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Mutação do novo coronavírus na Inglaterra: o que se sabe até agora

Governo britânico estima que variante possa ser 70% mais transmissível do que outras linhagens de Sars-CoV-2. Mas muitas perguntas ainda seguem sem resposta

Por Carolina Fioratti Atualizado em 21 dez 2020, 17h44 - Publicado em 21 dez 2020, 16h41

Quando um cientista analisa o material genético do coronavírus que circula entre pacientes no Brasil ou na Europa, por exemplo, o que aparece é uma cepa de vírus diferente daquela observada em Wuhan, na China, em dezembro de 2019. Tudo porque vírus são craques em sofrer mutações rápidas. No caso do Sars-Cov-2, por exemplo, pesquisadores notaram que, desde a primeira vez que o vírus foi identificado, há quase um ano, algumas milhares de mutações já apareceram – 4 mil delas só nas tais proteínas “spike”. Só uma minoria, porém, foi capaz de alterar a estrutura do vírus de forma significativa.

“Mutações são esperadas e são uma parte natural da evolução. Muitos milhares de mutações já surgiram, e a grande maioria não tem efeito sobre o vírus, mas pode ser útil na tarefa de monitorar surtos”, explicou Sharon Peacock, diretor do COG-UK (Consórcio de Genômica da Covid-19 do Reino Unido).

Até agora, essas mutações não pareciam representar grande ameaça. Mas um novo conjunto de mudanças no código genético, que gerou uma nova linhagem (ou cepa) de coronavírus, ganhou a atenção mundial, sobretudo no último fim de semana. Batizada B.1.1.7, ela foi identificada na Inglaterra, e parece ter adquirido 17 mutações de uma só vez

Pesquisadores sugerem que esse pacote de alterações do vírus tenha surgido no organismo de um paciente com o sistema imunológico enfraquecido. Como o corpo não conseguia combatê-lo, o Sars-CoV-2 pode ter se mantido incubado nas células desse paciente por um longo período, incorporando uma quantidade maior de mudanças. Não se sabe ainda se o pacote de mutações surgiu em um paciente britânico ou se foi importado de outro lugar, sem ser identificado de pronto por cientistas.

A nova versão do vírus logo se tornou motivo de preocupação na Europa – e em todo o mundo. A cepa B.1.1.7 foi detectada pela primeira vez em setembro, e, em novembro, causou 26% dos casos de Covid-19 de Londres. Seu avanço foi rápido e, até meados de dezembro, a linhagem era responsável por mais de 60% dos casos registrados na capital inglesa. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, chegou a comunicar neste domingo (20) que a taxa de transmissão da nova cepa viral já era 70% mais alta do que a de linhagens anteriores.

Frente às novas notícias, Holanda e Itália optaram por restringir os voos vindos do Reino Unido, iniciativa que também logo foi adotada por países vizinhos. Na tarde desta segunda-feira, 21, a lista de nações que proibiram a entrada de pessoas do Reino Unido já somava mais de 40 nomes. Enquanto isso, a Inglaterra adotou restrições locais mais rígidas, como a volta do estado de lockdown.

Para além da taxa elevada de transmissão da nova cepa, algo que tem despertado a preocupação dos países é quanto a uma possível resistência do vírus à vacina. Afinal, há risco de que as versões de vacina aprovadas ou em desenvolvimento não sejam efetivas em barrar o Sars-CoV-2 modificado?

  • Para tentar responder perguntas como essa, é preciso, primeiro, entender o potencial impacto das mutações. No caso da cepa B.1.1.7, existem alguns problemas. O primeiro é que, como vimos, ela já se tornou a versão que mais infecta pessoas em Londres – o que significa que pode, potencialmente, “substituir” outras cepas. O segundo é que ela trouxe mudanças na estrutura do vírus. Sars-CoV-2 dessa linhagem têm diferenças na proteína spike – a “chave” usada pelo coronavírus para abrir a porta das células e invadi-las.

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    Uma das mutações incorporadas na nova cepa, a N501Y, atinge uma parte importante das proteínas spike, chamada de “domínio de ligação ao receptor”. Isso pode ser um problema, já que, segundo testes, vírus com essa alteração podem entrar entrar mais facilmente nas células humanas. Por tabela, a variante teria mais chances de se multiplicar no interior do organismo, agravando o caso de um paciente contaminado, e de se espalhar entre a população.

    Com mais pessoas imunizadas, seja por já terem sido infectadas ou pela vacinação, é comum que o patógeno acabe incorporando mudanças que o façam se espalhar mais ou passar despercebido pelo sistema imunológico. Mas, por enquanto, isso não deve afetar os imunizantes disponíveis no mercado. Autoridades em saúde sugerem que um pacote de mutações desse nível, capaz de afetar a vacinação, levaria anos para ser incorporado pelo Sars-CoV-2. 

    É claro que tudo isso não exclui a necessidade de a ciência continuar rastreando mutações do Sars-CoV-2. Os vírus influenza, causadores da gripe, por exemplo, são acompanhados de perto por cientistas do mundo todo a cada temporada de gripe. Isso permite que existam atualizações constantes nas vacinas, que são oferecidas anualmente. O mesmo pode ocorrer com o imunizante para a Covid-19, doença com potencial para se tornar sazonal. Além disso, eventuais alterações do vírus podem despertar menos preocupação se, dentro de um ano, formos capazes de vacinar cerca de 60% da população e controlar a crescente no número de casos. 

    A comunidade científica trata com cautela o anúncio do governo britânico de que a nova cepa é 70% mais transmissível. Há pesquisas ainda não publicadas que indicam números menores – enquanto outras sugerem valores ainda maiores. O fato é que ainda não há evidências suficientes para cravar se a cepa B.1.1.7 pode substituir outras versões caso for introduzida numa certa região.

    Pesquisadores destacam que ainda não é possível dizer, também, se a maior aparição dessa cepa está exclusivamente relacionada ao vírus, ou se houve influência do próprio comportamento dos europeus nesses últimos meses da pandemia. Com o relaxamento das medidas de isolamento social em certas áreas, é possível que versões que circulavam ali tenham “pulado” para áreas onde antes não apareciam tanto.

    “Esta variante está fortemente associada a lugares onde observamos taxas crescentes de Covid-19″, disse Nick Loman, professor de genômica microbiana e bioinformação da Universidade de Birmingham, em comunicado. “É uma correlação, mas não podemos dizer que é causalidade. Mas há um crescimento notável nesta variante, e é por isso que estamos preocupados. Ela precisa urgentemente de acompanhamento e investigação”.

    Também não há dados sobre variação na taxa de mortalidade do Sars-CoV-2 – se essa mutação pode fazê-lo mais mortal – e se os anticorpos de pacientes já infectados podem não proteger da nova versão do vírus. Tudo isso prova que a lista de perguntas a serem respondidas pelos cientistas ainda é extensa.

    O Reino Unido não foi o único país a registrar a nova linhagem. Dinamarca, Austrália e Holanda também notificaram casos – provavelmente importados da Inglaterra. Na África do Sul, cientistas detectaram uma versão semelhante do vírus, que compartilha algumas das mutações. Em meados de novembro, cerca de 90% das amostras de sequenciamento genético analisadas contavam com o patógeno modificado. 

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