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5 mitos sobre o 5G

Ele é um grande avanço, que vai transformar a internet móvel. Mas também vem cercado por alguns mal-entendidos – incluindo teorias conspiratórias sem pé nem cabeça. Veja.

Por Bruno Garattoni 15 jun 2022, 07h42

AA telefonia celular de quinta geração, ou 5G, finalmente está começando a se tornar realidade no Brasil. No fim do ano passado, o Ministério das Comunicações leiloou (por R$ 6,8 bilhões) as licenças para operar o novo serviço. Elas foram arrematadas pelas operadoras Vivo, Claro e Tim – que já oferecem os primeiros serviços e planos com a nova tecnologia. Ela promete três grandes vantagens em relação ao 4G.

É em média 10 vezes mais veloz, suporta até 10 vezes mais aparelhos conectados em cada antena (o que ajuda a evitar congestionamentos quando há muitas pessoas usando a rede em um mesmo lugar ao mesmo tempo, como no estádio durante um jogo de futebol) e sua latência – o tempo que a rede demora para receber, processar e retransmitir os dados – é 50 vezes menor.

Isso vai melhorar a experiência de uso dos smartphones e também abrirá espaço para cenários mais exóticos, como a chamada “internet das coisas” (em que milhões de eletrodomésticos, lâmpadas, fechaduras, elevadores, semáforos e sensores de todos os tipos serão conectados à rede). O 5G é um belo avanço. Mas também está rodeado por mitos persistentes. Vamos a eles.

Mito 1: o 5G sempre é mais rápido

No fim de 2020, quando a operadora americana Verizon lançou seu serviço 5G nos Estados Unidos, os primeiros testes tiveram resultados surpreendentes. Em muitos locais e situações, a conexão 5G da empresa não era muito mais rápida do que a 4G – e, às vezes, chegava até a ser mais lenta.

Isso acontecia porque a Verizon estava usando uma tecnologia de rede chamada Dynamic Spectrum Sharing (DSS). Ela adota os novos padrões de empacotamento de dados, do padrão 5G. Mas opera nas mesmas frequências de transmissão das redes 4G, e disputa espaço com elas. Por isso, sua performance às vezes decepciona.

Conforme a Verizon foi montando e atualizando sua rede 5G, ela foi reduzindo as áreas atendidas pelo DSS e migrando para dois outros tipos de conexão: sub-7 (que opera em frequências de até 7 GHz) e mmWave (acima de 24 GHz). Eles é que são o 5G “de verdade”. Mas exigem a instalação de novas antenas, o que demanda tempo e dinheiro. E somente o mmWave consegue alcançar a velocidade máxima possível com o 5G.

O problema: como a frequência das ondas mmWave é muito alta, elas são bem curtinhas (têm aproximadamente 10 milímetros, daí seu nome), e por isso perdem bastante força ao atravessar paredes e obstáculos grossos. Por esse motivo, o alcance dos transmissores mmWave é relativamente pequeno.

O resultado é que, na maior parte do tempo, os smartphones 5G usam os modos sub-7 ou DSS, e raramente conseguem se conectar via mmWave (o celular alterna automaticamente entre os três tipos de 5G, ou para o modo 4G, conforme o sinal que estiver melhor). No Brasil, é a mesma coisa. Se você comprar um smartphone 5G, ele vai navegar com o DSS ou o sub-7 na maior parte do tempo. E a conexão poderá não ter toda a velocidade que você imagina.

Em junho de 2021, a consultoria americana Tutela testou as redes da Verizon e de suas concorrentes AT&T e T-Mobile, e concluiu: “usuários que fizerem upgrade para um aparelho 5G dificilmente notarão um ganho de performance usando os apps mais populares, na maior parte do tempo”.

Isso também porque, na prática, a velocidade do celular pode ser limitada pelo processador (CPU) dele, e não pela rede. Isso é especialmente visível quando você está navegando na internet: renderizar as páginas HTML modernas, que têm um montão de códigos JavaScript, rastreadores, elementos dinâmicos e outros penduricalhos, exige bastante poder de processamento. É por isso que abrir sites pesados – como os portais de internet – não é tão mais rápido via Wi-Fi do que com o velho 4G.

