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Reduzidos a pó

Em dez anos, 7 mil rinocerontes morreram por ostentar, em seus chifres, a substância ilegal mais cara do mundo, traficada como remédio ou artigo de luxo

Eles estão na Terra há mais de 50 milhões de anos, contra meros 6 milhões dos primeiros hominídeos, e em todo esse tempo não tiveram a sua espécie ameaçada por nenhum animal disposto a enfrentar a imponência de suas 3 toneladas. Agora, eles podem ser extintos por um predador 40 vezes mais leve, sem garras nem dentes afiados, mas que usa armas de grosso calibre. E por que o homem está exterminando os rinocerontes? Para arrancar os chifres e trocá-los por muito, muito dinheiro. O pó de chifre vale mais do que ouro, é a substância ilegal mais cara do mundo e movimenta mais de US$ 20 bilhões por ano junto com o tráfico de outras espécies selvagens. Entenda, a seguir, porque o ornamento é tão valorizado e o que está sendo feito para tentar evitar o colapso dos rinos.

Jagunços treinados para guerra e fortemente armados escoltam uma carga preciosíssima. A missão deles é levar o material até um cofre em um endereço sigiloso. Os guardas trabalham tensos porque podem ser atacados por ladrões que sabem bem o valor do que está sendo transportado. Não, eles não carregam obras de arte, dinheiro nem pedras preciosas. É uma tarde comum numa reserva florestal da África do Sul e esses soldados particulares estão protegendo o bem mais precioso de seus patrões: chifres de rinocerontes. Essa operação faz parte de uma estratégia para diminuir a matança dos rinos: cortar os chifres antes dos caçadores e estocá-los para que não sejam contrabandeados. No mercado negro asiático, cada quilo da peça custa US$ 53 mil – para comparar, um quilo de ouro custa mais ou menos US$ 40 mil.

Os responsáveis por esse extravagante filão comercial são magnatas do Vietnã e da China. Nesses países, há quem acredite que o chifre, em pó, seja um remédio de amplo espectro, indicado para males que vão desde uma mera dor de cabeça até a cura de um câncer.

O princípio ativo do pó de chifre de rinoceronte é a queratina, proteína abundante em todo o planeta, concentrada em pelos, unhas e cascos de inúmeras espécies animais, incluindo aí a espécie humana. A fama curandeira da substância – amplamente refutada pela ciência – tem origens na mitologia chinesa. “Uma das primeiras indicações das propriedades medicinais do chifre de rinos é do século 2 a.C., nos escritos Medicina Sagrada dos Fazendeiros”, explica a pesquisadora Alex Kennaugh, do Conselho de Defesa de Recursos Naturais sul-africano. A indicação do produto como medicamento se solidificou em 1597, sob influência de Li Shih-Chen, guru da medicina chinesa à época. Segundo a crença disseminada, consumir 1 grama diário – cotado a US$ 53 – é suficiente para manter a saúde.

Além do uso medicinal, o produto é usado por jovens ricos em festas, misturado com cocaína e também para curar a ressaca no dia seguinte. Há ainda quem curta ostentar tomando chá ou sopa com raspas de chifre. A gana dos vietnamitas pelo artigo exótico é tão grande que eles fraudam licenças de caça para traficar queratina da África do Sul.

Entre julho de 2009 e maio de 2012, 185 vietnamitas obtiveram autorização junto ao governo sul-africano para caçar os animais legalmente e levar os chifres para casa como troféus. Como espólio de caça nesse período, 659 chifres, o equivalente a 2 toneladas, foram exportados legalmente para o Vietnã. Uma investigação apontou que os caçadores estavam, na verdade, comercializando o produto. O país foi banido da caça legal, mas investigações posteriores revelaram que vietnamitas recrutaram caçadores de outras nacionalidades para obter a licença e engrossar o esquema. Hoje, essa concessão, que é a única forma de obter o chifre legalmente, só é liberada após um rigoroso e burocrático processo seletivo.

A peça também é valorizada como ornamento. No Iêmen, o homem é mais respeitado se usar a sua jambiya – adaga tradicional na cultura islâmica – com o cabo feito de chifre de rinoceronte esculpido.

Em 2007, a África do Sul registrou 13 rinocerontes brancos mortos. Em 2013, o número passou de mil – patamar que não recuou até hoje. Toda essa cobiça alimenta um esquema sofisticado de tráfico – o comércio ilegal de animais selvagens só fica atrás do tráfico de drogas, de pessoas e de armas – que envolve caçadores, exportadores e autoridades subornadas para fazer vista grossa. Atualmente, a cúpula do Ministério da Segurança da África do Sul está sob investigação – uma denúncia da TV Al Jazeera flagrou o comércio ilegal e registrou o depoimento de um traficante citando o nome do ministro de Segurança de Estado, David Mahlobo, como facilitador.

US$53 o grama é o preço que o pó de chifre pode atingir.

