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Turistas de guerra

Que tal trocar aquela viagem a Paris por uma visita a Síria, Iraque ou Afeganistão? Conversamos com viajantes e agentes especializados em roteiros para zonas de conflito militar

Por André Bernardo, editado por Tiago Jokura Atualizado em 21 ago 2018, 01h43 - Publicado em 14 ago 2017, 13h41

“Uma Experiência para lembrar pelo resto da vida.” É o que promete a Hinterland Travel, agência britânica pioneira em oferecer pacotes de viagem para zonas de conflito – segmento que as empresas do ramo chamam de “turismo de aventura”. Considerando o ocorrido em 4 de agosto de 2016, elas prometem o que cumprem. Naquele dia, um comboio com 12 turistas – seis ingleses, três americanos, dois escoceses e um alemão – foi atacado por talibãs no oeste do Afeganistão. Nem a escolta de soldados locais intimidou os rebeldes, que acertaram um foguete na van forasteira. A emboscada deixou seis feridos. “Procuramos tomar todas as medidas de segurança. Mas sempre há risco de acidente, sequestro ou ataque”, admite o dono da agência, Geoff Hann, 78 anos, que sofreu ferimentos leves no incidente.

Em 1972, Hann já organizava excursões ao Iraque. Hoje, a Hinterland oferece sete roteiros e divide o front com outras agências, como a Untamed Borders (“Fronteiras Indomadas”, em tradução livre), a Wild Frontiers (“Fronteiras Selvagens”) e a War Zone Tours (“Turismo em Zonas de Guerra”), todas do Reino Unido. “Segurança é a preocupação número um. Por isso, reduzimos os riscos. Não viajamos para o Iêmen, que vive em guerra há quase três anos, nem para a Arábia Saudita, que não emite visto de turismo*”, esclarece James Willcox, dono da Untamed Borders.

Sophia Fernandez/Superinteressante

Uma das medidas de segurança de Willcox é restringir o número de viajantes por grupo. No caso do Paquistão, são 12. Afeganistão, nove. Tchetchênia, cinco. Somália, três. Outra estratégia é adotar mais de um veículo – jipe, van ou micro-ônibus – por viagem. Em caso de avaria, ninguém fica a pé. Tem mais: embora não haja limite de idade, a Hinterland pede aos maiores de 75 anos um atestado médico comprovando capacidade para encarar caminhadas de duas horas ou mais. Difícil mesmo é conseguir um seguro de viagem. “Viajar a passeio para zonas de conflito militar é um risco desnecessário”, afirma Robin Ingle, CEO da Ingle International, especializada em seguros de viagens de alto risco. “Nos últimos anos, houve inúmeros casos de sequestros, com alguns turistas forçados a se juntar a grupos de resistência e outros, mortos”, diz.

Mas, afinal, o que leva alguém a trocar roteiros convencionais por territórios hostis, como Iraque e Afeganistão? Com a palavra, a seguir, quatro destemidos turistas de guerra.

*Os vistos para as cidades de Meca e Medina são concedidos à parte, por sorteio, e são restritos a muçulmanos.

 

Fogo cruzado no Iraque

Acervo Pessoal/Reprodução

Nome: Andrew Drury
Origem: Inglaterra
Idade: 51 anos
Profissão: Empresário da construção civil
Países visitados: Cerca de 100
Destino marcante: Iraque

Neste exato momento, é bem provável que Andrew Drury esteja em Aleppo, na Síria, um dos mais sangrentos campos de batalha na guerra entre as forças leais ao presidente Bashar Al-Assad e os grupos rebeldes que querem derrubá-lo. Pelo menos duas vezes ao ano, Drury troca a pacata Surrey, no sudoeste da Inglaterra, para turistar em algum país devastado.

Casado e pai de quatro filhos, Drury conta que tudo começou em 1994. Tomado pelo tédio de visitar sempre os mesmos lugares, resolveu inovar. “Que tal o Afeganistão?”, cogitou. Um terremoto, porém, adiou a viagem. Na última hora, optou por Uganda. Nas montanhas de Bwindi, não aguentou ficar muito tempo fotografando gorilas e sugeriu ao guia que se aventurassem pelo Zaire (atual República Democrática do Congo), atravessando um bananal. Quando o dono do terreno notou os invasores, saiu no encalço deles, armado de facão. “O que senti foi indescritível. Fiquei tão viciado que resolvi repetir”, completa.

Não penso muito no perigo. Caso contrário, não sairia nem de casa. Mas tomo as minhas precauções. Antes de entrar num lugar, gosto de saber por onde vou sair.

