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O mito do Detox

A detoxificação real é feita pelo corpo. Quem tem intestino, fígado e rins não precisa de suco verde.

Se o detox fosse uma religião, provavelmente contaria com confessionários onde os fiéis relatariam seus excessos alimentares e seriam orientados a expurgar os pecados da gula com dietas, sucos, chás e cápsulas detoxificantes. A ideia de poder compensar a farra de calorias com uma breve mudança na rotina alimentar é o principal atrativo do variado leque de produtos e práticas que prometem limpar o organismo sob o mesmo rótulo: detox. Mas não há comprovação científica da sua eficácia. 

A oferta desses itens e tratamentos tem como base duas premissas. A primeira é a de que o corpo sempre acumula substâncias que são ingeridas com os alimentos e que têm o potencial de fazer mal: as toxinas, substâncias de origem biológica sem função no organismo, também chamadas de xenobióticos, e que oferecem riscos à saúde. A segunda é a de que é possível eliminar essas substâncias por meio do consumo, por exemplo, de sucos detoxificantes.

A argumentação até pode fazer sentido para quem busca uma vida mais saudável. Mas, para a ciência, a promessa de detoxificação não passa de um mito. E pior: a desejada dieta equilibrada pode ser perdida quando alguém busca apenas produtos detox para limpar o corpo. Em vez de ajudar, a mudança abrupta nos hábitos alimentares tende a prejudicar o metabolismo. 

A crença de que o nosso corpo tenha estoques genéricos de toxinas originadas pelos alimentos é contestada pelo professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) Henrique Suplicy. “Nós temos mecanismos no organismo que jogam substâncias nocivas fora”, diz.

Naturalmente, intestino, fígado e rins conseguem fazer a seleção do que deve ser aproveitado pelo corpo e do que será jogado fora. O que não serve é eliminado via fezes e urina. É o detox natural. Já os nutrientes, como carboidratos, gorduras e proteínas, são processados, dando origem às substâncias que o corpo usa para se manter em funcionamento, permitindo que você vá ao trabalho, namore, saia com os amigos e leia a SUPER. O sistema funciona tanto para quem mantém uma dieta saudável quanto para quem exagera na comida e na bebida. Não importa o quanto você coma, o seu metabolismo vai processar os alimentos, sempre separando o joio do trigo.

Isso não livra quem come ou bebe demais de prejuízos à saúde provocados pelos excessos alimentares. Mas esse malefício não se dá pelo acúmulo de toxinas. Quando alguém ingere muita gordura, por exemplo, o metabolismo trabalha para processar tudo. O resultado: mais gordura no sangue, mais gordura depositada nos vasos sanguíneos e, claro, maior risco de doenças coronarianas.

Também pode haver aumento de peso, com acumulação de gordura na região do abdômen, chamada de obesidade central. Isso pode gerar células inflamatórias capazes de produzir substâncias danosas ao funcionamento do fígado. Nessas situações, o órgão pode passar a produzir mais gordura do que tem capacidade de descartar, acumulando gordura e danificando as próprias células. É o que caracteriza uma doença chamada esteatose hepática, que pode evoluir para hepatite e cirrose. Esse quadro não é exclusividade de quem está acima do peso ou ingere muita comida rica em gordura. Segundo Raymundo Paraná, professor titular de gastro-hepatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o fígado também pode acumular gordura de forma nociva quando alguém adota dieta baseada em frutas, devido ao excesso de frutose. “No Brasil, há indivíduos magros que têm gordura no fígado porque têm alimentação absurdamente desbalanceada em relação ao volume de frutas que comem ou porque consomem alimentos processados que contêm frutose, como refrigerantes e barras de cereal”, diz o professor da UFBA.

Não sobrecarregue seu fígado

Com o consumo de grandes volumes de álcool, o efeito é semelhante. O metabolismo dá conta de processar praticamente qualquer quantidade (dentro de certos limites – se você virar uma garrafa de uísque num gole, provavelmente vai morrer). Quando você toma um porre, o cérebro é intoxicado e o fígado é sobrecarregado. Mas, passadas 24 horas sem álcool, tudo já foi metabolizado. O problema maior é o reiterado exagero na bebida, que acumula gordura e danos no fígado, não toxinas. A diligente atuação do fígado, rins e intestino na triagem do que chega à corrente sanguínea, no entanto, não nos livra de 100% das toxinas que ingressam em nosso organismo. Mas não são os alimentos as principais fontes de risco. As comidas geralmente carregam as toxinas mais simples, que, na maior parte dos casos, tendem a ser eliminadas nas fezes e urina.

O problema é quando há inclusão de aditivos químicos nos alimentos. Um pão feito só com ingredientes tradicionais não tem toxinas. Mas há padarias que incluem bromato, um composto químico para melhorar a textura do produto. “O bromato não é bom. Em pequena quantidade o fígado joga fora. Mas em grande quantidade, pode acumular”, diz Paraná.

