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Para que serve o sexo?

Texto Marília Juste

Sexo é gostoso, não há quem não goste. Dele resultam não apenas sensações bacanas, mas bebês. Só que há uma pegadinha biológica nessa história: prazer é possível obter de inúmeras maneiras, e o sexo não é a única forma de uma espécie se reproduzir. Por que, então, praticá-lo? Três principais idéias – não necessariamente excludentes – tentam explicar esse paradoxo.

Sexo ajuda a evolução

A variabilidade genética, desde que não cause efeitos colaterais ruins, pode ser uma mão na roda para a evolução. O sexo mistura as características genéticas de pai e mãe. Portanto, aumenta as chances de surgir uma combinação mais eficiente para a espécie, que vai ser selecionada. Na reprodução assexuada, só há mudança por acaso, quando há alguma alteração no DNA. Esses eventos são mais raros e arriscados, pois podem fazer surgir alguma alteração maligna para o organismo.

Sexo corrige erros no DNA

Se os genes dos pais são o rascunho, os do filho serão a versão passada a limpo. Se houve algum erro de DNA no pai ou na mãe, a mistura genética que surge com o sexo pode permitir que ele seja corrigido. Isso porque, na hora de produzir um descendente via reprodução sexuada, o DNA dos ancestrais dos dois lados é “recombinado” – eles trocam pedaços. O que estava errado em um pode ser consertado pelo “backup” do outro (o amor não é lindo?).

Em organismos que não fazem sexo, esse tipo de correção só é realizado pelos mecanismos internos de cada indivíduo. E, mais cedo ou mais tarde, principalmente com o envelhecimento ou com o estresse ambiental, tais salvaguardas falham.

Sexo ajuda a escapar de parasitas

A reprodução sexuada tem como principal objetivo misturar as características do pai e da mãe. E isso serve para muito mais coisas do que apenas estimular a corujice da família com o bebê. A mistura genética aumenta as diferenças entre os indivíduos, e isso serve como um fator protetor para a espécie como um todo.

Os microorganismos que se reproduzem assexuadamente, por exemplo, apresentam bem menos diversidade genética. A mesma arma (ou remédio) que serve para atacar uma bactéria “mãe” é capaz de detonar as bactérias “filhas”, que são pouco mais do que meras cópias da original.

Isso é muito mais difícil de acontecer entre humanos exatamente porque fazemos sexo. Na prática, a mistura genética confunde o parasita que está esperando para capturar um bebê recém-nascido. Se o causador de doenças já aprendeu a viver no organismo da mãe, precisa começar tudo de novo se quiser pegar o filho.

Cem milhões de anos na seca

Quem reclama de estar “na seca” quando fica algum tempo sem sexo nunca ouviu falar dos bdelóides: animaizinhos que vivem há uns 100 milhões de anos sem ir para a cama.

Por tudo que os cientistas sabem e pela mais pura lógica, um bicho que passou tanto tempo se reproduzindo apenas pela forma assexuada já deveria ter sido extinto ou estar prestes a ver seu DNA se desintegrar com o excesso de mutações. Mas os bdelóides, veja você, desafiaram tudo isso e seguem vivendo em ambientes úmidos, como musgos, poças e córregos. Aliás, existem 400 espécies deles.

Qual o segredo? Em vez de ter duas cópias de cada cromossomo, como a gente, esses bichinhos têm 4, afirma o pesquisador David M. Welch, que trabalha no Laboratório de Biologia Marinha do Instituto Oceanográfico Woods Hole. Ao que parece, em algum momento do passado distante, os cromossomos dos bdelóides duplicaram, gerando os animais que conhecemos hoje.

Com 4 cópias de cada gene em mãos, a espécie é capaz de corrigir os defeitos genéticos e diminui sua exposição aos riscos da vida sem sexo. É como se tivessem absorvido a grande vantagem da reprodução sexuada: seu DNA é corrigido internamente, sem que haja necessidade de um acasalamento.

Bactérias normalmente não fazem sexo, mas às vezes trocam DNA entre si, usando para isso um tipo rudimentar de “pênis”.