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OMS retoma testes com cloroquina. Entenda o que se sabe sobre ela até agora

Potencial do remédio para tratamento ou prevenção de Covid-19 ainda não foi comprovado em estudos de grande porte.

Por Guilherme Eler - Atualizado em 5 jun 2020, 10h31 - Publicado em 4 jun 2020, 21h33

A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou na última terça-feira (2) a retomada dos testes clínicos com cloroquina para o tratamento de Covid-19. Estudos com a substância (ou sua derivada, a hidroxicloroquina) estavam suspensos desde o dia 25 de maio, para que cientistas avaliassem mais à fundo a segurança do remédio – e eventuais riscos à saúde.

A decisão por interromper os testes foi motivada por um estudo publicado na revista científica The Lancet, uma das mais respeitadas do mundo, no dia 22 de maio. Era nada menos que o maior levantamento já feito sobre uso de cloroquina em casos de Covid-19: envolveu 96 mil pessoas em 671 hospitais e seis continentes.

A conclusão do estudo? Não pareciam existir benefícios do uso da substância para o tratamento da doença. Pelo contrário: quando combinadas com a azitromicina, um antibiótico, a cloroquina e a hidroxicloroquina aumentavam a letalidade – tornando maior também as chances de que a pessoa sofresse arritmia cardíaca grave.

A metodologia do estudo em questão, porém, foi colocada em xeque nos últimos dias por especialistas do mundo todo. O grande problema estava na forma usada para coletar dados de pacientes. O banco em questão foi obtido junto à empresa Surgisphere, baseada em Chicago, nos EUA, mas era pouco transparente.

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Em uma carta enviada à Lancet no dia 28 de maio, 180 cientistas destacam que os autores não divulgaram quais países participaram do estudo ou mesmo a lista de hospitais que forneceram as informações. Isso impedia que a veracidade dos dados do estudo fossem checadas por uma equipe independente de especialistas. A Surgisphere, porém, afirmava que não podia fornecer os nomes das instituições que toparam ceder os dados devido a acordos de confidencialidade.

A confirmação não veio, e a credibilidade da pesquisa só diminuiu. Até que, na tarde desta quinta-feira (4), os próprios autores publicaram uma nota em que pedem ‘retratação’ do estudo, argumentando que não podiam mais garantir a veracidade dos dados usados para fundamentar a pesquisa. O artigo científico da Lancet, então, foi removido.

A OMS declara ter revisado os dados e não encontrado motivos suficientes para que os testes sigam paralisados. Segundo o órgão, os testes com cloroquina envolvem pelo menos 3.500 pacientes de Covid-19 em 35 países.

Vale, aqui, um lembrete: essa retomada não significa que a OMS recomende o uso da cloroquina, ou mesmo reconheça sua eficácia. Ainda não há provas de que a substância – ou qualquer outra – reduza a mortalidade de pacientes infectados ou imunize contra o novo coronavírus.

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“Não aconselhamos o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina no tratamento da Covid-19 fora de testes clínicos randomizados ou sob supervisão clínica apropriada, sujeita a autoridades reguladoras nacionais”, disse em coletiva de imprensa Mike Ryan, diretor executivo do programa de emergências da OMS.

O que dizem os estudos com cloroquina

A cloroquina é um medicamento com bons resultados no tratamento de malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite. Mas ainda precisa se provar como alternativa a pacientes infectados pelo novo coronavírus.

A droga se mostrou promissora pela primeira vez em testes in vitro – em culturas de células em laboratório – feitos na China. A pesquisa chinesa mostrou que o medicamento poderia inibir a entrada do novo coronavírus nas células, limitando sua mobilidade.

Depois, tiveram início pequenos testes com humanos. Ministrada junto da azitromicina, a cloroquina até se mostrou capaz de ajudar a diminuir a carga viral em pessoas com Covid-19. Contudo, a pesquisa que chegou a esse resultado, feita na França, considerou apenas 36 pessoas – uma amostragem pequena demais para se cravar qualquer conclusão. Você pode ler o estudo neste link.

