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Pela mistura de torcidas!

Corintiano odeia palmeirense, flamenguista quer matar vascaínos, cruzeirenses não suportam atleticanos.

Sérgio Xavier

Corintiano odeia palmeirense, flamenguista quer matar vascaínos, cruzeirenses não suportam atleticanos. Inverta as sentenças, troque os clubes e chegaremos ao mesmo lugar: todos se odeiam e o futebol é um caldeirão sem fundo de violência e ressentimentos. Vira e mexe, lemos que mais um torcedor atirou no rival, que a gangue de determinado time encarou a adversária em batalha campal. Passado o horror, a vida segue. E o diagnóstico para o problema se mantém: a solução para a violência no futebol passa sempre por reforço no policiamento e pelo fim das torcidas organizadas. Mas será que a raiz do problema está realmente aí?

Minha impressão é que estamos muito longe da verdadeira questão. É evidente que polícia eficiente e fim da sensação de impunidade são armas poderosíssimas quando o assunto é uma contravenção qualquer. Mas a verdade é que, no futebol, o remédio para a violência só faz alimentar o ódio entre torcedores. Basta lembrar como o problema vem se avolumando nos últimos anos. No passado, a pancadaria ocorria dentro dos estádios, nas arquibancadas ou nas bilheterias. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em toda a parte, era comum vermos torcedores usando os mastros de suas bandeiras como armas. O que foi feito? Como na piada do marido traído que queima o sofá que acolheu a mulher e o amante, baniram-se os mastros das bandeiras e montaram-se operações militares de isolamento das torcidas.

De fato, os estádios ficaram menos violentos. Mas isso nem de longe traduziu-se em paz e tranqüilidade para quem quer só ver o jogo. Apenas transferimos a arena. Onde acontecem brigas e mortes, hoje? Nos acessos de estádio, em algum ponto de ônibus da periferia, nas imediações do metrô. O torcedor é um cão raivoso preparado para atacar. Quando está no estádio, é acuado pelas grades e cassetetes dos policiais. Mas longe dele e sem coleira ataca sem piedade.

É a intolerância o combustível da violência no futebol. Não admitimos a diferença, não respeitamos a opinião contrária. E o que temos feito para acabar ou pelo menos reduzir essa intolerância? Nada. Pelo contrário. Ao estimular o confinamento de torcidas, estamos treinando as bestas. Estamos criando pitbulls e dobermans do futebol, com dentes cada vez mais pontiagudos e com mais ferocidade. Só se aprende a respeitar o diferente quando se convive com ele, quando vemos que há algo de humano no sujeito que veste a cor adversária.

Utopia? Talvez, mas confesso que já vi a utopia de perto na minha frente. Quando criança, em Porto Alegre, fui a incontáveis partidas entre Grêmio e Inter. E lembro-me de caminhar lado a lado com torcedores rivais. É claro que havia deboche dos vencedores sobre os vencidos. Era chato perder o jogo, mas as provocações eram muito criativas. Nem todos encaravam a situação com o mesmo bom humor, mas ninguém batia em ninguém. Todos sabiam que era proibido agredir, não porque essa regra estivesse prevista no Código Penal, mas porque ela estava inscrita na mente das pessoas. Era uma regra social, e isso vale mais que a lei. Por que o mesmo sujeito que não joga papel no chão do metrô emporcalha as ruas do centro? Ora, porque o ambiente pode determinar comportamentos.

Na Copa da França, em 1998, presenciei ingleses e argentinos lado a lado. E esses, sim, têm bons motivos para se odiarem. Já se pegaram até em uma guerra de verdade, a das Malvinas. Pois na Copa as duas seleções se enfrentaram nas oitavas-de-final e as confusões foram mínimas. Detalhe: em mundiais, os ingressos são vendidos sem grandes divisões de torcidas e no estádio inteiro havia inglês sentado ao lado de argentino. Por que eles não se matavam? Na minha opinião, porque ao ver o “inimigo” ao lado comendo pipoca com o filho pequeno fica difícil odiar. Não faz sentido cantar um grito de guerra quando a vítima está tão próxima. Poderia ser diferente se ingleses ficassem de um lado e argentinos no outro. Quem sabe, depois de 90 minutos de incitações coletivas e mútuas, as duas torcidas não se encontrassem na saída e se pegassem?

Pego o exemplo da Copa e trago para o Brasil. Uma arquibancada que alternasse palmeirenses e corintianos ensinaria algo. Se aceitamos o rival lado a lado no estádio, por que bater nele na estação de metrô? Haveria discussão? Claro, é da alma do futebol provocar, tripudiar e debochar. Mas, com treino (até humanidade precisa ser praticada), quem sabe não aprenderíamos a conviver com a diferença e até rir? E talvez, em lugar de uma bordoada, daríamos uma sonora gargalhada.

“Ao confinar as torcidas, estamos treinando as feras”