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Vale-tudo contra a malária

Diante de uma doença que ameaça 1/3 da população mundial, pesquisadores percorrem todos os caminhos em busca do remédio definitivo - a vacina. É um esforço à altura do desafio

Gisela Heymann

Há cerca de dez anos, centros de pesquisa, laboratórios e exames de cientistas em vários países decidiram voltar novamente suas atenções para uma doença que se acreditava vencida desde os anos 50: a malária. Também chamada maleita ou paludismo, ela é transmitida por um mosquito que transporta os parasitas causadores do mal de uma pessoa a outra, infectando-a e provocando, entre outros sintomas, acessos de febre que se repetem a cada dois ou três dias. Conhecida desde os tempos mais remotos — o médico grego Hipócrates, 500 anos antes da era cristã, já descrevera os diversos tipos da febre palustre — a malária fez incontáveis milhões de vítimas até a primeira metade deste século, quando rigorosas medidas sanitárias começaram a reduzir o ritmo de propagação da doença.Os motivos para a nova corrida às pesquisas são inequívocos e assustadores. De um lado, um dos quatro parasitas causadores da moléstia, o Plasmodium falciparum, justamente o que acarreta a forma mais grave, que pode levar à morte, desenvolveu insuspeitada resistência à nivaquina, substância que até então apresentava ótimos resultados no combate à doença. (Os outros três parasitas, Plasmodium vivax, malariae e ovale, este último mais raro, são responsáveis por versões benignas, também menos preocupantes em relação ao número de casos constatados). 

De outro lado, o próprio vetor da malária, o mosquito anófele, abundante em regiões tropicais, a bordo do qual viajam os parasitas, tornou-se resistente ao inseticida DDT.Junte-se a isso o quadro desolador em matéria de saneamento na grande maioria dos países onde a malária costuma atacar e ainda o desflorestamento caótico, como é tipicamente o caso associado à instalação de garimpeiros no Estado de Roraima, no extremo Norte do país. O resultado dessa coleção de desastres aparece com todos os números nos relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade estima que um terço da população do planeta, algo como 1,67 bilhão de pessoas, está exposto à doença e que o número de pessoas já contaminadas é da ordem de 100 milhões. Os países mais atingidos pelo novo surto são os centro-africanos, mais Sri-Lanka. Afeganistão, Vietnã e Camboja, na Ásia; Irã, Iêmen e Iraque, no Oriente Médio; Colômbia, Venezuela, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e ainda o Brasil, na América do Sul.A Amazônia , sozinha, é responsável pela metade do milhão de casos registrados em 1987 no continente. Em 1974, o número total nas Américas mal alcançava 270 000. Indícios de que a doença continua a se propagar com renovada rapidez na região amazônica surgem a cada levantamento. Estima-se que em 1989 nada menos de 6 000 brasileiros morreram de malária. 

“A malária representa uma das doenças infecciosas mais importantes do mundo”, atesta o professor Luís Hildebrando Pereira da Silva, chefe da Universidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur de Paris — e não há razão para supor que ele exagera.Um dos maiores especialistas no assunto, ao lado de dois outros brasileiros, o casal Vitor e Ruth Nussenzweig , da Universidade de Nova York, o paulista Luís Hildebrando, 61 anos, mora na França desde 1962, quando se doutorou ali em Biologia Molecular. Tempos mais tarde, instalou-se na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No entanto, o sufoco nas universidades brasileiras durante o regime militar obrigou-o a voltar ao Instituto Pasteur. Tendo dedicado os últimos dez anos de trabalho à descoberta de uma vacina contra o paludismo, em cooperação com pesquisadores de outros organismos internacionais, entre eles a Universidade de São Paulo, Hildebrando prevê que “até o final do século teremos uma vacina eficaz contra a doença”.

