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Devemos usar menos exames para prevenir o câncer?

Os EUA estão desaconselhando a realização de mamografias e outros testes. Mas o que eles adotam como rotina não deve ser assumido automaticamente por outros países

Nise Yamaguchi

Todo médico deve pensar duas vezes antes de indicar um exame. Especialmente em se tratando de testes relacionados à prevenção do câncer, que causa tanto temor na população. Exames inadequados podem levar a procedimentos desnecessários, provocar dor e tensão. Um exemplo é a detecção de P.S.A. no sangue, usado para identificar câncer de próstata. Alterações no teste eventualmente conduzem a biópsias e à extração da próstata. A partir de uma idade avançada, porém, há pacientes que não vão desenvolver a doença e, em tumores bastante precoces, os riscos da remoção não compensam: pode haver dor, incontinência urinária e impotência. A solução cirúrgica deve ser muito bem avaliada.

A partir de questões como essas e de novas pesquisas, o órgão do governo dos EUA que define políticas de prevenção recomendou em outubro que homens saudáveis não sejam mais submetidos ao P.S.A. De acordo com o órgão, o teste não salva vidas – não é capaz de demonstrar a diferença entre os tipos de tumor e, portanto, pode levar a eventuais procedimentos desnecessários. Recomendação parecida foi feita há dois anos com relação à mamografia e ao papanicolau, usados no diagnóstico de câncer de seio e colo de útero. Em vez da rotina anual para mulheres acima de 40 anos, a mamografia passou a ser indicada apenas para acima dos 50 e a cada 2 anos. Já o papanicolau seria indicado a cada 3 e não 1 vez por ano. Antes que esse tipo de conduta seja considerado pela classe médica internacional, porém, é bom deixar algumas coisas claras, sem desmerecer meus colegas.

A decisão dos EUA é baseada em novas pesquisas que questionam a eficiência desses exames, mas também ocorre num contexto de pressão para financiar seu novo programa de saúde. O país conhece suas necessidades. Lá, o índice de contaminação por HPV é muito baixo se comparado ao brasileiro. E o papanicolau é um valioso mecanismo para identificar casos iniciais. O mesmo vale para a mamografia. Ocorre que, no Brasil, ainda há um grande número de mulheres que não tem acesso aos exames diagnósticos ou não os procuram por questões socioculturais.

Nem todo câncer precisa ser manipulado, retirado ou tratado, mas todo paciente tem o direito de conhecer as contraindicações e de ter acesso aos melhores tratamentos. Se isso vale para as necessidades de cada um, vale também para o conjunto dos países. E cada população tem características distintas.

Antes de recomendar menos exames, o Brasil precisa tratar adequadamente a todos. E reconhecemos que se esforça muito nesse sentido. As nações devem identificar suas necessidades, trocar informações e estar atualizadas com as pesquisas de ponta. Só assim podem definir a melhor política para garantir a saúde de seus cidadãos.

* Nise Yamaguchi é assessora do Gabinete do Ministro da Saúde em São Paulo, diretora da Sociedade Brasileira de Mulheres Médicas e professora da Faculdade de Medicina da USP. Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião da SUPER.