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Futebol dói

Levados ao limite do esforço físico, os craques estão condenados a sofrer com lesões? Ou estão apenas treinando e jogando em excesso?

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h11 - Publicado em 31 Maio 2002, 22h00

Tales Azzoni

Nenhuma imagem poderia ser mais eloqüente para mostrar o dano que o esporte pode provocar ao corpo. Em 12 de abril de 2000, Ronaldinho voltava aos campos depois de quatro meses se recuperando de uma cirurgia no joelho direito. Era o primeiro jogo da decisão da Copa da Itália, entre Internazionale e Lazio. Nove dias antes, tinha sido liberado para jogar pelo médico francês que o havia operado.

“O Fenômeno” entrou em campo aos 14 minutos do segundo tempo. Seu joelho não durou mais que seis minutos. Numa de suas primeiras arrancadas, quando apoiou o pé direito no gramado, o tendão patelar se rompeu. Resultado: a rótula, que liga fêmur e tíbia, se deslocou repentinamente para a direita, arrancando um grito de dor de Ronaldo e de espanto de todos que presenciaram a cena, no estádio Olímpico de Roma ou pela televisão.

Fatalidade? Quem trabalha com futebol sabe que não. O risco de um jogador profissional se machucar não mora apenas nas pancadas dos adversários. Um movimento brusco pode provocar uma lesão. Movimentos comuns durante uma partida, exaustivamente repetidos em treinos e jogos anos a fio, podem gerar um problema crônico. Goleiros que defendem bombas de atacantes desenvolvem lesões nas mãos. Zagueiros acostumados a girar o tronco para acompanhar os atacantes podem acabar sofrendo dores insuportáveis no púbis. Problemas ainda mais graves se a musculatura e o esqueleto do jogador não estão preparados para agüentar um esforço que começa ainda na adolescência – caso de Ronaldinho, jogador profissional desde os 16 anos e que, aos 19, já era obrigado a passar pela primeira cirurgia no joelho, quando jogava no PSV Eindhoven, da Holanda.

O assunto, claro, preocupa os médicos envolvidos com futebol. Um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 2000, com 124 jogadores profissionais, mostrou que eles sofrem, em média, cinco lesões por ano. Quase metade são musculares. Em seguida, pela ordem, vêm entorses, tendinites (inflamação de um tendão) e fraturas. O estudo confirma que as faltas violentas respondem apenas por parte das lesões: cerca de 60% não são resultado de contato direto entre jogadores.

Num esporte basicamente jogado com os pés (ou pelo menos deveria ser assim), o maior número de lesões é mesmo da cintura para baixo (coxas e tornozelos em primeiro, joelhos depois), seguidos de cabeça, tronco e membros superiores. As lesões em coxas e tornozelos são as mais freqüentes, seguidas pelas dos joelhos.

ATACANTE FRE

A maioria dessas lesões é de recuperação rápida. Cerca de 55%, segundo o estudo, permitem aos jogadores voltar a campo em menos de sete dias. As que envolvem cirurgia nos tornozelos ou nos joelhos são as que mais levam tempo – oito meses, em média. No geral, apenas 4% das lesões afastam os jogadores por mais de 30 dias.

O estudo ainda mostrou que a maior incidência de lesões ocorre em jogadores de meio-campo e ataque. “Os atacantes são mais afetados por serem jogadores de explosão, o que sobrecarrega muito os músculos de contração rápida das pernas”, diz Sérgio Augusto Xavier, ortopedista e traumatologista do Centro de Medicina Esportiva do Hospital do Coração, em São Paulo.

Jogadores de defesa, principalmente os laterais, também utilizam muito a explosão muscular, por isso sofrem lesões semelhantes. Meio-campistas, por necessitarem de grande preparo físico, estão mais sujeitos a lesões musculares, incluindo as lesões na coxa e na panturrilha.

As lesões em goleiros são mais raras. Quando acontecem são geralmente de sobrecarga nos ombros, por causa dos constantes arremessos, ou sobrecarga nos joelhos, devido ao modo como são flexionados. Goleiros também sofrem problemas nos tendões dos dedos e dos pulsos, que estão sujeitos a inflamações e rupturas devido às repetidas pancadas da bola de futebol.

Ronaldinho e Romário são exemplos de vítimas da necessidade de superar os limites do próprio corpo para vencer. Romário até faz piada com suas constantes lesões. Em março passado, quando saiu repentinamente de um Vasco x Flamengo, brincou com as especulações sobre o motivo da sua saída. “Podem escolher o que quiserem: joelho esquerdo, músculo posterior da coxa esquerda, panturrilha direita e olho direito. Façam um sorteio e digam o que estou sentindo”.

Aos 36 anos, ele sabe mais que ninguém o quanto jogador sofre. O segundo maior artilheiro da história do futebol brasileiro, atrás apenas de Pelé, Romário foi prejudicado por lesões em duas Copas. Em 1990, fraturou o tornozelo a poucos meses do Mundial. Recuperou-se a tempo de ser convocado, mas não a tempo de recuperar a forma: entrou em apenas um jogo e não fez gol. Na França, em 1998, foi cortado por Zagallo a oito dias do início da Copa, por causa de uma distensão na panturrilha direita. Desde então, Romário alterna gols e lesões freqüentes – nenhuma grave, mas várias crônicas, como ele mesmo mencionou acima.

