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Pessoas extremistas têm mais dificuldade para realizar tarefas mentais complexas

Estudo de Cambridge identificou uma relação entre o modo como o cérebro processa informação e a ideologia das pessoas, incluindo pistas que podem ajudar a explicar porque alguns se tornam radicais.

Por Bruno Carbinatto 24 fev 2021, 19h22

Pessoas com visões de mundo que favoreçam o extremismo tendem a ter mais dificuldade em realizar tarefas mentais complexas, descobriu um estudo feito por psicólogos da Universidade de Cambridge. Segundo a equipe, há uma relação entre os traços cognitivos das pessoas e suas respectivas ideologias, o que oferece pistas para entender a radicalização de indivíduos.

Na pesquisa, os cientistas recrutaram cerca de 350 voluntários dos Estados Unidos entre 22 e 63 anos. Os participantes passaram por duas etapas do estudo, que consistiam em uma série de testes – incluindo avaliações neuropsicológicas baseadas em tarefas e “jogos” mentais e também pesquisas de personalidade. O objetivo da equipe era entender as diferenças cognitivas dos participantes, incluindo a maneira como cada um interpretava o ambiente a sua volta, tomava decisões e reagia a desafios ou mudanças inesperadas.

Parte dos questionários tratava também de questões ideológicas dos voluntários, como suas visões políticas e religiosas. No estudo, foram considerados “extremistas” indivíduos de vários grupos ideológicos diferentes, mas que tinham a característica em comum de endossar o uso de violência contra outros grupos em nome da ideologia. Em um dos momentos, por exemplo, os participantes tinham que medir o quanto concordavam com afirmações como “Eu lutaria fisicamente contra alguém que estivesse insultando ou zombando dos Estados Unidos” e “Devemos fazer tudo o que for necessário para aumentar o poder do nosso país, mesmo que isso signifique guerra”.

Os testes cognitivos propriamente ditos não envolviam questões políticas, religiosas ou ideológicas. Em uma tarefa, por exemplo, os participantes tiveram que determinar se um grupo de pontos em uma tela estava se movendo para a esquerda ou para a direita. Em outra, eles precisavam memorizar uma série de formas visuais ou números e, em seguida, relatar a ordem em que apareciam na tela. Os resultados dessas tarefas foram analisados pela equipe para extrair informações sobre fatores como percepção, aprendizado e capacidade de manter um processamento mental complexo e estratégico.

Em um novo artigo publicado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B, a equipe relata que há uma relação entre as visões de mundo das pessoas e seus resultados nos testes psicológicos. No estudo, pessoas que favoreciam medidas extremas, como o uso de violência para defender seus ideais, tenderam a ter uma performance pior em tarefas que exigiam raciocínios mentais elaborados e soluções complexas, que exigiam mais de uma etapa. Além disso, esses voluntários também apresentaram habilidades de regulação emocional frágeis – e foram mais impulsivos durante os testes.

Os resultados, argumenta a equipe, são condizentes com a interpretação de que o radicalismo nasce de uma visão simplificadora do mundo, que busca soluções rápidas para problemas complexos.

A pesquisa é parte de um campo crescente na psicologia que visa estudar os fatores que favorecem a radicalização das pessoas – seja no sentido político, religioso ou em demais campos ideológicos. Até agora, porém, estudos desse tipo tinham se voltado a características como sexo, idade e etnia. Os autores do novo estudo queriam incluir fatores cognitivos nessa equação – ou seja, entender como diferenças na maneira como o cérebro processa informações podem explicar o fenômeno de radicalização.

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“Dificuldades sutis com o processamento mental complexo podem subconscientemente levar pessoas para doutrinas extremas que fornecem explicações mais claras e definidas do mundo, tornando-as suscetíveis a formas tóxicas de ideologias dogmáticas e autoritárias”, explicou, em comunicado, Leor Zmigrod, autora principal do estudo e pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

A equipe também considerou outros fatores que diferenciam os voluntários, como sexo, idade e raça, para checar se eles não eram responsáveis pelas variações. Mas os resultados mostraram que essas características sozinhas explicavam apenas 8% das variações identificadas, indicando que as diferenças cognitivas de fato tinham um papel importante no processo de radicalização.

“Parece haver semelhanças ocultas nas mentes das pessoas mais dispostas a tomar medidas extremas para apoiar suas doutrinas ideológicas. Entender isso pode nos ajudar a dar apoio aos indivíduos mais vulneráveis ao extremismo”, diz Zmigrod. A pesquisadora faz parte de uma rede de especialistas que trabalha em conjunto com o governo do Reino Unido para combater o extremismo no país. 

Outros resultados

A pesquisa também descobriu diferenças interessantes entre os processos cognitivos de pessoas com diferentes ideologias. Aqueles que se identificavam com o conservadorismo, por exemplo, tendiam a demorar um pouco mais para dar respostas definitivas e preferiam avaliar a situação cuidadosamente até ter a certeza de suas escolhas. Já pessoas que se declaravam politicamente liberais ou que apoiavam mudanças no status quo atual eram mais propensas a adotar estratégias perceptivas mais rápidas e menos precisas.

Os participantes dogmáticos – aqueles que resistiam a atualizar suas visões de mundo, mesmo quando novas evidências confiáveis eram apresentadas, também foram mais lentos no processamento de informações em tarefas perceptivas.

 

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