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Dá para viver de graça?

Nossa repórter foi conhecer os adeptos do freeganismo, que catam comida no lixo para não participar do mercado de consumo

A primeira quarta-feira de fevereiro anoiteceu gelada, mas Gio Andollo andava pelas calçadas de Nova York sem luvas. Acompanhado de outras cinco pessoas que havia acabado de conhecer, ia abrindo grandes sacolas plásticas pretas depositadas na avenida Broadway, em Manhattan, e mexia no lixo à procura de comida. Recomenda-se luvas para quem revira lixo, ainda mais no inverno. Gio, um americano de 28 anos, branquelo, de óculos e dreadlocks, não usava porque, onde a maioria vê sujeira, ele vê desperdício.

O grupo se conheceu por meio do Meetup.com, um site de organização de encontros, onde Gio publicara, uma semana antes, um anúncio sobre o primeiro grupo de freegans do norte de Manhattan, a chamada Uptown. Freegan vem de free (grátis, livre) + vegan (quem não consome nenhum derivado de ou testado em animais). Adotando estratégias alternativas de vida, eles tentam evitar participação no sistema econômico capitalista: plantar ou resgatar desperdícios em vez de ir ao mercado, consertar em vez de jogar fora, caminhar ou usar bicicleta em vez de ter carro. Se o freeganismo fosse uma religião, comprar seria o pecado capital.

Apesar de a excursão por lixeiras ser apelidada de dumpster diving (mergulho no lixo), o grupo não chegava a entrar nos contêineres. Nessa parte de Nova York, os comerciantes deixam as sacolas na calçada. Gio explicou que os sacos deveriam ser deixados tão ou mais organizados que antes de serem desamarrados, e todos cumpriram a indicação.

Antes de abrir cada sacola, eles apalpavam o exterior para antecipar o que havia dentro. Se notavam formas arredondadas e lisas, podia ser fruta. Se houvesse um monte de formas e texturas, era provavelmente lixo comum que não merecia ser aberto. A estratégia foi bem-sucedida – nenhum saco aberto continha algo nojento ou mal-cheiroso. Talvez por causa do frio, que conserva a comida, ou talvez porque era lixo “fresco”, jogado fora a cada dia por estabelecimentos comerciais, e não lixo caseiro, que passa dias decompondo antes que a lata vá para a rua.

Sair para resgatar comida no lixo é como procurar o que comer em uma floresta: é preciso conhecer por onde anda e saber onde as boas coisas estão. O conhecimento vem com a prática. Gio já sabe quais lojas desperdiçam mais, o que jogam fora e quando. A primeira parada foi a Morton Williams, uma rede de supermercado, onde eles recolheram frutas e verduras. Em seguida, cruzaram a esquina e encontraram uma caixa de papelão aberta com 22 discos de vinil antigos. A maioria era de música clássica e trilhas sonoras de filmes. Fiquei com um Concertos for Horn número 4 do Mozart.

A Absolute Bagels, na 2788 da Broadway, só vende produtos frescos, e joga fora a cada noite a sobra do dia. O grupo encontrou um saco cheio com nada além de bagels dentro – os mesmos que estavam sendo vendidos a um dólar 15 minutos antes. Nada, porém, os deixou tão animados como uma caixa cheia de donuts encontrada na frente de uma padaria. Uma mulher que pediu para ficar anônima tirou da bolsa um potinho de álcool em gel e distribuiu entre os colegas, que ali mesmo comeram os bolinhos depois de higienizar as mãos. É mais fácil evitar o sistema que recusar uma sobremesa.

Além de Gio, faziam parte do grupo o amigo com quem divide o apartamento, a mulher do álcool em gel, a estudante Lyz, e José, um equatoriano que veio para Nova York há 15 anos tratar uma doença respiratória e nunca mais voltou. Completava o grupo uma senhora mal vestida, a única que parecia estar ali mais por necessidade que por convicção. Cada um abria um saco e avisava aos demais o que havia encontrado. “Achei a mão direita de uma luva”, diz Gio, “alguém quer? Às vezes é só esperar e eventualmente você encontra a esquerda. Já aconteceu comigo.”

