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Desejos de mulher

Meninas poderão um dia ser tão boas quanto os homens num campo de futebol? Qualquer que seja a resposta, talvez a pergunta devesse ser outra: e faz alguma diferença?

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h11 - Publicado em 31 Maio 2002, 22h00

Alexandre da Costa

Finalmente Luiz Felipe Scolari se rendeu ao clamor popular. Na convocação dos 23 jogadores que vão tentar o hexa na Copa de 2006, na Alemanha, o treinador da Seleção incluiu Kátia Cilene e Roseli no grupo. Embora inéditas, as convocações eram mais do que esperadas. Afinal, as meninas deram show de bola jogando de igual para igual com os homens no Campeonato Brasileiro de 2005.

OK. Nunca passaria pela cabeça de Felipão a possibilidade de chamar uma mulher para defender o Brasil. Afinal, futebol é coisa de macho. Ou não é? Se você analisar apenas os frios dados estatísticos, concordará com a tese. Mas, falando sério, as mulheres terão, um dia, condições de vencer os homens num jogo de futebol pra valer (respeitando todas as regras)? Poderemos, no futuro, ter uma Seleção Brasileira formada por meninas e meninos?

“Claro que não! A mulher não tem consistência muscular para encarar um choque com um homem”, diz Paulo Roberto Santos Silva, fisiologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Hoje, o futebol é muito rápido e qualquer cabeça-de-bagre poderia facilmente anular uma Sissi com uma forte marcação no campo, mesmo ela sendo um talento fora-de-série. E mais: contra as evidências apresentadas em nossas pesquisas não há o que argumentar.”

O médico fala com autoridade. Afinal, ele, que trabalha com as garotas há seis anos, foi um dos responsáveis por um inédito trabalho de acompanhamento físico e psicológico implantado na Seleção de futebol feminino, que chegou em terceiro lugar na Copa do Mundo de 1999, nos Estados Unidos. A pesquisa do Laboratório de Estudos do Movimento do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, que recebeu elogios mundo afora, traçou o mais fiel perfil da mulher brasileira no futebol. E, para não perder a viagem, ainda comparou a performance feminina e masculina.

O homem, como era de esperar, percorre uma distância maior numa partida de futebol. Alcança 10 quilômetros, enquanto a mulher sua para chegar aos 8,5 quilômetros. Uma considerável diferença de 18%. Em contrapartida, a gordura corpórea feminina é 80% maior que no sexo oposto. E a gordura “rouba” resistência do atleta.

Graças à testosterona, hormônio masculino, o jogador apresenta potência muscular (também conhecida como força explosiva das pernas) 40% maior que a da jogadora. Por isso o fisiologista é tão enfático. “Temos que analisar essa questão de forma racional. Só se a natureza mudar a estrutura da mulher nos próximos anos, em todos os sentidos, veremos confrontos em pé de igualdade entre elas e os homens no futebol.”

Certo. E o talento, então, não serve para nada? Uma mulher talentosa não poderia superar a desvantagem física? “Quando se fala do confronto entre mulheres e homens no futebol as pessoas se apegam muito a questões físicas – massa muscular, potência etc.”, diz Wilson Riça, o Wilsinho, ex-jogador de futebol (Portuguesa de Desportos) e técnico da Seleção no Mundial feminino de 1999. “Claro, isso é importante, pode fazer diferença, mas estamos falando de um esporte que tem regras muito claras. Futebol não é luta-livre, vale-tudo. Se um zagueiro mal-intencionado atingir uma atleta, é expulso na hora. Por isso, afirmo, com todas as letras, que as meninas da Seleção Brasileira ganhariam até com certa facilidade de times profissionais de homens que disputaram o último Torneio Rio–São Paulo”, diz, referindo-se talvez ao lanterninha América…

Wilsinho destaca a eficiência feminina quando o assunto é tática e técnica no futebol. “As meninas assimilam mais rápido o que o treinador pede. Você fala uma vez e elas saem fazendo certinho.” Ele chega até a ver possíveis vantagens na tão amaldiçoada tensão pré-menstrual. “Há mulheres que viram verdadeiras feras no período da TPM. Correm tanto atrás da bola que deixariam qualquer maratonista morrendo de inveja.”

