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A água nasce na superfície das estrelas

Como se forma a água no Universo

Onde se escondem as verdadeiras fontes de água no céu? Existem evidências simples de que a água não se formou aqui, mas veio já pronta, como substância, de outras regiões da Galáxia. As sondas espaciais revelaram que ela é um constituinte importante dos corpos planetários (SUPERINTERESSANTE nº. 64) e que é tanto mais abundante quanto mais longe do centro do sistema. Os planetas próximos ao Sol são ressecados pela sua luz e os mais distantes ficam preservados, como fósseis. A água já estava presente na nebulosa que deu origem ao sistema solar, em forma de gelo. Nesse estado, ela é muito difícil de ser detectada. Existe uma situação, entretanto, em que ela se revela como uma poderosa fonte de luz. No momento em que se forma uma estrela dentro da nuvem interestelar, o gelo da poeira que a circunda se derrete e a água é transformada em vapor. Em condições especiais, a luz da estrela central transforma o gás num emissor de luz laser – ou seja, luz coerente, de grande densidade de energia. O laser de vapor de água não é na faixa da luz visível, mas de microondas, por isso recebe o nome de MASER. São conhecidos muitos masers de água espalhados pelo céu. Um dos mais conhecidos, na grande Nebulosa de Orion, estava sendo observado por Zulema Abraham no rádio-observatório de Itapetinga, em 1969, quando entrou em violenta erupção. Ele atingiu níveis altíssimos de irradiação em 1984 e agora está voltando ao normal.

O evento foi acompanhado por observatórios do mundo inteiro e mapeado em detalhe. A emissão de maser vem de várias fontes compactas que giram em volta de uma estrela, obedecendo às leis de Kepler, como ocorre com os planetas. O cenário é tão coerente que restam poucas dúvidas de que se trata de um sistema planetário em formação. Podemos, portanto, imaginar que os planetas, hoje opacos, tenham sido poderosas fontes de radiação MASER.

A água que fica longe das estrelas não recebe energia suficiente para ser revelada pelos telescópios. A Astrofísica desenvolveu técnicas especiais para se diagnosticarem gases. Nos últimos anos, conseguiu revelar que as nuvens interestelares, como a de Orion ou Ofiúco, contêm mais de cinqüenta tipos de moléculas, incluindo H20. Há evidências, entretanto, de que a maior parte da água não se encontra na forma de gás, mas congelada por intenso frio no interior dos grãos de poeira interestelar. É possível calcular a massa das grandes nuvens de poeira porque elas avermelham a luz das estrelas próximas e também porque emitem radiação infravermelha: a intensidade desses fenômenos permite deduzir a massa. Verifica-se que até 10% de uma nuvem molecular típica é água, e que esta alcança uma massa de 100 vezes a do Sol. Perto disso, a já fantástica quantidade de água do sistema solar fica reduzida a uma gotícula.

As nuvens moleculares se espalham pelo disco da Galáxia, concentrando-se mais nos braços espirais. Essa pizza, de 100 000 anos-luz de diâmetro por 1 000 de espessura, contém grandes reservatórios de água e extensos desertos. O montante total de água das nuvens moleculares é avaliado em cerca de 5 milhões de massas solares. Esse número contém grande imprecisão, mas representa uma primeira tentativa, que contou com o auxílio de renomados especialistas internacionais em poeira interestelar, em sua recente visita ao Instituto Astronômico e Geofísico de São Paulo. Mas onde se encontram as verdadeiras fontes de água do Universo?

As atmosferas das estrelas frias – as supergigantes vermelhas, como Betelgeuse e Aldebaran, em especial – são as grandes fontes de moléculas do espaço. Elas constituem riquíssimos laboratórios de química, produzindo grande variedade de cadeias de átomos, inclusive o H20. Depois, encapsulam uma parte dessas moléculas em forma de grãos de poeira e assim criam matéria sólida, semente de futuros planetas. É dessa fonte estelar que nós e outras hipotéticas civilizações galácticas bebemos nossa água.