Alguns são mais exigentes que outros e preferem não levar para casa, por exemplo, uma banana que já tenha marcas de amadurecimento. Outros não se importam em pegar biscoitos com validade expirada alguns dias antes. O que ninguém quer volta para o lixo, como a luva solitária. Em duas horas, o grupo não chegou a andar 500 metros – foram da rua 116 à 110, onde fizeram a última parada no Westside Market, um supermercado. Um funcionário, imigrante russo, olhava enojado os freegans tirarem do lixo o que ele tinha acabado de botar.

O grupo voltou para casa com os discos, os bagels, molho de tomate, duas caixas cheias de água em garrafa dentro da validade, tomates, abacates, pepino, alface, manjericão, manga, limão, maçãs e as frutas que mais cedo Gio tinha dito serem suas favoritas: romãs.

Os homens foram embora de metrô e eu voltei pelo mesmo caminho da ida com as mulheres. Na esquina seguinte, encontramos duas malas abarrotadas de livros usados. Voltei para casa sem comida, mas com O Estrangeiro, do Albert Camus, e duas biografias, uma do Kafka e outra do ciclista Lance Armstrong.

A mulher anônima, branca e de olhos azuis, de mais ou menos 30 anos, contou que os avós buscavam comida no lixo durante a Grande Depressão e os pais faziam o mesmo quando viveram a filosofia de liberdade da década de 1960. Para ela, revirar lixo é uma afirmação política. Tudo que encontra vai para doação ou é colocado em sites de troca e venda, como o Craigslist ou o Freecycle.com. Já encontrou um porquinho com US$ 20 dentro e uma mochila cheia de roupas de marca com as etiquetas ainda afixadas. Com as frutas e verduras, ela prepara lanches e dá para os moradores de rua. Ela não revela o nome porque prefere não colocar a carreira em risco. É mais fácil deixar de ser reconhecida pela boa ação que tentar explicar por que passa as noites abrindo sacolas de lixo.

Gio é filho de cubanos refugiados em Miami do regime de Fidel Castro. Estudou música em Orlando, na Universidade da Flórida Central, e tinha 23 anos quando terminou a faculdade. Recém-formado, levou três baques: deu-se conta de que tinha sido ingênuo ao pensar que viveria de música, a namorada o deixou e foi atropelado de bicicleta. Das experiências, gravou as músicas do primeiro CD, Life is a bike wreck (“a vida é um acidente de bicicleta”). Gio passou aquele ano fazendo trabalho voluntário e cantando na rua por trocados. Quando juntou US$ 2 mil, mudou-se para Nova York.

O primeiro apartamento que encontrou para morar ficava no Harlem. Quatro pessoas dormiam num quarto e ele no futon da sala. Pagava US$ 375. Era 2009, o ano da crise econômica americana, e ele procurava um emprego que nunca encontrou como professor, de música ou escolar. Vivia de shows no metrô e aulas de violão. No segundo mês, o dinheiro acabou. Foi quando lembrou de uma organização que conhecia na Flórida, que achava comida no lixo e preparava pratos vegetarianos para os pobres. Pesquisou na internet e descobriu que catar lixo era parte de uma filosofia de vida que tinha até nome: freeganismo.

O freeganismo empresta ideais do comunismo e do anarquismo, tem preocupações ambientalistas e uma pitada de filosofia hedonista. É difícil calcular quantos freegans existem no mundo, porque muitos se organizam em comunidades pequenas, em grupos que não estão na internet. No Meetup.com há 15 grupos de dumpster diving ativos, com 5.207 membros no total. Há outros 12.796 esperando para que um grupo se forme em suas respectivas cidades.

Entre os freegans há exceções, variações, limitações. Alguns levam a filosofia ao limite e moram em casas invadidas como afirmação de que moradia deveria ser um direito gratuito. Sem ter de pagar aluguel, nem comida, podem deixar de trabalhar e ter o que o freeganismo defende como essencial: tempo para estar com a família e os amigos. Se o freeganismo fosse uma religião, o tempo livre seria a hóstia.

Mas há também freegans que compram bens, até mesmo carros. Para minimizar o impacto ambiental dessa escolha, dão carona e adaptam o motor para receber óleo vegetal. Quem não se sente cômodo para mergulhar numa lixeira pode manter uma horta ou seguir indo ao mercado, mas optando por feiras verdes e produtores comunitários. Existem até os meagans, os que são freegans em outros sentidos, mas comem carne. Contanto que não paguem por ela.

