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Quero ver na olimpíada

Por sete anos, o Brasil foi obcecado pela Copa e seus preparativos. Só que, nesse meio tempo, esqueceu as Olimpíadas de 2016. Está tudo muito mais atrasado e não há plano B

Alexandre de Santi. Com reportagem de Priscila Daniel

Em fevereiro, Curitiba viveu o drama de ser ameaçada de exclusão da Copa. As obras da Arena da Baixada estavam muito atrasadas e jornalistas chegaram a cravar: a Fifa vai tirar a capital do Paraná do roteiro mundial. Não foi a primeira cidade ameaçada. Porto Alegre e Cuiabá, por exemplo, sentiram a faca no pescoço diversas vezes. Mas, sempre que surgia o boato de corte de uma das 12 sedes, analistas corriam para argumentar que não seria nenhuma tragédia. Imaginava-se que a Fifa simplesmente optaria por cortar Curitiba, Porto Alegre ou Cuiabá do mapa e transferir seus jogos para outras praças. Redistribuir as partidas traria alguma dor de cabeça. O prefeito e alguns cidadãos da cidade ficariam chateados, a Fifa teria que imprimir novos ingressos, e torcedores, cancelar reservas em hotéis. A imagem do País ficaria arranhada, mas o Brasil tem novos estádios de sobra para receber jogos. Não seria motivo de vergonha nacional. A Copa de 2010, na África do Sul, por exemplo, foi jogada em nove cidades.

Autoridades entraram em campo e garantiram os milhões que faltavam para Curitiba, e Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, anunciou apressadamente, pelo Twitter (@jeromevalcke), que a Arena da Baixada estava mantida na Copa. O fato é que cada tijolo mal colocado nos estádios era comentado em todos os táxis do Brasil. Mas havia um problema nessa obsessão: enquanto discutíamos se haveria Copa, nos esquecemos de monitorar com a mesma paixão a preparação das Olimpíadas de 2016, no Rio. E não dá para levar as competições para São Paulo ou qualquer outra capital. Em caso de falência do planejamento carioca, os Jogos serão transferidos para outro país.

Daí o mico é grande demais. No dia 9 de maio, o jornal inglês Metro noticiou que o Comitê Olímpico Internacional (COI) já conversou com a prefeitura de Londres para devolver as Olimpíadas para lá – a capital britânica recebeu a tocha olímpica em 2012. E as autoridades londrinas teriam dado sinal verde para o plano B no caso de fracasso fluminense. Uma coisa é ter uma sede riscada da Copa. Isso acontece. A Rússia já decidiu cortar quatro estádios e duas cidades da Copa de 2018. Até o Catar, o país mais rico do mundo em renda per capita, disposto a despejar US$ 200 bilhões na Copa de 2022, avalia a redução de arenas para cortar custos. Não seria uma grande vergonha se o Brasil também optasse pela moderação no Mundial.

Mas perder uma Olimpíada seria um fato inédito na história dos Jogos. O COI retrucou dizendo que não havia “um pingo de verdade” na notícia sobre o plano B londrino. Faz sentido: o comitê não confirmaria a história. Isso causaria enorme constrangimento para o governo brasileiro. E, enquanto o COI não decide, de fato, mudar a sede dos Jogos, o discurso precisa ser conciliador, de confiança nas autoridades brasileiras. O comitê não esconde, no entanto, a insatisfação com a preparação do Rio, que, a dois anos dos Jogos, tem apenas 10% das obras concluídas. Na mesma etapa, o índice era de 60% em Londres e 40% em Atenas. A desconfiança é tanta que, em abril, o COI anunciou que Gilbert Felli, um dirigente do comitê, seria uma espécie de “interventor” do Rio, escalado para viajar regularmente ao Brasil para vistoriar as obras. Demorou.

Os cariocas sabem desde 2 de outubro de 2009 que precisam levantar os locais de competição. Ainda assim, a situação está crítica: é a preparação mais atrasada em 20 anos. Algumas obras, como a do Maracanã, valem tanto para 2014 quanto para 2016, mas há uma série de projetos exclusivos para os Jogos que foram deixados de lado. O atraso carioca é um problema que ocorreu lá atrás. Precisamente entre 2009 e 2012, quando as obras mal saíram do papel. O Tribunal de Contas da União (TCU), em auditoria divulgada em setembro de 2013, constatou que apenas 5%, ou R$ 92 milhões do R$ 1,6 bilhão previsto, haviam sido gastos nos preparativos das Olimpíadas. Ou seja, nos primeiros três anos (2010, 2011 e 2012), as obras simplesmente não andaram. O que bate com o cálculo do COI: o atraso na preparação seria de dois anos. Parte da culpa é da própria Copa. A burocracia para liberação de verbas no Brasil é incrível. Até quando há dinheiro e vontade política, os governantes encontram problemas para colocar as obras na rua. Os orçamentos da Copa e da Olimpíada são diferentes, é claro, mas os governantes que lideram os preparativos são os mesmos. Entre dar um empurrãozinho para liberar dinheiro para a Copa ou a Olimpíada (um telefonema, uma assinatura, uma cutucada), o evento que acontecia antes virou prioridade. Natural. A coisa começou a andar em 2011, quando o Congresso aprovou o Regime Diferenciado de Contratações Públicas, uma lei que, na prática, não passa de uma série de exceções para a liberação de verbas, criada justamente para acelerar obras da Copa e das Olimpíadas. Agilizou, mas abriu espaço para corrupção e abusos.
Não dá para culpar apenas a concorrência com a Copa, como lembra Gil Castello Branco, secretário-geral da ONG Contas Abertas: “Pode haver milhões de problemas. Problema na licitação, no projeto…”. É o que aconteceu no Rio: milhões de problemas. Já houve embargo judicial de obras, greve de funcionários e troca de comando nos órgãos criados para azeitar a preparação, como a Autoridade Pública Olímpica e a Empresa Olímpica Municipal. Mas vale lembrar que, quando os políticos estão interessados na obra, dão um jeitinho. Não surpreende, por exemplo, que as obras mais atrasadas sejam as do Parque Olímpico de Deodoro, o segundo maior do projeto carioca. Será que o mau planejamento (as duas últimas licitações foram lançadas somente em abril, incríveis 55 meses após a eleição do Rio) não está ligado aos esportes que vão disputar medalhas lá? Que político está interessado em agilizar instalações de competições pouco populares como esgrima, rúgbi e pentatlo? Com tanta papelada para assinar, os políticos priorizaram. Mas deixaram o País exposto ao maior mico da sua história.

Ilustração: Jonatan Sarmento