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Vacina para Covid-19 é aprovada na Rússia, mas cientistas seguem céticos

Pesquisadores do país não divulgaram dados sobre segurança e eficácia do imunizante – e parecem ter pulado etapas importantes dos testes.

Por Carolina Fioratti - Atualizado em 12 ago 2020, 12h39 - Publicado em 11 ago 2020, 19h16

Nesta terça-feira (11), o presidente russo Vladimir Putin afirmou que o país se tornou o primeiro a aprovar uma vacina contra o novo coronavírus. Seria a boa notícia que todo mundo está esperando – não fosse o fato de que a tal vacina russa não está dentro das especificações adequadas. Para a comunidade científica, o anúncio soa como uma autopromoção por parte das autoridades locais, que esperam chegar em primeiro lugar na corrida pela vacina

Até a última semana de julho, a maior parte da população sequer sabia que uma vacina estava sendo produzida no país. A notícia surgiu de repente, confirmando que o Instituto Gamaleya, de Moscou, já estava próximo da terceira fase de ensaios clínicos e que, na semana seguinte, teria seu imunizante aprovado mesmo que em fase de testes.

Por outro lado, dados oficiais da Organização Mundial da Saúde, que acompanham todas as vacinas em produção, indicam que a chamada Sputnik V – Sputnik como referência ao satélite pioneiro lançado em 1957, quando ninguém esperava, e V de vacina –, ainda está na fase 1 de testes clínicos. Isso porque não há pesquisas publicadas em revistas científicas apontando métodos utilizados ou o número de voluntários, o que coloca em jogo a transparência do estudo. 

Mas o que significam essas “fases” em ensaios clínicos? Protótipos de vacinas começam a ser consideradas para humanos quando tem bons resultados em testes pré-clínicos (em animais). Atualmente, 28 vacinas se encontram nesse ponto. A fase 1 avalia a segurança da vacina em grupos de dezenas de pessoas, enquanto a fase 2 verifica se o imunizante induz a resposta imunológica no organismo, e é testada em centenas de voluntários. Já a fase 3, última da lista, verifica se a vacina protege de fato contra o vírus, sendo aplicada em milhares de profissionais de saúde que trabalham na linha de frente do combate a doença. Esses médicos e enfermeiros devem ser acompanhados pelos meses seguintes para verificar a eficácia do composto. 

O processo requer cautela, pois envolve a saúde e segurança da população. Apesar disso, a vacina russa parece ter sido testada por menos de dois meses em humanos. Cientistas envolvidos no estudo disseram, inclusive, que aplicaram o composto em seus próprios corpos, e Vladimir Putin comentou em uma emissora de TV estatal que uma de suas filhas  recebeu a vacina. O presidente afirmou que “o imunizante funciona com bastante eficácia, induz uma imunidade estável e passou por todos os testes necessários”. E essas são as informações disponíveis – muito pouco para acreditar que a versão russa de vacina é segura e pode ser usada. 

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A vacina russa tem uma tecnologia semelhante à produzida pela Universidade de Oxford, que está em testes no Brasil, Reino Unido e África do Sul. Ela usa dois tipos de adenovírus causadores de resfriados leves, que são geneticamente modificados com RNA do novo coronavírus para fazer com que o corpo crie uma resposta imune. 

Estados Unidos, Canadá e Reino Unido chegaram a acusar o governo russo de utilizar hackers para roubar informações sobre as vacinas produzidas em outros países, mas a Rússia nega. De acordo com autoridades do país, a vacina é baseada em um projeto antigo, desenvolvido por pesquisadores anos atrás, quando buscavam uma solução para o ebola.

Kirill Dmitriev, CEO do fundo de investimento que financiou a pesquisa, disse que mais de um bilhão de doses já foram encomendadas por 20 países estrangeiros, incluindo o Brasil. De acordo com o G1, um convênio para produzir a vacina por aqui deverá ser assinado pelo governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), e pelo embaixador da Rússia, Sergey Akopov, na tarde de quarta-feira (12).

Mesmo que a parceria seja firmada, a vacina ainda não estará disponível para aplicação em massa em 2020. Por aqui, ela deve ser distribuída no segundo semestre de 2021, mas precisa ainda passar por liberação da Anvisa. Na Rússia, a campanha de vacinação deve começar em outubro, imunizando primeiramente profissionais da saúde e professores. Por enquanto, a vacina segue em sua terceira fase de testes. Brasil, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Índia e Filipinas podem ser os próximos países voluntários da lista para receber a vacina. 

De toda forma, autoridades da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmaram que não recomendarão o uso da vacina russa, como destaca a Folha de S. Paulo. Jarbas Barbosa da Silva Jr., diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opan), disse em coletiva que “uma vacina só pode ser aplicada em qualquer lugar do mundo depois que realizar os ensaios clínicos das fases 1, 2 e 3 e comprovar sua segurança e eficácia”.

Por enquanto, outras seis vacinas candidatas ao combate da Covid-19 já estão no último estágio de ensaios clínicos, e três delas estão sendo testadas no Brasil: a CoronaVac, da China, a vacina de Oxford, do Reino Unido, e um imunizante fruto de uma parceria entre a BioNTech, da Alemanha, e a Pfizer, dos EUA. Além dessas, têm-se a vacina da farmacêutica americana Moderna e outras duas sendo produzidas pela farmacêutica chinesa Sinopharm.

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