 

Alvos noturnos

A lua cheia atrai caçadores clandestinos – a maior parte deles amadores. E não é por crendice ou pela beleza noturna, mas por praticidade: perseguir os rinos no escuro dificulta a fiscalização, e a luz do luar deixa as presas mais visíveis. Os mercenários se armam com um rifle e um machado – em geral, um terceiro integrante leva uma mochila com mantimentos e espaço suficiente para carregar um chifre.

Eles entram no mato sabendo que podem ser atacados por leões, cobras ou por tiros de guardas florestais. Mesmo assim, estão dispostos a ficar horas à espreita sob o efeito de poções de curandeiros para enfrentar o medo. Quando finalmente encontram o intimidador rinoceronte, estão nervosos, apavorados. O atirador acerta o corpo do animal e o extrator entra em cena desesperado. Para terminar o serviço rápido e fugir, crava o machado na base do chifre e arranca pedaços da face junto. Ele sabe que, quanto maior a peça, maior o pagamento. Guardam o chifre ensanguentado na mochila e correm pela vida e pela recompensa.

Essa cena se repete a cada oito horas nos parques nacionais da África do Sul. Não à toa, a crise dos rinocerontes é chamada de “guerra”. Às vezes, a carcaça do animal fica dias na mata até ser encontrada pelas equipes das reservas – o que é compreensível, já que a maior do país, o Parque Nacional Kruger, é quase do tamanho de Sergipe. Apesar da imensidão da savana, alguns animais têm sorte e são encontrados no dia seguinte, a tempo de serem salvos, mas numa cena cruel: mergulhados numa poça de sangue e com o rosto desfigurado por um buraco. E nada indica que isso vá mudar: com o preço de um chifre de 3 kg rendendo US$ 7 mil para ser dividido entre o time de caça e US$ 159 mil para os traficantes, a luta contra a caça furtiva é uma batalha quase perdida. A demanda internacional só faz crescer a fila de aspirantes a caçador.

Assistência médica

Os rinocerontes mutilados que sobrevivem precisam de um tratamento de alta complexidade, e que resulta em muitas baixas – dos 54 animais tratados pelo governo da África do Sul desde 2014, 31 não sobreviveram. A operação de salvamento inclui viagem da equipe médica e instalação de hospital a céu aberto no mato com equipamentos de grande porte, além de remédios para sedação e tratamento do animal. Para complicar ainda mais o cenário, quando o paciente precisa de transporte, o único jeito é amarrá-lo pelas patas e pendurá-lo num helicóptero. Toda essa operação de guerra torna o tratamento de rinocerontes um dos mais caros da medicina de animais selvagens – casos mais críticos podem superar US$ 50 mil em despesas.

A principal equipe especializada em tratar rinocerontes feridos, a Saving The Survivors, atende gratuitamente cerca de 120 animais por ano. A procura é tão grande que a ONG precisa escolher os casos mais graves para atender: em geral, animais feridos no rosto e filhotes debilitados que tiveram as mães caçadas. O plano para aumentar o número de atendimentos é quase inviável, segundo a veterinária Zoe Glyphis: “A limpeza, a desinfecção, o tratamento e os curativos são muito caros. Ainda há todo o cuidado pós-operatório, que envolve alojamento, proteção e alimentação. Estamos falando de milhares de dólares para manter cada animal. E o tratamento dura até as feridas cicatrizarem completamente, o que leva meses, até mesmo anos.”

Por causa do alto custo de remediar o tráfico, campanhas de arrecadação de fundos para salvar os rinos são frequentes na África do Sul. Essas ações vão desde corridas e pedaladas até a venda de camisetas. As indústrias alimentícia e de bebidas também remetem parte dos seus ganhos para a causa. É muito comum, nos supermercados sul-africanos, encontrar balas, farinha, chocolate e outros itens que revertem parte do seu valor para organizações protetoras dos animais. Um exemplo disso é a Rhino Wine. Esta vinícola de Robertson, próxima à Cidade do Cabo, destina 10% dos seus lucros para um orfanato de rinocerontes.

Guerra de interesses

A África do Sul abriga aproximadamente 15 mil rinocerontes em parques estatais. Outros 7 mil estão em propriedades privadas, que funcionam como safáris. Os criadores aplicam várias medidas para evitar a morte dos animais. E, por mais que invistam em guardas florestais especializados, monitoramento por vídeo, drones e outros aparatos tecnológicos, nenhum sistema garante vigilância absoluta. Na busca pela salvação dos animais, alguns criadores optaram por uma solução emblemática: para evitar que os caçadores arranquem os chifres, os próprios donos de safáris estão fazendo a remoção. E aí voltamos para a cena de abertura desta reportagem. Lembra daqueles homens armados para transportar chifres?