Andrew Drury

Ser turista de guerra não sai barato. Em 2007, Drury pagou 4 mil libras (R$ 15.440) por uma viagem de dez dias ao Iraque. O pacote incluía despesas com deslocamento, acomodação, guias e café da manhã. De bônus, Drury ganhou a emoção de ser capturado por uma milícia. “Cheguei a pensar que tivesse virado refém. Mas, 24 horas depois, fui solto sem explicação. Até hoje, não sei o que aconteceu.” Em outra ocasião, desembolsou 3 mil libras (R$ 11.580) por três dias na Somália. “Saiu caro porque contratei seis guarda-costas.”

Apesar do susto no Iraque, Drury não se intimidou. Tanto que voltou em março de 2016. Durante visita a Kirkuk, ficou a 500 metros de distância de guerrilheiros do Estado Islâmico. Na cidade de 780 mil habitantes, fez amizade com um professor que, depois de ter a aldeia invadida pelo ISIS, decidiu pegar em armas e lutar ao lado dos peshmergas – iraquianos de origem curda. “Histórias assim mudam minha vida. E me tornam uma pessoa mais humana e compassiva”, explica.

Quando menos esperava, Drury se viu no meio do fogo cruzado. O ataque à base curda não foi casual: Kirkuk fica a 170 quilômetros de Mossul, último reduto do ISIS no país. “A ofensiva levou 30 minutos. Mas, acredite: durou uma vida inteira. Nunca esquecerei o som das balas sobrevoando minha cabeça”, relembra.

Quando voltar da Síria, Drury terá outra missão duríssima pela frente: fazer as pazes com a esposa, que odeia as viagens do marido e, quando ele volta, costuma ficar algumas semanas sem falar com ele.

 

Preso na Somália

Acervo Pessoal/Reprodução

Nome: John Milton
Origem: Estados Unidos
Idade: 47 anos
Profissão: Bancário aposentado
Países visitados: 99
Destino marcante: Somália

O bancário aposentado John Milton gosta de recorrer a frases de efeito para explicar sua obsessão por tirar férias em lugares em que a maioria dos turistas não cruzaria a fronteira. Ele elege Somália e Afeganistão como os mais perigosos. “Se tenho medo? É claro que sim. Mas, se você não está disposto a correr riscos, melhor ficar em casa. Eu realmente não quero levar uma vida pacata”, afirma.

Para quem pensa assim, a Somália parece ser o destino ideal. Milton só conheceu a capital Mogadíscio. Mas pretende voltar e dar uma passadinha em Puntland, região semiautônoma infestada de piratas somalis. Em seu primeiro dia em Mogadíscio, foi preso e interrogado, “durante quatro longas horas”, sob a acusação de entrar ilegalmente no país. “Fui solto graças a um agente da ONU e a soldados do Serviço Aéreo Especial, que negociaram minha libertação”, relata.

Meu objetivo é explorar o inexplorado. Se você não se arrisca pelo extraordinário, vai ter que se contentar com o ordinário. Não quero envelhecer sem cicatrizes.

John Milton

O incidente não paralisou Milton. Nos três dias que passou na Somália, aproveitou para conhecer o lugar em que dois helicópteros americanos UH-60 Black Hawk foram derrubados em 1993, durante a guerra civil local: a operação, que deixou 19 mortos e 73 feridos, foi retratada no filme Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott. “Quando tiro férias, priorizo lugares que ainda não foram afetados pelo turismo de massa. Não quero ficar esbarrando em paus de selfie e bolsas Louis Vuitton.”

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Quando visita destinos inusitados, como Iraque, Sudão e Paquistão, Milton toma algumas providências. A principal delas é contratar escolta. Na Somália, desembolsou US$ 5 mil (R$ 15.600) por quatro guarda-costas fortemente armados. “Achou caro? Se você for sequestrado por radicais do Al Shabab (A Juventude, em árabe), eles vão pedir muito mais pelo resgate”, argumenta o americano, referindo-se ao grupo extremista islâmico que, desde 2006, ocupa a maior parte da capital somali.

 

Vigiado na Coreia do Norte

Acervo Pessoal/Reprodução

Nome: Andrew Simmonds
Origem: Inglaterra
Idade: 51 anos
Profissão: Controlador financeiro
Países visitados: 60
Destinos marcantes: Coreia do Norte e Paquistão

Diferentemente de Iraque, Somália e Afeganistão, a Coreia do Norte não vive uma guerra civil interminável nem é ocupada por grupos extremistas. Não importa. Viajar para o país mais fechado do planeta demanda inúmeras precauções. Pedir autorização antes de tirar fotos é uma delas. Não discutir política com guias ou moradores é outra. Andrew Simmonds que o diga: já esteve lá a passeio em 2007 e 2011.

Para começo de conversa, os nativos não reconhecem o termo Coreia do Norte. Para eles, é República Popular Democrática da Coreia e ponto. “Da primeira vez, os achei pouco amigáveis. Quando nosso grupo embarcou no metrô, os passageiros mudaram de vagão. Da segunda vez, porém, estavam mais simpáticos. Num passeio pelo parque, muitos se aproximaram, puxaram conversa (intermediados pelos guias turísticos) e ofereceram comes e bebes”, relata Simmonds.