Esse prazo pode ser ainda maior. Para a pesquisadora francesa Dominique Mazier, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM), e do Departamento de Parasitologia do Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris, “se é impensável esperar uma vacina para já, um resultado dentro de dez anos é apenas provável”, avalia. “Hoje só temos vacinas contra vírus (como o da poliomielite), organismos muito menores e mais simples. Já o causador da malária é um parasita, ser infinitamente mais complexo. Se compararmos o vírus a um punho fechado, o parasita teria o tamanho de uma sala. Pode-se imaginar o que essa diferença implica.”Típica de zonas tropicais, a malária migrou até a Europa, particularmente à Itália, onde durante a Segunda Guerra Mundial infligiu baixas em número alarmante. Pouco depois, foi ordenada a drenagem de todos os pântanos — o ambiente preferido pelo anófele para se reproduzir — que circundavam a cidade de Roma. Seguiram-se rigorosas medidas de saneamento para eliminar o mosquito de uma vez por todas do continente europeu. Há pouco tempo, porém, mais de trinta casos da chamada “malária de aeroporto” foram registrados na França e na Suíça. 

Como o nome indica, trata-se da contaminação provocada pelos mosquitos que alcançam a Europa a bordo dos aviões provenientes de países, sobretudo da África, onde a doença já ultrapassou qualquer limite aceitável.Quando a fêmea do mosquito anófele se alimenta do sangue de uma pessoa contaminada, está incluindo em sua refeição alguns gametócitos, formas sexuadas precursoras dos gamelas (o equivalente, nos parasitas, aos precursores dos espermatozóides e dos óvulos na espécie humana). Os gametócitos amadurecem no estômago do mosquito onde ocorrerá a fecundação, ou seja, a união dos gametócitos fêmeas aos machos, que dará origem a um ovo, o zigoto. Os zigotos instalam-se na parede exterior do estômago do anófele até o crescimento de inúmeras células chamadas esporozoítos.

Plenos de energia, estes penetram na glândula salivar do mosquito, que será ativada a cada nova refeição, pois contém uma substância anticoagulante que ajuda a sugar o sangue humano. Injetados no corpo de uma pessoa sã através da picada do anófele, os esporozoítos navegam pela circulação sangüínea até encontrar o fígado, após uns trinta minutos de viagem. Nas células hepáticas, completarão um ciclo de amadurecimento de cerca de duas semanas, durante as quais vão se multiplicar e liberar milhões de merozoítos, que atacam especificamente os glóbulos vermelhos (daí a anemia causada pela malária).

Só quando os merozoítos invadem os glóbulos vermelhos e continuam a se multiplicar até a sua literal explosão é que começam os ataques de febre, as vertigens e os calafrios, típicos do mal. Enquanto alguns parasitas se concentram em invadir e destruir, outros merozoítos irão formar gametócitos, ainda no interior dos glóbulos vermelhos, que servirão de alimento para um novo mosquito, que os transportará ao organismo de outra pessoa.No corpo de um indivíduo não protegido, o número de parasitas desse exército de ocupação desanda a se multiplicar. Em regiões mais expostas à doença, porém, pessoas já atingidas, sem que tenham desenvolvido a malária, acabam por criar uma defesa natural contra os parasitas, pois o sistema imunológico guarda a “memória” da infecção. Segundo o professor Luís Hildebrando, não se sabe o motivo exato pelo qual o Plasmodium falciparum passou a resistir aos medicamentos clássicos. 

“Tudo que se pode dizer é que uma mutação genética ocorreu nesses organismos”, aponta. O fato é que a única solução para o problema é a descoberta de uma vacina.Para tanto, a equipe de catorze pesquisadores da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur se concentra na busca de um antígeno — substância capaz de induzir uma reação imunológica do organismo — que possa ser reproduzido sinteticamente e, sobretudo, que assegure um contra-ataque perfeito. Para escolher entre os vários candidatos possíveis a antígeno, foi necessário, antes de tudo, determinar em qual fase de seu desenvolvimento o parasita deve ser atacado, além de identificar os seus constituintes dos quais tais candidatos faziam parte. “Só essa fase exigiu anos de estudo”, informa o professor. Primeiro, foi necessário fazer a clonagem do gene, ou seja, recriar fragmentos de seqüências de DNA, a molécula da herança dos seres vivos, a partir de uma seqüência original, para encontrar a informação desejada, capaz de induzir o anticorpo imunizante.”O trabalho poderia estar concluído em questão de meses, não houvesse sempre um contratempo”, conta Luís Hildebrando, que divide seu tempo entre a coordenação da equipe de parasitologistas em Paris e as viagens. 

