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Três cenários possíveis com a variante Ômicron

Os cientistas estão correndo para determinar quão perigosa ela é e o que representa para o futuro da pandemia. Ainda não há respostas definitivas. Mas as principais possibilidades cabem em três cenários hipotéticos. Veja quais são.

Por Bruno Garattoni Atualizado em 16 dez 2021, 18h52 - Publicado em 16 dez 2021, 18h51

Era só uma letra do alfabeto grego (ômicron significa um “o” pequeno; em oposição a ômega, que é um “o” grande) e o nome de um game meio obscuro: Omikron, de 1999, estrelado pelo cantor David Bowie (“acorde, povo de Omikron! Juntos podemos vencer”). Agora, é a coisa mais importante do mundo. É essa variante do coronavírus, que apareceu primeiro na África do Sul, mas já foi detectada em diversos outros países, que vai definir o nosso futuro. Ela tem 52 mutações, sendo 32 na proteína spike – os “espetos” que o vírus usa para se conectar às células (e que também são o alvo das vacinas e dos anticorpos). É muita coisa: quase quatro vezes mais mutações do que a variante Delta e suas nove alterações na spike.

Por isso, existe o receio de que a Ômicron seja mais transmissível, mais capaz de reinfectar quem já teve Covid e/ou consiga driblar parcialmente a proteção conferida pelas vacinas. Cientistas, indústria farmacêutica e autoridades de saúde estão correndo para tentar determinar quão perigosa a nova variante realmente é, e entender o que ela representa para o futuro da pandemia. Ninguém tem as respostas por enquanto. Mas, em linhas gerais, as principais possibilidades cabem em três cenários hipotéticos. Vamos a eles.

O cenário número 1 é o melhor de todos. Nele, a variante Ômicron não consegue se impor sobre as outras que já circulam. Ela chega a muitos países, mas não se torna dominante. Nessa hipótese, mesmo tendo um grau considerável de “escape imunológico” (capacidade de driblar os anticorpos induzidos pelas vacinas ou pela infecção por variantes mais antigas do Sars-CoV-2), ela não se espalha tanto quanto a Delta, que continua sendo a mais comum. Algo do tipo já aconteceu antes. A variante Beta, descoberta em dezembro de 2020 também na África do Sul, tem bem mais escape imunológico do que a Delta – que naquela época era só mais uma variante e não levantava maiores preocupações.

Mas deu no que deu: ao longo de 2021, a Delta conquistou o mundo e ocupou praticamente todo o espaço das demais variantes, Beta inclusive. É que o escape imunológico não é tudo para o vírus; a transmissibilidade também conta. A Delta não é tão competente em driblar as vacinas e o sistema imunológico (ainda bem), mas é extremamente contagiosa. Isso acontece porque ela se reproduz muito: a carga viral (quantidade de unidades do vírus) da pessoa infectada é até 1.200 vezes maior (1) do que com o Sars-CoV-2 “original”, de Wuhan. 

A responsável por isso é a mutação G671S (troca do aminoácido glicina por serina na posição 671 do código genético da proteína nsp12). Essa é a grande arma da variante Delta – e não está presente na Ômicron. Boa notícia. A má notícia é que, na prática, a Ômicron tem mostrado potencial de se espalhar muito rápido.

Foi o que aconteceu na África do Sul, onde ela surgiu. Em setembro e outubro, a Delta era dominante por lá, representando 72% e 79% dos casos, respectivamente (2). Mas aí, em novembro, a Ômicron chegou atropelando – e já passou a responder por 74% . A Delta ficou lá atrás, com 21%. Conclusão: o cenário 1, em que a Ômicron não se torna dominante, parece pouco provável.

Vamos olhar o cenário 2: o pior de todos. Nele, a Ômicron se propaga bastante por todos os países e acaba prevalecendo sobre as demais variantes. E, assim como a variante Beta, ela demonstra um grau elevado de escape imunológico. Isso pode acontecer: a Ômicron possui a mutação K417N (troca do aminoácido lisina por asparagina na posição 417 da proteína spike), que também existe na Beta.