Procuro respeitar ao máximo os costumes e as crenças locais. Se não faço coisas estúpidas quando estou em casa, por que fazer quando estou na casa dos outros?

Andrew Simmonds

Andrew sempre foi para lá com excursão. Passeios individuais, além de caros, não são recomendados. Estrangeiros não são autorizados a caminhar desacompanhados pelas ruas. Em sua última viagem, ele lembra que alguns itens foram apreendidos na fronteira: guias de viagem, celulares e lentes fotográficas de longo alcance. O roteiro obrigatório, elaborado por uma estatal de turismo, privilegia visitas a parques, fábricas e museus. Muitos museus.

Um deles é o Museu da Guerra Vitoriosa da Libertação da Pátria, que dá sua versão para a Guerra da Coreia (1950-1953). “Os guias dizem que eles foram o primeiro povo a derrotar os EUA. Só não fazem referência ao fato de terem sido ajudados pelos chineses.”

Dos muitos costumes locais, Andrew cita o hábito de prestar reverência e depositar flores diante das inúmeras estátuas erguidas em memória de Kim II-sung, o Grande Líder, que libertou o país da ocupação japonesa, em 1945. A maior delas, feita de bronze, tem 30 m de altura e fica no Grande Monumento da Colina Mansu. “Quando viajo, procuro respeitar ao máximo as crenças e os costumes locais”, explica.

Antes de voltar para casa, um policial do aeroporto vistoriou a câmera de Simmonds. Não, não foi nada pessoal, acredite. Todos os turistas são convidados a mostrar as fotos que fizeram durante a visita ao país. “Se os inspetores avaliam que a fotografia tem potencial de prejudicar a imagem da Coreia do Norte, é deletada”, explica. Quer um exemplo? Se você inadvertidamente “cortou a cabeça” da estátua do Grande Líder ao fotografá-la, esqueça: a imagem será apagada. E fim de papo.

 

Fuga no Afeganistão

Acervo Pessoal/Reprodução

Nome: Thomaz Napoleão
Origem: Brasil
Idade: 33 anos
Profissão: Diplomata
Países visitados: 85
Destinos marcantes: Líbia e Afeganistão

Em caso de emergência, quebre o vidro. Ou diga que é do Brasil. O truque, garante Thomaz, costuma dar certo. “Nossa imagem no exterior é muito positiva. Somos vistos como um povo alegre, tolerante, que não se envolve em conflitos nem ameaça ninguém”, detalha. É, pode ser. Mas, como toda regra tem exceção, a tática não surtiu muito efeito no Afeganistão.

Diplomata desde 2009, Napoleão já viajou para lá cinco vezes: três a trabalho e duas a lazer. Se a viagem é diplomática, ele se hospeda em grandes hotéis, como o Serena, em Cabul, que conta com um forte esquema de segurança. Se o passeio é turístico, prefere pequenas hospedarias. “Por serem mais discretas, dificilmente são alvo de atentados”, explica.

Os cuidados, porém, não param por aí: vestir-se e agir de maneira discreta, aprender algumas frases do idioma local e manter atenção redobrada, principalmente em lugares que podem ser alvos de atentados.

Parte do atrativo da viagem está na dificuldade de chegar lá.

Thomaz Napoleão

Por medida de segurança, além dos habituais guarda-costas, Napoleão contrata, também, um motorista, que saiba como dirigir em situações de emergência, e um guia-intérprete, que conheça como ninguém a cultura local. Foi um desses intrépidos motoristas, aliás, que salvou Napoleão de sua pior enrascada no Afeganistão. Ele e um amigo, com as tradicionais vestes afegãs (shalwar kameez), resolveram assistir a uma partida de buzhashi na região de Herat – a mesma onde o comboio da Hinterland Travel foi atacado em 2016.

Bastante popular na Ásia, o buzhashi é uma espécie de polo macabro – em vez de bola, os afegãos usam a carcaça decapitada de uma ovelha. Volta e meia, um jogador (chapandaz), cavalo ou até mesmo espectador morre na partida. “É fascinante, mas brutal”, define.

E eis que, do nada, os afegãos passaram a ameaçar os brasileiros. “Foi uma situação tensa e confusa. Acredito que fomos hostilizados porque estávamos fotografando um ritual afegão sem pedir permissão. Fomos salvos pelo motorista. Rapidamente, entramos no carro e nos distanciamos de lá”, recorda.

Passado o susto, Napoleão rasga elogios ao país. “O Afeganistão tem uma cultura rica e sofisticada. Não merece ser resumido a estereótipos, como ‘ninho de fundamentalistas’.” Napoleão também pensa em, um dia, visitar a Síria. “Embora seja um país belíssimo, não oferece condições de segurança no momento”, diz.

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