Polêmica à parte, o confronto entre homens e mulheres nos campos de futebol há muito deixou de ser uma hipótese. Por falta de adversárias, é comum a Seleção Brasileira adulta treinar na Granja Comary, em Teresópolis, RJ, contra equipes masculinas infantis e juvenis. Costumam perder: com medo da “humilhação” de perder para mulheres, os meninos fazem valer a força física e entram matando em campo.

O futebol feminino no Brasil está engatinhando. Em nada faz lembrar o país tetracampeão do mundo entre os barbados. Times parados sem ter o que disputar, jogadoras desempregadas, descaso de patrocinadores e desinteresse de dirigentes. Esse é o painel cruel do esporte. Do ponto de vista da organização, está a anos-luz de EUA (a meca da modalidade), Europa e China.

Mas há luz no fim do túnel. O terceiro lugar no Mundial de 1999 e o quarto lugar nos dois últimos Jogos Olímpicos ajudaram a arrefecer o preconceito de torcedores e imprensa esportiva. Remando contra a maré, estrelas brasileiras teimam em surgir. Quatro delas (Kátia Cilene, Pretinha, Sissi e Roseli) foram brilhar na primeira liga profissional dos Estados Unidos, em 2001, ao lado das melhores jogadoras do planeta. Kátia e Sissi, que defendem o Bay Arena CyberRays, inclusive comemoraram a conquista do título inédito. “É impressionante quanto somos respeitadas aqui nos EUA”, surpreende-se Sissi, uma das pioneiras no Brasil, hoje com 35 anos.

As jogadoras brasileiras evoluíram não apenas técnica, mas fisicamente. Aos 25 anos, a atacante Kátia Cilene já figura entre as atletas mais completas do mundo. Com 61 quilos e 1,73 metro de altura, Kátia tem índices físicos muito próximos da média masculina. Ela apresenta gordura corpórea de 13,2% (os homens têm 10%). O consumo máximo de oxigênio (o tal do VO2 max) de Kátia também surpreende. Ela alcança 54,3 ml/kg/min enquanto a média dos marmanjos é de 60 ml/kg/min. Traduzindo: num arranque pela ponta, Kátia Cilene é difícil de marcar até para homens. “Joguei bola com os meninos a minha vida inteira. E isso ajudou ainda mais na minha formação como atleta profissional”, diz Kátia, que acha graça na polêmica garotos contra garotas no futebol. “Cansei de passar a bola embaixo das pernas de zagueiro barbado”, se diverte.

Sissi entra na discussão e completa. “Sabemos que fisicamente não temos como bater os homens. Mas, com a bola nos pés, damos trabalho para qualquer um. E olha que podemos até ganhar”, promete. Você duvida? Então, faça suas apostas. A guerra dos sexos, realmente, está longe de terminar. Algum boleiro se habilita?

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Frases

Aos 25 anos, Kátia Cilene tem índices físicos de fazer inveja a muitos homens, como o consumo máximo de oxigênio e a taxa de gordura do corpo

O sexo frágil

Antes da última Copa do Mundo feminina foi feito um estudo comparativo entre homens e mulheres no futebol. Ele dá uma idéia da diferença física

Homem

Força muscular extensora de joelho (na perna boa para chutar) – 270 Newton/metro

Capacidade pulmonar máxima (VO2 max) – 60 ml/kg/min

Limiar anaeróbio (índice de resistëncia) – 14 km/h

Potência muscular (força explosiva das pernas) – 14 wingate/kg

Distância percorrida numa partida de futebol – 10 km

Gordura corpórea – 10%

Mulher

Força muscular extensora de joelho (na perna boa para chutar) – 200 Newton/metro

Capacidade pulmonar máxima (VO2 max) – 48 ml/kg/min

Limiar anaeróbio – (índice de resistëncia) – 11 km/h

Potência muscular (força explosiva das pernas) – 10 wingate/kg

Distância percorrida numa – partida de futebol – 8,5 km

Gordura corpórea – 18%

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