Não demorou para que a validade desse estudo inicial fosse questionada: os testes não contavam, por exemplo, com um grupo controle – pessoas escaladas para não receber o medicamento, e servirem como “régua” na hora de se comparar os resultados. O cientista francês que liderou a pesquisa também tem um histórico polêmico: além de cético quanto ao aquecimento global, é crítico da vacinação obrigatória.

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O fato é que, até agora, existem mais estudos que questionam os resultados obtidos em grupos pequenos do que pesquisas que corroboram com essas conclusões. Em um artigo publicado na revista JAMA, que analisou 1,438 casos de 25 hospitais, o uso dessas substâncias não alterou de forma significativa a taxa mortalidade. Além disso, quem usou a combinação tinha chance maior de sofrer de falência cardíaca.

No Brasil, um estudo preliminar precisou ser suspenso depois que 11 pessoas com Covid-19 tratadas com cloroquina morreram. Os pesquisadores destacaram, à época, que altas doses do remédio poderiam causar arritmias severas.

De acordo com um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine, a hidroxicloroquina também não impede que pessoas que tiveram contato com pacientes de Covid-19 de desenvolver a doença. No experimento, que envolveu 821 voluntários, cerca de 12% das pessoas que receberam hidroxicloroquina desenvolveram Covid-19. Já no caso do grupo controle, que tomou ácido fólico (vitamina B9) como placebo, o percentual daqueles que contraíram a doença foi de 14%.

Quase 40% dos pacientes tratados com hidroxicloroquina sofreram de sintomas como náusea, irritação no estômago e diarreia – só 17% dos voluntários do grupo placebo sentiram o mesmo. Nenhuma alteração na taxa de mortalidade ou na frequência cardíaca, no entanto, apareceu. Vale a menção, porém, que o estudo foi feito à distância, com usuários fornecendo por contra própria suas informações de saúde e acompanhados por médicos pela internet.

Resumo da ópera: estudos sobre a doença ainda esbarram em limitações como o número de pessoas analisados e os métodos de coleta das informações. Isso faz com que a cloroquina não possa ser descartada por completo, claro – mas indica, também, que ela ainda não apresentou o suficiente para ser encarada como salvadora da pátria.

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A tendência é que o potencial – e os efeitos colaterais – do medicamento fique mais clara nos próximos meses. Existem, hoje, mais de 200 ensaios clínicos focados no teste da hidroxicloroquina pelo mundo, segundo informações do governo dos EUA.

A recomendação de uso do medicamento, que pode ter efeitos colaterais, para tratamento e prevenção de Covid-19, portanto, ainda é precoce. E deve ser evitada por médicos – pelo menos até que novos resultados surjam. É assim que a ciência trabalha.

Guerra de versões

Um parecer científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), publicado no dia 18 de maio, destaca que o posicionamento pelo uso imediato da cloroquina é “perigoso” e “tomou um aspecto político inesperado”.

A aplicação da hidroxicloroquina ganhou evidência após Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, afirmar em março que o país começaria a testar a droga para tratar pacientes de Covid-19. Trump chegou a dizer também, no mês passado, que estava tomando cloroquina preventivamente contra o coronavírus.

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As menções ao medicamento aparecem no discurso do presidente Jair Bolsonaro desde o início da pandemia. No Brasil, o governo chegou a modificar o protocolo do Ministério da Saúde e autorizar o uso da cloroquina para casos leves, na tentativa de incentivar a distribuição.

Hoje, é preciso que o paciente autorize a aplicação – e o médico decida, autonomamente, se o caso deve ser tratado ou não com a substância. No início de junho, os Estados Unidos anunciaram a doação de 2 milhões de doses de hidroxicloroquina ao Brasil.

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