Nessa situação (e em várias outras, como abrir o Google Maps ou o Waze), a CPU é o fator limitante. E o 5G não tem como mudar isso. O gargalo só será removido ao longo dos próximos anos, com o surgimento de smartphones mais potentes.

Hoje, a rapidez do 5G é mais perceptível quando você vai baixar coisas – como uma playlist do Spotify ou uma temporada de série do Netflix para ver offline, por exemplo. Como tem mais capacidade, o 5G também tende a oscilar menos; aos poucos, poderá ir erradicando os engasgos típicos da internet móvel.

Ilustração de uma torre de telefonia com um cadeado preso em si.
Felipe Mayerle/Superinteressante

Mito 2: o 5G é ilimitado

A velocidade máxima teórica da conexão 5G, só alcançável em testes de laboratório, é 10 Gbps. Na vida real, fica em torno de 1 Gbps. É menos, mas ainda assim uma barbaridade: está muito, mas muito acima do que uma pessoa comum precisa ter no smartphone (ou mesmo numa conexão doméstica). Você dificilmente conseguirá, na prática, usar tudo isso. Portanto, as redes 5G tendem a trabalhar com muita capacidade ociosa.

Tecnicamente, isso permitiria abandonar o grande vilão da internet móvel: os limites de tráfego (número de gigabytes que cada pessoa tem direito a baixar/enviar por mês). Eles foram criados, nas redes 4G e anteriores, para controlar o uso e evitar congestionamentos.

Mas também se tornaram uma fonte de receita para as operadoras, que vendem pacotes mais caros a quem quiser mais GBs. Enquanto na internet residencial os planos são definidos pela velocidade, na internet móvel o parâmetro é a quantidade de dados.

E isso dificilmente vai mudar. Nos Estados Unidos, a Verizon até lançou um plano 5G com tráfego ilimitado: quando você estava conectado no modo mmWave, podia baixar e receber dados à vontade.

Ou seja, o 5G podia até substituir a sua internet residencial (se a sua casa fosse coberta pelo sinal mmWave). Bastava colocar o smartphone no modo “hotspot portátil”, que compartilha a internet via Wi-Fi com outros dispositivos. Mas, em janeiro de 2022, a empresa acabou com a festa, e colocou um teto de 50 GB mensais – o que passar é cobrado à parte.

No Brasil, as operadoras impõem limites às conexões 5G. Na maioria dos casos, são os mesmos dos planos 4G.

Ilustração de mãos segurando um binóculo.
Felipe Mayerle/Superinteressante
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Mito 3: Ele tem espionagem da China

A ideia ganhou força a partir de 2020, quando os Estados Unidos impuseram sanções econômicas à empresa chinesa Huawei. Ela foi proibida de comprar chips americanos – e, também, de exportar seus aparelhos de rede para as operadoras dos EUA. “Nós não queremos os equipamentos deles nos Estados Unidos, pois eles nos espionam”, disse o então presidente Donald Trump.

Os EUA nunca apresentaram provas de que os produtos da Huawei realmente tivessem backdoors (portas de acesso secretas, para espionagem), mas já havia um mal-estar sobre o tema. Em 2018, a agência Bloomberg publicou uma reportagem, citando fontes anônimas do governo dos EUA, afirmando que a empresa chinesa Supermicro, fabricante de placas-mãe para servidor, havia fornecido componentes “grampeados” para quase 30 empresas americanas, incluindo Apple e Amazon. Isso também não foi provado, mas azedou as relações entre os países.

Os equipamentos da Huawei podem ou não conter funções ocultas de espionagem – mas isso também pode acontecer com os produtos feitos em qualquer outro país. Em 2015, o site Wikileaks publicou documentos confidenciais da NSA, a superagência de espionagem americana, mostrando que ela havia grampeado os telefones da então presidente Dilma Rousseff e de 28 ministros e assessores. Detalhe: a lista incluía o telefone via satélite Inmarsat, produzido nos EUA, que Dilma usava no avião presidencial – e era criptografado.

Todo hardware ou software, feito em qualquer país, pode conter backdoors. O único jeito de garantir que não tem é inspecionar o código-fonte dos softwares (o que nem sempre é possível, pois ele não é liberado para análise) e fiscalizar todo o processo de fabricação dos chips. Nesse aspecto, as redes 5G não têm rigorosamente nada de diferente. 

