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Gagueira: guerra no cérebro

Uma pesquisa liderada da Universidade do Texas mostra que há uma estreita relação entre casos de gagueira e falhas na lateralização da fala.

Você gagueja? Isso pode ser um sintoma de que está em curso uma batalha em seu cérebro: uma disputa entre os hemisférios direito e esquerdo pelo controle daquilo que você fala. Uma pesquisa liderada pelo neurocientista Peter Fox, da Universidade do Texas, mostrou que há uma estreita relação entre casos de gagueira e falhas na lateralização da fala. “Originalmente uma especialidade da metade esquerda do cérebro, a fala é alterada nas ocasiões em que o lado direito resolve se manifestar”, diz Fox. Com ordens distintas para que as palavras se articulem e os músculos se contraiam, os comandos se misturam e a pessoa gagueja.

Monitorando imagens de tomografia, Fox mapeou a atividade do cérebro de 20 pessoas – dez normais e dez que gagaguejavam desde a infância. Quando as pessoas que não gaguejam falavam em voz alta, as zonas que controlam os movimentos da boca, a geração de programas motores e a monitoração auditiva da fala estavam todas ativas do lado esquerdo do cérebro. Quando os gagos repetiram a experiência, ficaram mais ativos os sistemas motores do lado direito.

Fox então pediu aos voluntários que lessem um texto em coro. O jogral evitou que eles gaguejassem e as imagens do cérebro mostraram que o sistema motor realmente se acalmou. Ou seja: a gagueira é mesmo um distúrbio que se limita à fala normal. Cantar, ler de forma ritmada, sussurrar, gritar e falar em coro são verdadeiros remédios.

O pesquisador Joseph Kalinowski, do Departamento de Ciência da Comunicação e Distúrbios da East Carolina University, já sabia disso. Ele pesquisa há 12 anos um remédio para a gagueira. A década de pesquisa culminou com a fabricação de um aparelhinho parecido com aqueles usados por deficientes auditivos. A maquininha, que custa 4 mil dólares (os interessados devem mandar e-mail para kalinowskij@mail.ecu.edu), chama-se Speech Easy e faz o gago ouvir sua própria voz com atraso ou alteração de frequência. Segundo o pesquisador, melhora a gagueira de 50% a 95% em 90% dos casos. Kalinowski sabe do que está falando. Ele é gago.

“O mecanismo consiste em fazer o cérebro crer que está falando em coro ou cantando”, diz Kalinowski, a primeira pessoa a usar o aparelho, em abril de 2001. Em uma entrevista à televisão, ele tirou o aparelho da orelha. Foram angustiantes minutos até que conseguisse dizer seu nome. Com a maquininha de volta ao ouvido, a conversa prosseguiu.

A demonstração permite dizer que o tal Speech Easy está para a gagueira assim como os óculos estão para a miopia: corrige o desvio, mas não cura o distúrbio. Bom. Já é um cocomeço.

A gagueira está no cérebro. Mas a cura pode estar na orelha