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A reforma de Marte

Muitos cientistas pensam que seria possível moldar seus recursos naturais e plantar as sementes da evolução em sua superfície - de modo a torná-lo habitável para o homem dentro de algumas décadas.

Marte exerce inegável fascínio sobre homens desde que estes entenderam que os planetas não eram corpos inacessíveis, feitos de alguma substancia etérea e impalpável, a quintessência. Nos últimos anos, porem, a atenção dedicada a esse mundo distante vem se tornando uma verdadeira obsessão. Talvez porque se tenha aprendido tanto sobre a origem e a constituição do sistema solar, multiplicam-se as idéias para vencer os 56 milhões de quilômetros que separam a terra de marte e, de alguma forma, colonizá-lo. Um dos projetos mais ousados e ao mesmo tempo mais cativante propõe nada menos que reconstruir o planeta- isto é, moldar seus recursos naturais, a ponto de torná-lo mesmo hostil à sobrevivência do homem.

É o que se costuma denominar um sonho impossível- uma utopia como muitas outras que, ao longo de uma historia, a humanidade empreendeu, é o que pensa o poeta e ensaista americano Frederick Turner, um dos muitos que defendem a idéia de plantar a vida em Marte, a seguir, ele examina em detalhes os meios científicos e tecnológicos necessários para tanto. Sua opinião, no entanto, não se resume aos problemas técnicos: ele raciocina também na qualidade do professor de Artes e Humanidades da Universidade do Texas, Estados Unidos. E imagina que a transformação de Marte pode ganhar o sentido de uma missão: algo que entusiasme a humanidade acima dos valores pessoais ou extenso poema épivo- Genesis-, ainda não traduzido para o português. “ Precisamos de um projeto eu nos permita buscar a verdade e a beleza em grande escala.”

Vamos imaginar que pudéssemos vir a Marte e transformá-lo em nosso lar. Não apenas dos seres humanos, pois se o movimento ecológico no ensinou alguma coisa é que não podemos existir isoldos de outras espécies. Portanto, para fazer de Marteum lugar para os seres humanos, é preciso fazê-lo, também, um lugar para plantas e animais. O que eu estou propondo é que comecemos a pensar seriamente em colonizar Marte como um novo mundo: transformá-lo num lugar onde os descendentes da vida na terra possam florescer. Não se trata de fantasia. A possibilidade de levar a vida a Marte está sendo estudada por ciência de todo o mundo A NASA, agencia espacial americana, planeja criar grandes instalações estanques para abrigar seres humanos, e nas quais seriam reciclados o ar, a água e os nutrientes. JamesLovelock, um destacado biólogo inglês, há vários anos escreveu um livro em parceria com o divulgador cientifico Michael Allaby, intitulado the Greening of Mars ( O florescimento de Marte). Esse livro propunha dar a Marte uma atmosfera de dióxido de carbono, suficientemente espessa para possibilitar a agricultura. É claro que Marte não seria arborizada de hoje para amanha, mas há quem acredite que a transformação poderia ocorrer num tempo surpreendentemente pequeno. O astrônomo americano Carl Sagan, por exemplo, afirma que ela pode estar bem adiantada ao sinal de apenas trinta anos.

Eu realmente acredito, e cada vez mais, numa metamorfose biológica capaz de tornar esse planeta habitável aos seres humanos. Minha confiança deve-se, em parte, a recente revolução nos nossos conhecimentos sobre a evolução da terra primitiva. A atmosfera original de nosso planeta seria altamente letal para os organismos vivos contemporâneos, pois quase não continha oxigênio livre, isto é, disponível a respiração. O ar compunha-se, em grande parte, de substâncias como o àcido sulfúrico, metano e amônia. Mas os primeiros organismos vivos não precisavam de oxigênio e, na verdade, seriam envenenados se expostos a ele.

Apesar disso, muitos organismos primitivos excretavam oxigênio como refugo- em vez de expelir dióxido de carbono, como nós e a nossa tecnologia fazemos. Durante algum tempo, o oxigênio assim criado era retirado da atmosfera por “sorvedouros” naturais, como os depósitos de minérios metálicos, por exemplo, que absorvem esse gás para formar oxido. O hidrogênio gasoso também combinava-se com o oxigênio para formar água: foi dessa maneira, inclusive, que surgiu a maior parte da água dos oceanos terrestres. Mas, quando a capacidade desses sorvedouros se exauriu, a nova atmosfera de oxigênio envenenou os velhos organismos.

