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Supercentenários podem ter segredo imunológico anti-câncer

Estudo descobriu que células imunológicas raras podem explicar a longevidade de pessoas com mais de 110 anos.

Por Amanda Nascimento 23 ago 2026, 16h00
Supercentenários podem ter segredo imunológico anti-câncer Priorizar nos meus resultados Google

Qual a diferença entre os que passam dos 110 anos e a maioria das pessoas?  

Um artigo publicado na revista Cell Reports sugere que os chamados supercentenários têm, em abundância, um tipo de célula rara do sistema imunológico. As chamadas células CD4 citotóxicas possivelmente ajudam indivíduos a alcançar idades avançadas porque podem ser aliadas valiosas no combate ao câncer.  

Essa hipótese, no entanto, ainda não foi comprovada, como admitem os autores do estudo. O principal problema é que esse tipo raro de célula é pouco estudado e não se sabe exatamente qual é sua função.

No estudo, os cientistas de universidades japonesas recrutaram oito pessoas com idades entre 70 e 99 anos, dez pessoas entre 100 e 109 anos e outras dez com 110 anos ou mais. Os resultados mostraram que os indivíduos mais jovens apresentaram uma porcentagem normal dessas células, com 4% do total de células T CD4. Já entre os centenários essa taxa aumentou para 10%; nos supercentenários, saltou para aproximadamente 18%.

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Em geral, é difícil estudar supercentenários, já que poucas pessoas vivem tanto tempo. Hoje há apenas 37 mil pessoas com 100 anos ou mais no Brasil. Este grupo seleto de pessoas afunila ainda mais quando levamos em conta os supercentenários, que passam dos 110.

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Globalmente, a expectativa de vida ao nascer gira em torno de aproximadamente 73 anos. Esse número, porém, tende a variar conforme a região, influenciado por fatores como acesso a saneamento básico, nível de renda, desenvolvimento do país e até estilo de vida. No Brasil, por exemplo, a média é um pouco maior: são 76,4 anos, de acordo com o IBGE. 

Ainda assim, há uma longa distância entre a média mundial e os centenários. Além de ultrapassarem os cem anos de idade, estes indivíduos frequentemente vivem com qualidade – muitas vezes sem desenvolver doenças cardíacas, demência, câncer ou outras condições associadas à velhice. 

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Células especializadas

Todos temos células do tipo linfócito T CD4. Esses glóbulos brancos do sangue coordenam o sistema de defesa do corpo e fazem parte do nosso sistema imunológico adaptativo. Sua função é de sentinela: elas rondam o organismo em busca de células infectadas, danificadas ou cancerosas. Quando encontram uma ameaça, sinalizam para outras células imunológicas o problema. Daí, outros tipos de célula, como os linfócitos T CD8, neutralizam o alvo.

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Mas há um subgrupo mais raro das células CD4, chamado de CD4 citotóxicas. Apesar de não serem tão estudadas, há evidências crescentes de que elas podem matar diretamente células cancerosas, incluindo células de câncer de pulmão e de melanoma. Neste caso, elas não são apenas sentinelas, mas também assassinas.

Foi em 2019 que um estudo descobriu que, à medida que as pessoas avançam para a faixa dos 90 anos, essas células parecem se tornar cada vez mais numerosas. No novo estudo, pesquisadores tinham o objetivo de quantificar como essas células se modificam à medida que envelhecemos.

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Como as células foram encontradas circulando no sangue, a equipe não conseguiu determinar em quais tecidos elas estavam nem o que faziam. Em busca de pistas, porém, eles examinaram os receptores das células e compararam com as de um banco de dados de CD4. Cerca de 30 sequências do estudo corresponderam às de pessoas com câncer no banco de dados. Ou seja: isso indica que elas poderiam ser especializadas em matar células cancerígenas, apesar dessa ação não ter sido identificada.

Outros especialistas pedem cautela na análise dos resultados. “A ideia de que essas células protegem os centenários contra o câncer é biologicamente plausível e empolgante, mas permanece especulativa até que seus antígenos sejam identificados e a destruição direta de tumores seja demonstrada”, afirma Alejandro López-Soto, bioquímico na Universidade de Oviedo, na Espanha, à Nature

A amostra da pesquisa também pode ser pequena demais. Mas pesquisadores defendem que é preciso levar em conta as complexidades do caso: no Japão (onde foi feita a pesquisa), existem apenas cerca de 150 supercentenários. Ou seja, na prática, dez pessoas seriam um número expressivo.

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