No mundo inteiro, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação calcula que um terço da comida produzida para consumo humano seja desperdiçada no caminho entre a produção e o consumo. São 1,3 bilhão de toneladas por ano, o suficiente para acabar com a fome no mundo. Nova York é a capital mundial do consumo e, quanto mais consumo, mais desperdício. Números de 2005 mostravam que os Estados Unidos jogam fora 245 toneladas de lixo sólido por dia – 2 quilos por habitante, o dobro da média brasileira. Em Nova York, a média é mais alta: 2,7 quilos. Só 15% são reciclados.

Nova York tem Wall Street, mas também tem, do outro lado do rio Hudson, a região mais pobre dos Estados Unidos, no Bronx. “Existe uma doença na nossa sociedade, e os sintomas são esses, pobreza, desperdício. O freeganismo é só uma das respostas”, diz Gio, durante um almoço no restaurante onde trabalha das 7h às 14h lavando pratos, em Inwood, no extremo norte de Manhattan.

Aos 16 anos, na escola, Gio tinha o costume de pedir aos amigos a sobra do lanche e comia tudo em vez de deixá-los jogar fora. “Eu não sabia justificar, mas o fazia pela minha consciência”. Até aí, era só uma consciência social literalmente adolescente. De lá para cá, deixou de estar apenas preocupado e passou a fazer algo a respeito. Deixou de escrever canções sobre desilusões amorosas e compôs canções de protesto. Deixou de ser qualificado demais para certos empregos e aceitou a vaga para lavar pratos.

Duas semanas depois do primeiro encontro, Gio marcou a reunião dos Uptown freegans no seu prédio, também em Inwood. Três pessoas do primeiro dia apareceram: o equatoriano José, a estudante Lyz e seu colega de apartamento. Entre os novos membros havia uma estudante de antropologia de Connecticut e a amiga dela, que só foram observar, uma estudante de jornalismo acompanhada do pai, e uma mulher da vizinhança, contrariando os conselhos do namorado.

Cada um disse seu nome, e sua fruta, verdura ou legume favoritos. Respondi manga e aspargo, as primeiras coisas que me vieram à cabeça. Na porta do primeiro mercado por onde passamos, pouco antes das 22h, eles tiraram de um contêiner cinco berinjelas em perfeito estado, 18 potes de iogurte com validade expirando naquele dia, duas caixas de biscoito água e sal com a validade vencida há dois meses, três bandejas de cogumelos, várias verduras, laranja, maçã, cenoura, alho e cinco bandejas de ovos. Para pegar os ovos inteiros, Gio e o amigo molhavam a mão na clara e na gema que escorriam dos ovos que estavam quebrados. Procurar comida no lixo é uma afirmação política, mas é, antes de tudo, a superação do nojo.

José Luis, um imigrante dominicano, funcionário responsável por fechar o mercado às 22h, olhava a cena incrédulo. Em espanhol, comentou em voz alta: “não estou acreditando nisso”. Por quê?, pergunto. “Porque isso é lixo”. É difícil entender por que pessoas bem vestidas comeriam comida do lixo.

Ele observou Gio e o grupo tirar as frutas e verduras do contêiner e colocá-los expostos em bandejas no chão e voltou atrás: “Na verdade, eu não tenho nojo. Essa comida aí está em perfeito estado. A gente joga fora porque os clientes já não pagam se tiver um mínimo defeito, uma pontinha da verdura já ficando escura”. Depois de baixar as grades do mercado, ele voltou e completou: “Eu uma vez fiquei preso numa selva e comi até lagarto. Eu comeria isso aí também”.

Na última parada, frente a outro mercado, o grupo encontrou mais verduras, várias maçãs, cebola, pimentão vermelho e várias bananas já com grandes marcas marrons, mas ainda firmes. Em 15 minutos, dois vizinhos se aproximaram. Um jovem alto e loiro, que perguntou o que o grupo estava fazendo, levou para casa as bananas. Uma dominicana que voltava do mercado com o carrinho cheio pediu as maçãs. Gio achou três cachos de aspargos e perguntou: “alguém tinha dito mais cedo que gostava de aspargos, quem foi?” Diante do meu silêncio, o menino loiro ficou com eles.

Para a mulher anônima, era mais fácil pegar comida do lixo que explicar por que o faz. Para mim, o contrário.