As toxinas que dão mais trabalho para os mecanismos naturais de detoxificação são justamente aquelas originárias da contaminação de alimentos e do ambiente ou da composição química de remédios e chás. O chá verde, por exemplo, tem uma substância chamada catequina. No corpo, ela pode se transformar em uma toxina capaz de se acumular no fígado, caso consumida em grande quantidade. O maior risco vem das cápsulas com extrato de chá verde. Vendidas com a promessa de acelerar o metabolismo e queimar gordura, elas têm alta concentração de catequina  – cem vezes superior ao chá, podendo causar uma intoxicação e matar células do fígado.

A erva cavalinha também pode ser tóxica quando consumida na forma de chá. Em grande quantidade, se acumula no fígado, levando à morte de células no órgão. Em pequenas porções, tem potencial para provocar uma doença crônica, que pode evoluir para a cirrose.

Esses chás exemplificam a possibilidade de acúmulo de toxinas. São substâncias que o fígado só consegue processar adequadamente até uma determinada quantidade. Mas não dá para saber as quantidades seguras: o limite exato, o potencial de dano e a capacidade de acumulação variam de uma pessoa para outra. 

Também é essa variação que explica o fato de um determinado medicamento provocar reações adversas apenas em um pequeno grupo de pessoas. A genética tem influência no efeito da toxina porque, na maior parte dos medicamentos, chás ou fitoterápicos, a toxicidade resulta da metabolização. Ou seja, o corpo, ao receber  uma medicação, gera uma nova substância, que pode ser uma toxina. Como cada organismo é diferente, o efeito também varia.

Para cada veneno, um antídoto

A lógica das desintoxicações é a de antídoto. Para cada toxina, é preciso saber a substância que pode ser receitada para eliminá-la ou neutralizá-la. Se um paciente chega a um hospital com overdose de paracetamol, por exemplo, será medicado com N-acetilcisteína. “Esse é um mecanismo detox conhecido, formulado e estudado”, diz Paraná. 

Ou seja, o detox até é possível. Mas só se você sabe exatamente qual toxina quer tirar do corpo e qual a substância mais adequada para isso, que, cá para nós, jamais será um suco de couve com água de coco e gengibre.

Já para consertar o estrago de bebedeira ou daquela churrascada, o máximo que você pode fazer é dar uma ajudinha para que o organismo faça a sua recuperação natural. Comidas leves no dia seguinte ajudam a apressar o processo de cura, assim como a hidratação, que auxilia o organismo no seu autodetox.

Para Raymundo Paraná, a sensação de bem-estar de uma dieta detox pode ser explicada pela mudança do hábito de quem passa a consumir alimentos mais saudáveis do que antes. Ou seja, ao mudar seus hábitos, o corpo fica melhor porque está melhor alimentado, não porque está perdendo eventuais toxinas. Então, esqueça as fórmulas mágicas. O melhor jeito de fazer as coisas funcionarem direito dentro de você é a mesma velha dupla formada por alimentação adequada e exercícios físicos. Pelo menos, até prova em contrário.

 

Trio detox

Enquanto você lê esta matéria, seu organismo trabalha duro na triagem de tudo que comeu nas últimas horas.

Intestino

O primeiro a agir como barreira antitoxinas é o intestino. É lá que a comida desembarca depois da mastigação e de passar pelo estômago. Tudo chega misturado ao início do duodeno, trecho inicial do intestino, onde enzimas vindas do pâncreas e ácidos do estômago agem para digerir os alimentos. Cada segmento do intestino é especializado na absorção de determinada substância. Há áreas que capturam o ferro, outras, o ácido fólico etc. As células das paredes do intestino puxam essas substâncias, que são jogadas na corrente sanguínea. Algumas toxinas são flagradas já por essas células, que impedem a sua entrada no metabolismo. É o que acontece quando você come aquela maionese suspeita, que, confirmando o temor, está intoxicada com salmonela. A bactéria gera uma toxina que estimula uma reação dos intestinos. A absorção de água e outros elementos fica bloqueada, formando a diarreia, que nada mais é do que uma jogada do organismo para se livrar da intoxicação alimentar.

Fígado

As toxinas que vencem a barreira do intestino e entram na corrente sanguínea passarão por uma triagem mais rigorosa: a do fígado. Ele funciona como um posto de imigração. Examina a identidade das substâncias carregadas pelo sangue, definindo quem pode continuar no corpo e quem será conduzido de volta para o intestino para ser deportado junto com as fezes. 

Rins

São nas situações em que o fígado não consegue fazer o seu trabalho corretamente que as toxinas voltam para o sangue. É aí que entram em ação os rins, a dupla de retaguarda do corpo no combate suplementar às substâncias nocivas. Responsável pela formação da urina, o rim coleta elementos indesejados que não foram adequadamente metabolizados.