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QAnon e tribalismo masculino: a extrema direita por trás da invasão do Capitólio

Uma ideologia que exalta a caça, a guerra e o corpo masculino está por trás da foto que correu o mundo. Para os teóricos da conspiração fantasiados que tomaram o Congresso dos EUA, homens devem transar entre si e relegar as mulheres a fins reprodutivos.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 8 jan 2021, 23h41 - Publicado em 8 jan 2021, 19h27

As imagens da invasão do Capitólio dos Estados Unidos nesta quarta-feira (06) chocaram o mundo por representar um ataque à democracia americana sem precedentes na história contemporânea. O episódio de terrorismo doméstico – pois é essa a definição adotada pelo FBI – foi responsabilidade de uma multidão de apoiadores do presidente Donald Trump. Ele se recusavam a aceitar a certificação dos resultados da eleição presidencial de 2020, que deu vitória ao democrata Joe Biden. Cinco pessoas morreram e dezenas foram presas durante o confronto.

Pouco tempo antes da invasão, o próprio presidente deu um discurso aos seus apoiadores – alimentando, sem provas, a hipótese de que a eleição havia sido fraudada.

O discurso foi o gatilho, mas há razões mais profundas por trás do ato de vandalismo. Teorias conspiratórias e ideologias extremistas que criaram raízes na extrema direita americana ao longo do mandato de Trump resultaram em um grau incomum de polarização no país e nos atos inéditos de violência. Vamos falar de duas forças que se fizeram presentes nos acontecimentos de quarta: o QAnon e o tribalismo masculino (representado pela já icônica imagem do “viking” de peito nu, que abre este texto.)

QAnon: a teoria conspiratória que tomou a extrema-direita americana

Apoiadores do Trump se reúnem do lado de fora do edifício do Capitólio dos EUA.
Spencer Platt/Getty Images

Teorias da conspiração são elementos comuns a todas as ideologias extremistas – elas são ótimas para alimentar o ódio contra grupos específicos. Mas nenhuma se popularizou tanto e tão rápido entre a extrema-direita americana como a chamada “QAnon”.

Apesar de alguns elementos de sua narrativa serem mais antigos que a gestão Trump, a QAnon propriamente dita ganhou corpo em outubro de 2017 no 4chan, um famoso fórum online. Um usuário anônimo, identificado apenas como “Q” – daí o nome –, fez a primeira publicação. Em pouco tempo, suas groselhas começaram a ecoar no mainstream e chegaram a redes sociais mais populares, como Instagram, Facebook e Twitter.

“Q” clama ser um oficial do alto escalão do governo americano, próximo ao presidente Trump e detentor de informações secretas sobre a administração americana (hoje, acredita-se que “Q” na verdade seja mais de uma pessoa).

A mentira criada por “Q” e seus asseclas é difusa, complexa e cheia de histórias distintas – mas se concentra em um elemento central: há uma espécie de guerra fria ideológica travada entre os apoiadores de Trump e um certo status quo formado pelas elites econômicas, por políticos de centro e de esquerda, a mídia, as celebridades de Hollywood e outros setores da sociedade que se expressem abertamente contra Trump ou a favor de pautas minimamente progressistas.

Essa suposta esquerda (que na verdade inclui não só a esquerda mas qualquer coisa do espectro ideológico que não seja a própria extrema direita) geralmente é associada ao satanismo, à pedofilia, ao canibalismo e diversas outras práticas bizarras e indefensáveis  – tudo sem provas, é claro. Segundo o QAnon, Trump e sua equipe sabem detalhes sobre esses crimes hediondos e estão prontos para divulgá-los amplamente.

No primeiro post de seu perfil, ainda em 2017, “Q” afirmava que tinha informações confidencias que Hillary Clinton, candidata democrata derrotada nas eleições de 2016, seria presa “em breve” por um suposto envolvimento em casos de pedofilia. Clinton nunca foi presa, nunca foi investigada por pedofilia e não existe sequer um mínimo indício sério de que isso jamais tenha sido considerado fora das redes.

Uma das histórias mais famosas propagadas pelo movimento é mais antiga que o próprio QAnon. Trata-se do suposto escândalo “Pizzagate”, uma teoria da conspiração que liga diversos políticos do Partido Democrata e celebridades a um falso esquema de pedofilia e tráfico humano. O local de encontro desse esquema criminoso fictício seria a pizzaria Comet Ping Pong, em Washington (daí o nome, que faz um trocadilho com o célebre caso de corrupção Watergate).

A teoria se popularizou tanto na internet que a Polícia do Distrito de Columbia investigou o tal estabelecimento – e concluiu que tudo não passava de uma mentira.

É com esse tipo de cascata que o QAnon se mantêm – e se populariza muito rapidamente. O movimento incorpora o antissemitismo, a misoginia, a LGBTfobia e o negacionismo científico  – sempre afirmando que os interesses desses grupos estão subordinados às ações de um certo deep state (Estado profundo), um grupo de manda-chuvas ocultos que opera a pedofilia e o satanismo pelo mundo. Trump e seus aliados conservadores seriam os únicos que podem combater esses vilões.

