Trump, Musk e cia. estão obcecados por testes de QI – mas pelos motivos errados
Uso indiscriminado e distorcido de avaliações cognitivas pode descambar para a ideia de que há pessoas com características superiores às outras.
Quando quer falar mal de alguém, Donald Trump adora usar a expressão “baixo QI”. Foi assim que ele descreveu a rival Kamala Harris na última corrida presidencial, o presidente do Federal Reserve (banco central norte-americano) e toda a população da Somália.
Vamos pular a parte em que Trump considera baixa pontuação de QI um demérito (não é, nem de longe) e focar na obsessão com os testes em si. Ele não está sozinho nessa. Entre os endinheirados do Vale do Silício, há uma nova onda envolvendo esse tipo de avaliação e as supostas certezas que ele oferece.
Criados há mais de 100 anos, os testes cognitivos têm a difícil tarefa de medir inteligência. Mesmo em constante atualização, eles têm limitações. As versões mais modernas, por exemplo, ainda não detectam habilidades emocionais nem cinestésicas.
Mas, em certos contextos, são uma ferramenta útil. Podem ajudar a identificar indivíduos com alguma deficiência intelectual ou que estejam com educação defasada (e, a partir daí, em ambos os casos, repensar os métodos de aprendizagem). Também ajudam os superdotados a se reconhecerem como tal – uma jornada de autoconhecimento que pode melhorar como essas pessoas interagem com o mundo.
No Vale do Silício, porém, a relevância dos testes de QI tem se tornado cada vez mais indiscriminada. Há uma demanda crescente de avaliações em crianças, pois o resultado integra processos de admissão em escolas de ponta da região. No mundo corporativo, uma empresa de lá foi flagrada usando a pontuação para contratar funcionários.
Há também como encontrar parceiros românticos com QI elevado. Ao Wall Street Journal, uma profissional da área disse cobrar US$ 500 mil para ser o cupido intelectual de CEOs. Mas o fenômeno mais curioso (e preocupante) é o das startups que indicam, com base em análise genética, a probabilidade de bebês nascerem com QI alto. Por até US$ 50 mil, dá para fazer o teste – e, a partir daí, selecionar quais embriões fertilizar in vitro.
Essa ideia ressoa na crença de vários figurões do mundo tech, de diferentes épocas. William Shockley, um dos criadores dos transistores que viabilizaram os computadores modernos, dizia que pessoas com QI baixo não deveriam se reproduzir. Peter Thiel, primeiro investidor externo do Facebook, bota grana numas dessas startups preditoras de inteligência. Elon Musk, que tem 14 filhos, defende que pessoas brilhantes precisam deixar o maior número de descendentes.
Na reportagem de capa deste mês, a Maria Clara Rossini e a Luiza Lopes decifram a complexidade dos testes cognitivos e mostram por que supervalorizar os seus resultados pode, em última instância, descambar para a eugenia (a ideia de que há pessoas com características superiores, cuja reprodução deveria ser incentivada em detrimento das outras). Elas são duas das pessoas mais inteligentes que conheço – e não preciso de teste de QI para saber disso. Leitura obrigatória.
Já faz tempo que o Vale do Silício deixou de ser um celeiro de ideias utópicas e otimistas para virar uma caricatura de si mesmo – uma distopia de soluções individuais para problemas coletivos. Em vez de selecionar bebês superdotados, por que não universalizar um ensino de qualidade? O ambiente, afinal, influencia tanto quanto a genética em nossa inteligência. (Se Musk soubesse disso, talvez não tivesse cortado pela metade o quadro de funcionários do Departamento de Educação dos EUA na época em que integrou o governo Trump.)
Quero acreditar que exista pelo Vale gente disposta a resolver os reais problemas da humanidade com tecnologia. Mas confesso que, a cada nova ideia torpe, minhas esperanças diminuem.