Outro problema freqüente são as chamadas “lesões de fadiga”, ou de estresse, que ocorrem devido à repetição de movimentos e à sobrecarga de treinamentos. Belletti e Gabriel, os dois do São Paulo, Alexandre, do Internacional de Porto Alegre, e Marques, do Atlético Mineiro, são quatro casos recentes no futebol brasileiro.

Belletti, um dos principais candidatos à sucessão de Cafu na lateral-direita da Seleção Brasileira, submeteu-se a duas cirurgias para curar uma lesão de estresse no púbis. De tanto treinar para se recuperar das operações, acabou sofrendo uma fratura de fadiga no osso da bacia. Esforçou-se demais e ficou fora dos gramados mais que o necessário. “Até falavam para ir devagar nos treinos, mas para quem não está jogando não existe devagar”, diz o lateral. Ele mesmo reconhece que, se tivesse feito o tratamento correto – ou seja, repousado mais – quando sentiu as primeiras dores no púbis, não teria passado pelos problemas por que passou. O jogador só ficou bom 15 meses depois da lesão inicial.

Uma lesão no púbis também tirou o meia Marcelinho Carioca dos gramados em 1996. A dor incomodou o jogador por cerca de dois anos. Apenas uma cirurgia curou o problema. “É o tipo de lesão provocada pelo excesso de atividade física. De tanto treinar e de tanto jogar, a lesão vai piorando”, diz o médico do Corinthians Joaquim Grava.

Há ainda um agravante para os jogadores brasileiros: o calendário sobrecarregado. “Os jogadores muitas vezes não têm culpa. Eles precisam participar de um esquema de treinamentos e jogos. Às vezes, nem percebem que estão exagerando. Cada vez mais querem se dedicar e acabam se prejudicando”, diz o professor Moisés Cohen, chefe do Centro de Traumatologia do Esporte da Unifesp.

Um atleta que faça 72 jogos por ano e oito sessões de treinos semanais passa 1 068 horas dentro de campo em um ano. Muitos times grandes no Brasil chegam a jogar muito mais que isso. O Palmeiras, por exemplo, fez 92 partidas na temporada 2000. “Um calendário bom seria um grande começo”, diz Cohen.

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Para o fisioterapeuta Nivaldo Baldo, existe outro problema: a falta de bom senso na preparação física dos jogadores. Para ele, o erro é que todos tentam usar a mesma fórmula para preparar jogadores diferentes. “Cada jogador é uma entidade física, química e genética. Além disso, quem joga na Bahia é de um jeito, quem joga na França é de outro. Não existe um procedimento único.” O jogador que sai do clube e vai para a Seleção, por exemplo, deveria continuar a ter a preparação que tinha no clube. “O Romário tem a preparação dele. Se você treiná-lo todo dia como os outros jogadores você o mata.”

Frases

Em cerca de 55% das lesões, o jogador volta aos campos em menos de uma semana

Romário já faz até piada com suas constantes lesões: “Podem escolher: joelho esquerdo, coxa esquerda…”

Por que jogador se machuca tanto?

Se Riobaldo, herói de Guimarães Rosa no clássico Grande Sertão: Veredas, fosse jogador de futebol em vez de jagunço, diria: “Jogar é muito perigoso”. Antes de criticar seu ídolo por viver lesionado, lembre-se de que ele submete o próprio corpo a um esforço severo e repetido – o que aumenta muito a possibilidade de lesões

GOLEIROS

Lesões entre as falanges dos dedos, ou nos ossos dos punhos, devido aos impactos das bolas e às quedas, são comuns. Os braços podem sofrer bursites (inflamações) por causa dos repetidos lançamentos

HÉRNIA DE DISCO

Carga de treinos excessiva, imaturidade dos ossos ou a falta violenta de um adversário podem deslocar os discos que ligam as vértebras, causando fortes dores

PÚBIS

A flexão do tronco pode levar a dores que começam na virilha e se alastram para o abdômen e o baixo ventre. Alongamento e fisioterapia previnem

COXAS

Os músculos de trás podem sofrer estiramento quando o jogador se estica demais. Às vezes, o jogador não sente na hora, o que costuma agravar a lesão

TENDÕES-DE-AQUILES

São fundamentais para andar, correr e saltar. Excesso de treinos, calçados inadequados e terrenos duros tendem a provocar lesões graves

JOELHOS

Muito exigidos, podem desenvolver tendinites cada vez mais graves e até o rompimento do tendão

TORNOZELOS

Os chutes constantes desgastam os ossos. Os tendões estão sujeitos a inflamações e rupturas

Cabecear faz mal à saúde?

Experimente cabecear diariamente, durante anos a fio, em treinos e jogos, uma bola de futebol de 450 gramas (e, de vez em quando, bater cabeça com um adversário). Estudos feitos com jogadores profissionais em diversos países, nos últimos anos, mostram que prejudica o cérebro. Testes feitos na Holanda em 1998, com 53 jogadores profissionais e 27 atletas de outros esportes, sem cabeçadas, mostraram que os boleiros se saem pior em testes de memória e percepção visual. Zagueiros e atacantes, mais propensos a cabecear a bola que os meio-campistas, correriam mais risco. Nos EUA, já se adotam protetores para cabeça, como os do boxe, em jogos de dente-de-leite. Mas ainda não está provado nem que cabecear faz mal, nem que os capacetes resolvem.

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