Se a Huawei quiser colocar backdoors, tem como fazer isso há um tempão, não só no 5G. A maioria das operadoras de celular, em todo o mundo, usa os aparelhos da empresa em suas redes 4G – ela é a líder global em equipamentos de telecom, com 28,7% do mercado.

Ilustração de uma ampulheta e fita de DNA.
Felipe Mayerle/Superinteressante

Mito 4: ele altera o DNA ou dá câncer

Mesmo soando bem absurdas, as duas afirmações acima circularam bastante na internet nos últimos anos – em 2020 houve até quem fosse além, dizendo que o Sars-CoV-2 havia surgido após sofrer mutações geradas pelas ondas de alta frequência das antenas 5G. Nada disso tem o menor fundamento, e normalmente nem valeria comentar – mas vale, porque a ciência das ondas eletromagnéticas é interessante.

As ondas usadas em telecomunicações, como a transmissão dos sinais de celular, não são ionizantes. Isso significa que elas não possuem energia suficiente para arrancar elétrons dos átomos do corpo – e transformá-los em átomos eletricamente desequilibrados, ou íons. Portanto, essas ondas não têm como causar mutações genéticas ou danos aos tecidos do corpo.

Elas são diferentes da radiação ionizante, que é liberada na explosão de uma bomba atômica (ou pode vazar após um acidente numa usina nuclear). A radiação ionizante é forte o bastante para arrancar elétrons dos nossos átomos.

Com isso, eles viram íons – que são instáveis, e rapidamente se ligam a outros átomos. É essa recombinação caótica que provoca mutações genéticas, câncer ou mesmo danos imediatos aos tecidos do organismo. Os exames de raio X e tomografia computadorizada emitem pequenas quantidades de radiação ionizante. É por isso, e para reduzir o risco de efeitos adversos, que só devem ser feitos quando realmente necessários.

Ilustração de diversos elementos de telefonia e internet interligados. Entre eles, uma mulher, de perfil, segura um celular na mão.
Felipe Mayerle/Superinteressante

Mito 5: ele ainda vai demorar

O Brasil está entrando com atraso considerável na era 5G: a Europa e os Estados Unidos ativaram suas primeiras redes do tipo em 2019. Mas o cronograma da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que começou a valer quando as licenças de operação foram leiloadas, no fim do ano passado, é surpreendentemente rápido.

Segundo as regras estipuladas pela agência, as operadoras deverão fornecer 5G em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal a partir de  29 de setembro deste ano. A data original, que era 31 de julho, foi adiada devido a atraso na importação dos equipamentos. Mesmo assim, setembro é logo ali.   

Como nada é perfeito, há uma pegadinha. A norma da Anatel exige “no mínimo 1 antena para cada 100 mil habitantes”. Isso significa que em São Paulo, por exemplo, cada operadora precisará ter 120 antenas 5G funcionando a partir de 29 de setembro. Mas isso não é suficiente para cobrir a cidade com total velocidade e qualidade de conexão. Vamos precisar de bem mais antenas.

Tanto é assim que a própria Anatel vai aumentando sua exigência com o tempo. A partir de julho de 2023, as operadoras deverão ter 1 antena para cada 50 mil habitantes das capitais. Em 2024, uma a cada 30 mil.

Na prática, a construção das redes 5G poderá se estender até julho de 2029, quando as operadoras serão obrigadas a ter pelo menos uma antena 5G a cada 15 mil habitantes das capitais. Quase sete vezes mais do que agora.

A Anatel não determina como as antenas devem ser distribuídas dentro das cidades (nem se elas irão operar no modo sub-7 ou no modo mmWave, que é mais rápido mas tem menos alcance).

Então, o que deve acontecer é o seguinte: inicialmente, as operadoras vão concentrar as torres 5G nos locais onde há mais demanda e poder aquisitivo, ou seja, os polos econômicos das cidades e os bairros mais centrais. Lembra quando você comprou o seu primeiro celular de quarta geração, mas ele vivia voltando para o modo 3G porque a cobertura 4G ainda era insuficiente?

Deve acontecer a mesma coisa com o 5G. Mas as lacunas irão sendo fechadas com o tempo. E, quando você cair numa delas, terá o sinal 4G – que, ao contrário do antecessor 3G, não costuma deixar ninguém na mão.

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