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Por que comprar orgânicos?

No Brasil e no mundo, cresce o número de pessoas dispostas a pagar um extra para colocar no carrinho do supermercado alimentos produzidos sem agrotóxicos. Mas nem todos os argumentos associados a essa tendência de consumo são baseados em fatos científicos

Quando um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, cravou que os orgânicos não têm mais vitaminas do que os alimentos cultivados de maneira convencional, colocou em xeque uma das crenças dos consumidores dos produtos sem agrotóxicos. Afinal, mais da metade deles (51%) declarou, em uma pesquisa global da Nielsen Company, colocar esses itens no carrinho de compras por acreditar que são uma opção mais nutritiva.

No levantamento feito em 2010 pela empresa que estuda hábitos de consumo, o teor de nutrientes aparecia em terceiro lugar na lista de motivos para comprar orgânicos. Serem mais saudáveis era o primeiro argumento, apontado por 76% dos participantes da enquete, seguido pela vontade de evitar pesticidas e outras toxinas. Muitos (49%) faziam essa escolha por acreditar que as fazendas orgânicas são melhores para o meio ambiente ou por achar que a comida que sai dali é mais gostosa (45%). Outros fatores destacados pelas pessoas entrevistadas eram a ausência de transgênicos, a possibilidade de apoiar pequenos produtores e comunidades rurais e a desaprovação aos métodos modernos de produção. Uns tantos indivíduos disseram que parecia “a coisa certa a fazer”.

Por uma razão ou por outra, o consumo de orgânicos vem explodindo no mundo – em 2012, esse mercado movimentou US$ 63,8 bilhões, contra US$ 15,2 bilhões em 1999, segundo o anuário The World of Organic Agriculture, lançado na feira Biofach 2014 em Nuremberg, Alemanha. De acordo com o documento, o Brasil respondia por US$ 750 milhões dessa fatia em 2012, e era esperado que chegasse a US$ 1 bilhão em 2014. Por aqui, 95% da comida orgânica vem de pequenos e médios produtores, e 60% da receita é obtida com exportações. “Somos um celeiro de orgânicos pelo simples fato de termos muitos alimentos vindos do extrativismo, como o açaí, a castanha-do-pará e o palmito”, diz Ming Liu, coordenador executivo do projeto Organics Brasil, entidade que reúne empresas produtoras e exportadoras de orgânicos.

O setor cresce, mas até que ponto os atributos positivos relacionados a seus produtos fazem sentido? Estamos desembolsando mais pelas razões certas? A seguir, debatemos alguns dos possíveis motivos para comprar orgânicos.

 (Reprodução/iStock)

São mais saudáveis?

Após revisar 237 pesquisas sobre orgânicos, cientistas da Universidade Stanford não acharam diferenças significativas de valores de nutrientes entre esses alimentos e os convencionais. Mas, não surpreendentemente, eles encontraram mais resíduos de pesticidas na produção não orgânica, ainda que geralmente dentro dos limites permitidos (isto é, em níveis que estudos estabeleceram como seguros para a saúde do consumidor). Além disso, embora o nível de contaminação bacteriana não se alterasse dependendo do método de criação de frangos e porcos, os convencionais apresentavam mais bactérias resistentes a antibióticos. “O consumo de comidas orgânicas pode reduzir a exposição a resíduos de pesticidas e bactérias resistentes a antibióticos”, concluiu o estudo, publicado em 2012.

Recentemente, uma revisão de mais de 300 estudos publicada no British Journal of Nutrition apontou evidências de que os orgânicos tenham mais compostos fenólicos (os tais antioxidantes, conhecidos por proteger o organismo de doenças como o câncer) e menos metais pesados. Houve, no entanto, uma série de críticas à metodologia da pesquisa, que, segundo essas alegações, teria juntado informações de estudos pouco relevantes.

Esse tipo de análise nutricional é complexa. No mundo ideal, para não comparar alhos com bugalhos, plantaríamos, de maneira idêntica, alimentos orgânicos e não orgânicos: da mesma espécie, vindos das mesmas sementes, no mesmo tipo de solo, sujeitos ao mesmo nível de irrigação e regime de chuvas, no mesmo microclima, colhidos na mesma época, transportados e armazenados exatamente do mesmo jeito. Sim, tudo isso influencia na quantidade de nutrientes e no sabor.