Eles são seguranças contratados pelos proprietários dos parques para levar as peças para um local seguro. Alguns donos de safáris lutaram por anos na Justiça pelo direito de vender os chifres. Na esperança de um veredicto favorável, passaram a armazenar a valiosa queratina. A estimativa é de que os estoques privados ultrapassem 6 toneladas, o que equivaleria a US$ 318 milhões. O estoque federal, estimado em mais de 40 toneladas, valeria mais de US$ 2 bilhões. Uma fortuna que acabou de ser legalizada em abril de 2017, mas apenas para a comercialização dentro da África do Sul.

As medidas polêmicas não param por aí. Os sul-africanos também discutem métodos inovadores para devolver os chifres aos rinos salvos. Um deles é a produção de réplicas sintéticas, feitas com queratina mesmo, só que em impressoras 3D. Os artefatos seriam implantados no lugar dos chifres arrancados, mas isso poderia aumentar ainda mais a demanda no mercado negro.

A estratégia mais controversa é a autorização da caça. Apesar de toda mobilização para evitar os ataques, existem cerca de 200 caçadores – a maioria é de americanos – com direito de atacar os animais. O argumento para a permissão é que os caçadores esportivos pagam por isso, aumentando o rendimento das reservas privadas, que, assim, investiriam mais em segurança contra os mercenários. Resultado: na última década, mais de mil rinocerontes foram mortos legalmente na África do Sul.

Em nome da preservação da espécie, governo, criadores, entidades protetoras dos animais, organismos internacionais e países com alta demanda pelo produto seguram o chifre com todas as forças e pontos de vista possíveis. Agora, com os rinocerontes à beira do extermínio – nos últimos cem anos, o número de indivíduos despencou de 500 mil para 30 mil -, esses agentes precisam buscar maneiras de trabalhar para barrar a caça antes de o sol se pôr de vez para esses mamíferos de 50 milhões de anos.

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

80% dos rinocerontes do mundo vivem na África do Sul.

Maiores consumidores

O contrabando parte da África do Sul, Moçambique, Zimbábue e Quênia, passando por Eslováquia, República Tcheca, Bélgica, Itália e Alemanha. Vietnã, China e Iêmen se revezam nas últimas décadas como principais mercados para os chifres de rinoceronte, compostos de queratina — a mesma substância que forma unhas e cabelos humanos.

Escalada da morte

O gráfico mostra o número de rinos assassinados nos últimos dez anos, na África do Sul. A queda recente nas mortes pode ser um sinal de que os caçadores estão ampliando a área de atuação para países vizinhos, como Namíbia, Quênia e Zimbábue.

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Cotação afiada

US$53 o grama é o preço que o pó de chifre pode atingir.

Valor máximo, por quilo de pó de chifre, a cada década:

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Dias contados

No início do século 20, eram 500 mil rinos no mundo. Hoje, restam menos de 30 mil, de 5 espécies:

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Kit de caça

Trios de mercenários atacam em noites de lua cheia e dividem US$ 7 mil de recompensa por um chifre de 3 kg.

1- Mochila

Um dos caçadores fatura US$ 600 para levar mantimentos e ficar de vigia. É ele quem carrega o chifre.

2- Rifle

O atirador fatura entre US$ 2 mil e US$ 20 mil, de acordo com a sua experiência. A arma mais comum é o CZ-550 fabricado na República Tcheca.

3- Silenciador

O equipamento mais sofisticado protege o grupo de despertar a atenção dos seguranças.

4- Machado

O executor golpeia o rino para tirar o chifre pela raiz — e acaba arrancando pedaços da face junto. O sangramento costuma ser intenso e fatal.

 

 

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Medidas extremas

Reservas particulares têm adotado táticas ousadas para inibir a caça. Uma das saídas é antecipar-se aos caçadores, cortando os chifres e estocando-os. Eles dão tranquilizante para o rino e serram o chifre rente à raiz. O ornamento volta a crescer num ritmo anual de até 8 cm.

Resgate

Animais abatidos ainda com vida podem ser levados de helicóptero para serem tratados — por US$ 600 a hora. A recuperação de rinos severamente feridos pode incluir até 20 sessões , totalizando US$ 50 mil. Abaixo, os custos de cada sessão:

 

 (Cleyton Oliveira/Tainá Ceccato/Superinteressante)

Sem pai nem mãe

Os filhotes ficam ao lado das mães atacadas por dias, tentando se amamentar. Os sobreviventes vão para orfanatos e são alimentados por mulheres para não criar confiança em homens — seus caçadores quando voltarem à natureza.

300 é o número estimado de rinos órfãos que precisam de cuidado, por ano, na África do Sul.

Comentários

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  1. André de Souza

    Alguém tem dúvida de que a espécie humana merece desaparecer da face da Terra? Somos um lixo tóxico, uma verdadeira praga para o planeta. Se a chamada “hipótese de Gaia” fosse realmente corroborada, ou seja, se o planeta Terra fosse, realmente, um grande organismo vivo, sem dúvida nós, humanos, seríamos uma espécie de “patógeno”, como um vírus ou bactéria infectando tal organismo. E, neste caso, sabemos qual é a resultante: ou morre o parasita, ou morre o hospedeiro, ou, então, morrem ambos.

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