A teoria da conspiração cresceu tanto que o FBI hoje investiga o QAnon e considera o movimento como uma “possível ameaça de terrorismo doméstico”, já que pode incentivar seus seguidores a se envolverem em atos de violência com base em mentiras.

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Hoje, é difícil saber quantas pessoas são adeptas aos seus ideias. Os grupos mais famosos sobre o tema no Facebook tinham mais de 200 mil membros antes da plataforma excluir e banir discussões do tipo em 2020. Em uma pesquisa de setembro de 2020, quase 50% dos americanos afirmam ter pelo menos “ouvido falar” sobre o QAnon. Alguns estudiosos do tema afirmam que o movimento cresceu tanto que não pode ser visto mais como apenas uma mera teoria da conspiração – e sim como uma espécie de seita ou religião.

Diversos políticos e autoridades já se manifestaram a favor da teoria. O próprio presidente Trump apoiou indiretamente o grupo e chamou seus seguidores de “pessoas que amam o nosso país“. Nas eleições de 2020, uma deputada abertamente a favor dos ideais do QAnon foi eleita para o Congresso americano.

Na invasão do Capitólio nesta quarta-feira, diversos vândalos carregavam bandeiras com slogans e símbolos do QAnon. Diversos disseminadores dessa fake news gigantesca estavam presentes no episódios – Ashili Babitt, a mulher que morreu após ser baleada pela polícia durante a invasão, compartilhava conteúdo do movimento extremista em suas redes sociais.

Tribalismo masculino: os vikings do século 21

Uma multidão pró-Trump invadindo o Capitólio dos EUA.
Win McNamee/Getty Images

Vestindo pele de animais, com um capacete com chifres de bisão, o homem descamisado e tatuado que ilustra a abertura desse texto se tornou símbolo da invasão ao Capitólio. Jake Angeli tem 32 anos e já era conhecido no Arizona como Q-Shaman (“Xamã do QAnon”). Esse defensor ávido da teoria conspiratória não representa apenas esse grupo: suas vestimentas revelam um outro movimento obscuro que alimenta a extrema-direita americana, o “tribalismo masculino“.

O nome é autoexplicativo: seus adeptos defendem a volta a um estilo de vida tribal, anterior a avanços sanitários básicos e aos direitos humanos. Seus seguidores apoiam uma forma extrema de veneração ao corpo do homem, exaltando a virilidade, a violência e estilos de vida baseados na guerra, na caça e em outras ideias fetichizadas sobre o comportamento de humanos pré-históricos e guerreiros da Antiguidade e da Idade Média.

Os tribalistas rejeitam a modernidade e geralmente fazem alusão aos vikings, aos nativos americanos, aos romanos, aos espartanos e aos europeus medievais, às vezes com uma pitadinha de elementos cristãos ultrarreligiosos, como explica o escritor Matthew N. Lyons no livro “Key Thinkers of the Radical Right Behind“.

Mulheres são em geral vistas como fracas e inferiores, enquanto os homens, guerreiros e líderes, dominam. É uma misoginia ainda mais extrema do que a de grupos ultraconservadores mais tradicionais – onde impera o ideal da mulher dona de casa, que exerce uma função essencial no seio da família. Os vikings do Capitólio mais radicais acreditam que mulheres não têm um papel na sociedade a não ser procriar. Parece brincadeira – mas tudo isso é declarado pelos próprios adeptos do movimento.

Uma das figuras mais famosas deste grupo é o autor norte-americano Jack Donovan, considerado um dos maiores influenciadores da ideologia masculinista. Donovan é abertamente homossexual – apesar de rejeitar o rótulo de “gay”. Em publicações como o livro “Androphilia: A Manifesto: Rejecting the Gay Identity, Reclaiming Masculinity“, ele defende que o corpo masculino e a ideia da masculinidade são superiores, e que por isso homens devem se relacionar com outros homens.

Mulheres devem servir apenas para gerar bebês – mas ficam excluídas das estruturas familiares e de qualquer forma de afeto. Em vez de famílias, a sociedade deveria girar em torno de “gangues” em que homens são livres para vadiar e exaltar sua virilidade entre si. Vale lembrar que os seguidores da ideia de Donovan, embora envolva relações entre pessoas do mesmo sexo, repudia totalmente os movimentos LGBT. Eles não se consideram gays, e sim “andrófilos” – o termo é formado por duas raízes gregas que significam, juntas, “amor pelo homem”.

Segundo a ideologia de Donovan, seguida por milhares de masculinistas pelo mundo, o feminismo está destruindo o mundo ao dar direitos para mulheres.  Com ênfase na violência, o grupo é bem menos influente que o QAnon – que também inclui um número considerável de mulheres. Mas não se pode subestimá-lo: Jake Angeli não foi o único a estar vestido de forma tribal na invasão do Capitólio, e sua simbologia abjeta vêm aparecendo em outros protestos, incidentes e crimes pelo mundo nos últimos anos.

 

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