No Senegal, o grupo acompanha a evolução da malária que atingiu todos os 300 habitantes de um lugarejo chamado Dielmon. De todo modo, seis antígenos relacionados à proteção contra a infecção já puderam ser identificados. Estágio mais avançado alcançou o professor Manoel Patarroyo, do Hospital San Juan de Diós, em Bogotá, Colômbia. Ele já testou em cerca de 30 000 pessoas uma vacina à base de peptídeos (conjunto de aminoácidos) sintéticos, que se mostrou eficaz “em 80% dos casos” em induzir uma proteção contra o Plasmodium falciparum. A vacina poderá ser testada também no Brasil a partir de 1991 em 500 adultos da região amazônica.”A experiência colombiana é muito interessante, mas ainda restam dúvidas de extrema importância, como qual a duração da proteção e que acontece com o parasita depois de agredido”, pondera Dominique Mazier, do INSERM francês. Outra dúvida resulta do seguinte: embora não apresentem sintomas da doença — os acessos palustres —, os indivíduos vacinados conservam parasitas em seu sangue.

Em comum, as pesquisas do Instituto Pasteur e do Hospital San Juan de Diós têm a convicção de que o melhor momento para atacar o agente infeccioso é durante a proliferação do parasita no interior do glóbulo vermelho, ou seja, na fase eritrocitária. Nessa fase, o Plasmodium envia à membrana do glóbulo sangüíneo proteínas encarregadas de captar substâncias nutritivas fundamentais ao seu desenvolvimento. Com isso, modifica a estrutura do glóbulo, tornando-o facilmente identificável pelo exército que cuida da proteção do organismo. Já o grupo liderado pela professora Mazier decidiu estudar a fase anterior, em que o Plasmodium se desenvolve no fígado da pessoa contaminada. “A vantagem é que esse é um estágio intermediário e já se comprovou que as relações entre os diferentes estágios do parasita são de fundamental importância”, afirma ela. Isto é se a vacina liquidasse com o Plasmodium no interior do fígado, apenas alguns merozoítos se atreveriam a atacar as células sangüíneas, numa ofensiva controlável pelo organismo. 

Um auxílio extra também seria possível, numa espécie de vacina-coquetel. Haveria, pois, duas oportunidades de eliminar o renitente inimigo.Extremamente complexos, os parasitas da malária são, porém, capazes de se dissimular e de se adaptar à contra-ofensiva do sistema imunológico — o que representa um complicador adicional aos cientistas. “Eu chegaria a afirmar que eles são inteligentes”, brinca a doutora Dominique. Talvez por isso, o imunologista escocês Richard Carter, da Universidade de Edimburgo, tenha escolhido estudar outro tipo de vacina, chamada altruísta. Isso porque ela não imuniza o indivíduo vacinado e sim o mosquito. Original, mas ainda longe de ser viabilizada, a substância acabaria com a malária extinguindo os gamelas que se servem do anófele como meio de transporte.

No Middlesex Hospital, em Londres, um grupo de cinco pesquisadores preferiu seguir um caminho diferente. “Já que a vacina capaz de eliminar o Plasmodium é tão difícil, estamos tentando desenvolver uma vacina que apenas elimine os sintomas da doença, ou seja, a pessoa contaminada viveria com o parasita mas não se sentiria doente, porque visamos apenas as toxinas agressoras do organismo”, explica a imunologista Janice Tavane.Já os brasileiros Vitor e Ruth Nussenzweig, que estudam a malária há pelo menos vinte anos, desenvolveram um antígeno que, misturado a uma substância gordurosa, retarda a absorção da vacina pelo organismo, para que este possa produzir anticorpos em maior quantidade. A fórmula começa a ser testada pelo Instituto de Pesquisas do Exército dos Estados Unidos.

