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Como transformar a previdência num motor para a economia

Antes, havia 6 trabalhadores para cada aposentado. Agora são 3. Dá para ter Previdência assim? Dá. Entenda como.

Por Felippe Hermes - 5 fev 2017, 15h24

A previdência brasileira é um esquema de pirâmide: quem está no mercado de trabalho paga uma parte do seu salário para que o governo remunere quem já se aposentou. A coisa até poderia funcionar bem, não fosse um empecilho: nossa população está envelhecendo. Há quatro décadas, tínhamos seis pessoas trabalhando para cada pessoa aposentada. Hoje, são três para um: 18 milhões que recebem benefício, contra 55 milhões com carteira assinada no País.

Para bancar a diferença entre o que há de contribuições e o que será pago de benefícios até 2060, serão necessários R$ 2,4 trilhões em valores de hoje. A Previdência do funcionalismo público, que conta com um sistema próprio, como veremos mais adiante, ainda necessitará de R$ 2,6 trilhões para fechar a mesma conta (apesar de ter cinco vezes menos pessoas). Claro que as contas não fecham, não importa a mágica que tentem inventar.

Mágicas, aliás, pavimentam o caminho que esperamos trilhar nas próximas décadas. No que depender das discussões até aqui, vamos usar mais impostos e mais contribuições previdenciárias para cobrir a diferença. Na prática, teríamos de topar contribuir com 10% a mais do PIB todos os anos em impostos. Coisa de R$ 600 bilhões a mais para os excelentíssimos senhores de Brasília administrarem. No fim das contas, a Previdência brasileira é considerada um das mais  insustentáveis do mundo. E é por isso que a ideia de reformá-la se tornou um mantra.

sorbetto/Getty Images

Como funciona lá fora

Na Suécia, se aposentar antes dos 65 anos significa receber do governo 50% do último salário. No Brasil, quem tem essa idade consegue parar de trabalhar com 70%, em média. Na Alemanha, essa porcentagem é de meros 38%. A maior proporção entre os países ricos é a da França, com 56%. Em nenhum caso chegam perto dos 70% médios que o Brasil paga.

Mesmo assim, os aposentados desses países têm um padrão de vida bem melhor que os daqui. Qual o segredo, então? O seguinte: o governo garante o básico, em vez de cortar o básico, como o nosso propõe. Já os trabalhadores que planejam manter rendimentos mais altos no futuro passam a vida  poupando em fundos de pensão, de modo a garantir uma previdência complementar.

Logo, o grosso do dinheiro necessário para viver decentemente não vem do Estado, mas de fundos de pensão privados. Fundos que, na prática, tornam os aposentados donos de trilhões de dólares.

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Uma previdência trilionária

Os fundos de pensão ao redor do mundo possuem US$ 20 trilhões – quase sete vezes as reservas internacionais da China, as maiores do planeta. No Brasil, apenas 2,54 milhões de cidadãos (3% do total de trabalhadores) possuem algum tipo de complemento para se aposentar. Mesmo assim, eles detêm ativos de R$ 750 bilhões, ou 12% do patrimônio total de famílias e empresas brasileiras.

Para o poupador, ter seu dinheiro num bom fundo de pensão é o melhor dos mundos: os ganhos engordam exponencialmente com o tempo, já que rendem juros sobre juros – coisa que não acontece na pirâmide financeira da nossa Previdência Social, que vende o almoço para comprar a janta. Para o país, o ganho é ainda mais nítido. Os mais velhos passam a deter recursos que acabam investidos. Isso gera emprego e renda aos mais novos, tornando a previdência tradicional mais sustentável.

No Chile, 80% dos recursos da previdência vêm desse tipo de investimento. Resultado: bilhões de dólares que se transformam em estradas, portos, saneamento.

Em vez de a previdência ser um fardo, ela serve de motor para o crescimento do país. É isso que precisa ser fomentado por aqui, para o bem do Estado e dos trabalhadores.

Porque, enquanto a Previdência Social seguir parada no tempo, quem continuará estagnada é a única entidade realmente capaz de dar uma guinada nas nossas vidas: nossa economia.

 

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