na Arábia Saudita, a ingestão de urina de vaca e camelo também aconteceu por conta de rumores sobre as propriedades curativas das substâncias. A lista vai além: plantas e chá medicinais como cura ou prevenção, ingestão indiscriminada de vitaminas C e D, “métodos” para se auto diagnosticar (como por exemplo segurar a respiração por 10 segundos), etc.

Além disso, o estudo também identificou postagens e rumores que promoviam a violência e a estigmatização de grupos de pessoas, como asiáticos ou profissionais de saúde, o que, segundo os autores, pode ter motivado ataques de ódio e discriminação.

Na conclusão do artigo, os pesquisadores escrevem que “a desinformação alimentada por rumores, estigmas e teorias da conspiração podem ter implicações potencialmente graves na saúde pública caso sejam priorizadas em detrimento de diretrizes científicas”. As agências nacionais e internacionais, incluindo as agências de checagem de fatos, não devem apenas identificar rumores e teorias de conspirações para desmentí-las, mas também devem trabalhar em conjunto com empresas de mídias sociais para divulgar as informações corretas.

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