Outra pesquisadora francesa, Catherine Breton, também do Instituto Pasteur, observou um exemplo da versatilidade do Plasmodium. Ao estudar o primeiro dos seis antígenos do parasita candidatos a matéria-prima da vacina, ela constatou com espanto que estava lidando com uma proteína muito especial, situada na extremidade dos merozoítos — uma enzima cujo papel consiste em destruir as cadeias de glicoproteínas que revestem o glóbulo vermelho e o protegem de organismos estranhos. De fato, o parasita só consegue aderir ao glóbulo para então invadi-lo, depois de raspar sua “cabeleira” de glicoproteínas. Logo, descobrir como bloquear a ação dessa enzima, ou como impedir que ela seja estimulada, pode significar a chave da questão.A fim de testar a capacidade de cada um daqueles candidatos, foi ainda necessário escolher um animal que desenvolvesse exatamente o mesmo tipo de infecção provocada no homem pelo Plasmodium e que, portanto, pudesse servir de cobaia nos testes das novas vacinas. 

Para tanto, desde 1980 o Laboratório de Imunologia Parasitária do Instituto Pasteur de Caiena, na Guiana Francesa, mantém uma criação de macacos saimiri, conhecidos comumente como macacos-esquilo. Cerca de 800 exemplares são mantidos em cativeiro; outros tantos são criados em liberdade na Ilha da Mãe, em frente a Caiena.Enquanto os pesquisadores se valem do que há de mais moderno em Biologia Molecular na guerra ao mosquito, há quem sensatamente defenda o emprego intensivo dos métodos tradicionais de combate. O uso de um simples mosquiteiro, responsável em parte pelo desaparecimento do paludismo na China, vem sendo recomendado como medida de precaução. Impregnada de um novo inseticida em fase experimental, a clássica malha não só protege as pessoas no seu abrigo como mata os mosquitos que dela se aproximam, a julgar pelo que se verificou em testes na Gâmbia. Trata-se de uma boa notícia — mesmo porque há muito chão pela frente até a vacina. 

Além de determinar quais os antígenos usados na elaboração do produto, “outros problemas retardam sua fabricação”, avisa o professor Luís Hildebrando. “Para começar. não podemos obtê-la da forma usual, como é o caso das vacinas contra vírus e bactérias.”De fato, enquanto vírus e bactérias se reproduzem à razão de milhares a cada 48 horas, o Plasmodium falciparum se multiplica por cinco no mesmo período. “Além disso, para que ocorra a reprodução do Plasmodium, é necessária a presença de glóbulos vermelhos, o que torna inviável a fabricação industrial.” A alternativa seria sintetizar quimicamente os antígenos pelos métodos da Engenharia Genética, enxertando as proteínas antigênicas em bactérias que se reproduziriam em fermentadores industriais; enormes caldeirões repletos de uma substância adequada à sua proliferação. Todas essas dificuldades, mais o fato de não existir ainda nenhuma vacina contra doenças parasitárias — o que torna a tarefa uma espécie de caminhada no escuro, em que cada passo sem tropeços é saudado como uma importante conquista —, fazem da estimativa de uma vacina no prazo de dez anos uma corrida contra o relógio. “Pelo menos”, garante Hildebrando, “temos a certeza de que é possível fabricá-la.”

 

 

 

 

Para saber mais:

À sombra do mosquito

(SUPER número 7, ano 11)

 

 

 

 

Ensinando natação a bactérias

Embora a obtenção da vacina seja o objetivo primordial dos institutos que estudam a malária, outras frentes de batalha foram abertas. Sem dúvida, a mais insólita nasceu no próprio Instituto Pasteur, em Paris. Trata-se de utilizar uma bactéria capaz de atacar as larvas dos mosquitos anófeles. A solução não teria os inconvenientes do uso de inseticidas para o ambiente e poderia contribuir de forma eficaz no combate ao paludismo — não fosse um pequeno problema: as tais bactérias não sabem nadar. Como as larvas do mosquito se desenvolvem na superfície da água, essa propriedade é essencial.O problema, contudo, não desesperou os pesquisadores. Eles recorreram à Engenharia Genética para dotar suas bactérias de certas características próprias das algas azuis, graças às quais são capazes de boiar. Ou seja, trata-se de implantar nas bactérias as seqüências de DNA que contêm os genes responsáveis por essa peculiaridade das algas. A primeira etapa, que consistiu em determinar quais os genes a serem transportados, já foi vencida, reatando a fase certamente mais difícil da sua incorporação ao material hereditário das bactérias.