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Já a análise do teor de agrotóxicos é mais simples. Abobrinhas, pimentões, morangos, tomates, uvas e pepinos estão entre os alimentos que mais apresentam excesso ou uso inadequado dessas substâncias no Brasil. Todos os anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulga um relatório sobre irregularidades no uso de defensivos agrícolas e fertilizantes. No mais recente, de novembro de 2014, coube à abobrinha o pouco honrado topo do ranking, com 48% de 229 amostras consideradas insatisfatórias – 45% por terem ingredientes ativos não autorizados (ou apenas para a espécie ou totalmente proibidos no País) e 3% por conter produtos autorizados, mas em quantidade excessiva. No relatório anterior, o primeiro lugar foi do pimentão, com impressionantes 85% de amostras inadequadas.

Embora existam alimentos, como os citados pela Anvisa, que concentrem mais resíduos de agrotóxicos, antibióticos e hormônios do que outros, os especialistas são reticentes em dizer que existem itens com os quais não é preciso se preocupar, basta “tirar a casca”. “Há muitos compostos sistêmicos, que atuam de dentro para fora da planta e não têm como ser retirados do fruto ou folha”, afirma Priscila Terrazzan, engenheira agrônoma e diretora do Instituto BioSistêmico, organização voltada para o desenvolvimento sustentável no âmbito socioambiental.

 (Reprodução/iStock)

São mais gostosos?

Talvez. Um estudo feito pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em Piracicaba (SP), mostrou diferenças, ainda que sutis, no teor de açúcar, na cor e na textura de morangos orgânicos em relação aos de agricultura convencional. Analisados em laboratório, os primeiros se mostraram mais doces, coloridos e firmes, além de preservar a aparência fresca por mais tempo.

Para a nutricionista Thadia Turon Costa da Silva, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a explicação para uma suposta distinção de gosto pode estar ligada não exatamente ao uso ou não de agrotóxicos, mas ao respeito à natureza de cada espécie. “Na agricultura orgânica são mais considerados os períodos de plantio, colheita e estágio de maturação das frutas”, diz Thadia, que é membro da comissão técnica da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro. “Dessa forma permite-se uma maior concentração de açúcares e do sabor dos alimentos.”

Mas testes cegos feitos com base apenas na percepção do paladar não apontam, nem com morangos nem com outros alimentos, diferenças significativas nesse quesito. Em compensação, pesquisas mostram que consumidores gostam mais de produtos vendidos como sustentáveis. Em um desses estudos, um grupo de cientistas suecos pediu que os participantes avaliassem dois cafés, um eco-friendly e outro convencional. Resultado: a maioria preferiu o sabor do primeiro e se disse disposta a pagar mais por ele – embora, na verdade, todas as xícaras tivessem sido abastecidas com o mesmo líquido.

 (Reprodução/iStock)

Valem quanto pesam?

Uma busca rápida no site de entregas do supermercado Pão de Açúcar mostra o tom da discussão. Durante a apuração desta reportagem, um quilo de tomate italiano saía por R$ 5,29, contra R$ 6,49 de uma bandeja com 500 gramas da opção orgânica (150% mais cara). A conclusão é simples: o orgânico não cabe no bolso da maioria e, mesmo para quem pode pagar, pesa no orçamento.

que explica essa diferença? “Há poucos produtores para a demanda, a produtividade dos orgânicos é mesmo menor, os custos são mais altos, os produtos são sazonais”, diz José Pedro Santiago, engenheiro agrônomo, consultor em agricultura orgânica e um dos iniciadores do movimento no Brasil. Um exemplo: um frango convencional, que recebe hormônios, fica pronto para o abate em 40 dias, enquanto o orgânico leva de quatro a seis meses. Há também fatores sociais envolvidos nesse custo. “Uma das preocupações da agricultura orgânica é fortalecer a construção de um mercado justo e consciente, que remunere dignamente o agricultor”, diz José Guilherme Marinho Guerra, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na unidade de agrobiologia no Rio de Janeiro.

Para o consumidor, há opções para diminuir um pouco essa despesa extra. Uma delas é comprar diretamente de produtores em feiras orgânicas ou adquirir cestas fixas (em muitas cidades há sistemas de venda de hortifrutigranjeiros em que se paga uma taxa para receber em casa uma quantidade pré-determinada de produtos de acordo com a colheita do período). Outra possibilidade, segundo a engenheira agrônoma Priscila Terrazzan, é reivindicar investimento maior do governo em pesquisas para desenvolvimento de técnicas de produção e estímulo aos envolvidos no processo. “É preciso haver políticas de informação e incentivo para o consumidor por meio de redução de impostos para produtores e vendedores”, diz. “Se isso foi feito para os carros, por que não fazer para os alimentos orgânicos?”