Essa alteração – junto com outra, a E484K – é a responsável pelo escape da Beta. Sua presença na Ômicron é bem preocupante. Mas não dá para deduzir, só por isso, que a nova variante será tão resistente a anticorpos quanto a Beta. Na prática, também vai depender da interação dessa mutação com as demais – inclusive porque a Ômicron não tem a alteração E484K, mas sim uma ligeiramente diferente, a E484A.

Agora vejamos o cenário 3, intermediário. A Ômicron não se mostra mais agressiva ou letal que as antecessoras – e as vacinas continuam evitando Covid severa. É o que sugerem os relatos iniciais: segundo Angelique Coetzee, presidente da Associação Médica da África do Sul e uma das primeiras pessoas a tratar infectados pela Ômicron, os sintomas causados pela nova variante são leves, se limitando a cansaço e dores no corpo.

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O depoimento não pode ser levado ao pé da letra: é baseado num número pequeno de pacientes, com faixa etária abaixo dos 40 anos (que estatisticamente apresenta menos casos graves de Covid, seja qual for a variante). Para saber qual é o real poder de fogo da Ômicron, será preciso acompanhar um número grande de casos e também fazer testes in vitro, colocando o vírus em contato com anticorpos no laboratório.

Os primeiros testes desse tipo, realizados na Suécia pelo Instituto Karolinska (3), indicaram que a Ômicron é um pouco mais resistente do que a Delta, mas não dá um chapéu no sistema imunológico, como a Beta: os anticorpos induzidos pela vacinação continuam conseguindo neutralizar a nova variante.

E o sistema imunológico também tem outras armas. Uma delas são as células T, que identificam e matam células infectadas. Os anticorpos dependem do encaixe preciso a determinados pontos da spike. Já as células T (que, assim como os anticorpos, são treinadas pela vacina), mapeiam quase toda a extensão dessa proteína – e, por isso, são muito mais difíceis de driblar (4). São elas que protegem contra Covid severa quando os níveis de anticorpos já caíram (o que ocorre naturalmente alguns meses após a vacinação).

Isso também parece valer com a Ômicron. Dados divulgados pela Pfizer indicam que 80% dos pontos da spike reconhecidos pelas células T não foram alterados pelas mutações – e, por isso, elas continuam sendo capazes de agir contra o vírus. As células T não evitam a infecção, mas ajudam a freá-la antes que se torne grave. Em suma: no cenário 3, a nova variante infecta muita gente; mas faz relativamente poucas vítimas fatais.

Isso sem levar em conta a dose de reforço das vacinas, que já começou a ser aplicada no Brasil – e eleva em 25 vezes os níveis médios de anticorpos. A Pfizer afirma que, embora duas doses do seu imunizante “ainda possam proteger contra doença severa causada pela Ômicron”, a terceira oferece uma defesa “mais robusta”, equivalente à que a vacina proporcionava contra o Sars-CoV-2 original (5).

A Ômicron representa uma nova etapa na luta contra o vírus – mas, seja qual for o cenário, não retrocede a pandemia para a estaca zero. A guerra não recomeça; ela continua. E, agora, temos bem mais armas do que em 2020.

***

Fontes

(1) Viral infection and transmission in a large well-traced outbreak caused by the Delta SARS-CoV-2 variant. L Baisheng e outros, 2021. (2) Sars-CoV-2 Sequencing Update – 1 December 2021. Network for Genomic Surveillance in South Africa. (3) Preliminary report. Quantification of the neutralization resistance of the Omicron Variant of Concern. B Murrell e outros, 2021. (4) Impact of SARS-CoV-2 variants on the total CD4+ and CD8+ T cell reactivity in infected or vaccinated individuals. A Tarke e outros, 2021. (5) Pfizer and BioNTech Provide Update on Omicron Variant (8/12/2021).

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