 (Reprodução/iStock)

São para todos?

Ainda que com investimentos em tecnologia seja possível aumentar a produtividade da terra e a rentabilidade dos produtos, e assim baixar os preços para o consumidor, é difícil conceber um futuro em que os orgânicos alimentem toda a população mundial.

“Atualmente, apenas 1% da agricultura mundial é orgânica”, afirma o inglês Tom Standage, editor de negócios e tecnologia da revista The Economist e autor do livro Uma História Comestível da Humanidade. “Mesmo reduzindo o desperdício de alimentos, se diminuíssemos o espaço da agricultura convencional e o transformássemos em cultivo orgânico, eu não sei de onde viria o estrume necessário para adubar todos os alimentos.” Não é brincadeira. Em seu livro, o jornalista argumenta que os fertilizantes sintéticos, ao aumentar a disponibilidade de nitrogênio como nutriente para plantas, foram responsáveis por aumentar a produção de alimentos, diminuindo as mortes por fome e impulsionando o crescimento populacional. Para abrir mão desses compostos químicos e substituí-los por estrume, precisaríamos de muitos animais, que ocupariam muita terra, que deixaria de ser usada para o cultivo de alimentos.

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Uma alternativa a esse paradoxo do adubo seria a rotação de culturas para recuperação do nitrogênio da terra. “Mas isso significa que você não teria colheitas todos os anos e precisaria de mais terras. Não teremos espaço para produzir alimentos suficientes para todos”, afirma Standage. “Costumo dizer que a agricultura orgânica é mesmo difícil. É como plantar com uma mão amarrada nas costas. E é por isso que é mais cara também.”

Do outro lado nesse debate, a nutricionista Thadia Turon acredita que seria possível, sim, alimentar a humanidade com orgânicos. “O que impede isso hoje são os interesses de grandes grupos agroquímicos, presentes de forma ostensiva na agricultura”, diz. “Uma revisão de 362 artigos feita em 2012 por pesquisadores holandeses mostrou que a agricultura orgânica rende, em média, 80% da convencional.” Ou seja, a diferença de produtividade não é tão grande assim.

 (Reprodução/iStock)

São melhores para o meio ambiente?

Não dá para bater o martelo sobre o sabor, não há evidências significativas de diferença nutricional, os preços vão continuar mais altos e o medo de danos à saúde causados pelo consumo de alimentos tratados com pesticidas em níveis controlados não tem um respaldo de pesquisas científicas. Mas, além do suposto “faz bem para o corpo”, os argumentos para o consumo de orgânicos podem estar na avaliação da cadeia produtiva. O respeito pela terra e por quem trabalha nela é um ponto central para as várias correntes de agricultura alternativa com fundamentos orgânicos que se desenvolveram no século 20, como a biodinâmica e a biológica. “Em comum, elas apresentam características como a valorização da reciclagem de materiais orgânicos para a melhoria e manutenção da fertilidade dos solos, além da adoção de estratégias de manejo de insetos, pragas e doenças que respeitem a sustentabilidade e a saúde do homem e dos animais”, diz José Antônio Azevedo Espíndola, pesquisador da Embrapa Agrobiologia (RJ).

Ao comprar orgânicos você desestimula o uso excessivo de defensivos agrícolas e cuida da saúde de quem produz seus alimentos, diminuindo a exposição do trabalhador rural a agrotóxicos. “Se o orgânico sai mais caro na ponta, com o convencional a sociedade pagará a diferença mais para frente”, afirma o engenheiro agrônomo José Pedro Santiago. Segundo ele, a fatura virá na forma de serviços de despoluição, tratamento de doenças, desassoreamento de rios e lagos e recomposição do solo, da fauna e da flora.

Levando-se em conta somente a área de produção, as emissões de carbono dos sistemas convencionais são sempre mais elevadas do que as dos sistemas orgânicos, segundo o Programa de Agricultura Orgânica da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Mas, ao adquirir um produto, considere também de onde ele veio. Comprar localmente faz parte da filosofia. Então, se o seu intuito for aderir ao consumo consciente, aquele kiwi orgânico da Nova Zelândia provavelmente não é uma opção melhor do que uma fruta sazonal brasileira.