Entre as formas de vida restantes estavam microorganismos chamados cianobactérias, que não só podiam suportar a presença do oxigênio, mas melhor que isso, podiam utilizá-lo como uma fonte mais eficiente de energia. O oxigênio, de fato, seria usado para fazer a fotossíntese, para produzir diversas modalidades de açúcar e, mais tarde, pra alimentar as extravagantes reações químicas responsáveis pelo metabolismo dos animais avançados. Com esta mudança, veio a era dos organismos eucariotas, que promoveram a organização multicelular e a reprodução sexual. Se essa transformação pode ocorrer na Terra por meios biológicos, não poderia acontecer também em Marte?

Pode-se argumentar que esse processo levou centenas de milhões de anos aqui na Terra. Mas nosso planeta precisou contar com os organismos primitivos disponíveis durante as fazes iniciais da evolução, e hoje se poderia lançar Mao de uma enorme riqueza de processos químicos e metabólicos encontrados nos organismos. Os céticos poderiam insistir, dizendo que nenhum organismo terrestre contemporâneo sobreviveria muito tempo em Marte. Primeiro, porque sua atmosfera, composta por dióxido de carbono, tem uma pressão mais de 100 vezes menos que a da Terra. Tanto que a água não poderia permanecer no estado liquido. Em segundo lugar, a delgada atmosfera e o fraco campo magnético do planeta permitem que ele seja bombardeado pela radiação ultravioleta, letal à vida. Alem disso, há o problema da frigida temperatura media desse mundo, igual a menos 28 graus Celsius.

A resposta é que certos organismos terrestres podem manipular condições quase tão severas como aquelas—ou, pelo menos podem enfrentar uma delas de cada vez. Em bloco, os rigores marcianos são imbatíveis, mas talvez se possam somar as características genéticas responsáveis pela resistência dos vários seres vivos. Esses traços hereditários seriam transferidos de um organismo para outro por meio da engenharia genética. A questão da água, por sua vez, poderia ser resolvida a partir das pequenas reservas de vapor existentes na atmosfera e conhecidas desde o pouso da nave americana Viking 1, em meados década de 70. Analises detalhadas da atmosfera indicam que a pressão atmosférica em Marte já foi alta o bastante para liquefazer a água. Um dos sinais disso são os canais encontrados em sua espécie, que tem o aspecto de rios cujos leitos secaram. Aparentemente, no passado, a água fria sobre o planeta e pode vir a fluir mais uma vez.

Cannion Valles Marineris, de 160 km ( centro): sinal de água corrente

Bombardeio com meteoros artificiais

Um fato essencial é a cor da superfície marciana: se o solo ficar mais escuro, refletira menos luz e elevara a temperatura do planeta. O calor, em seguida, libertaria gases atualmente congelados e contribuiria para aumentar a pressão do ar, facilitando o livre curso da água sobre o solo. Isso pode ser conseguido por meio de corantes, nuvens de pó ou organismos vivos pigmentados, que cobririam a superfície em combinação com um bombardeio artificial de meteoros. De acordo com o especialista australiano Robert Parke a matéria prima para o projeto de colonização pode ser obtida na lua marciana Fobos.

Esse satélite, segundo a hipótese mais bem aceita, atualmente, é coberto por uma camada de substâncias escuras, com centenas de metros de profundidade. Tais substâncias na forma de grandes blocos, poderiam ser atiradas sobre Marte, por propulsores de energia solar. Sua queda teria conseqüências importantes, pois libertaria água congelada, amônia e sedimentos orgânicos contidos nos solos mais profundos de Fobos. Na verdade, os blocos agiriam como meteoros e seu impacto vaporizaria água e transformaria sedimentos em espessas nuvens de pó. Alem disso, opor serem escura, as substancias de Fobos tem capacidade de absorver vinte vezes mais calor do que as calotas polares marcianas.

Ao cair sobre essas regiões, portanto, ajudariam a aquecê-las e a liberar água. O impacto dos meteoros artificiais também aqueceria o manto do planeta- e isso talvez faça ressuscitar o extinto Vulcão Olympus Mons, o mais alto do sistema solar, com21 quilômetros de altura. Suas erupções adicionariam mais gases a atmosfera. Muitas das mudanças necessárias em Marte poderiam surgir pelo emprego da nanotecnologia, por meio da qual podem-se forjar estruturas menos que microscópicas na superfície dos metais. Os nanotecnólogos seriam incumbidos de projetar microfábricas químicas para extrair minerais e gases úteis do solo de Marte.

A lua gelada de Saturno, Pandora, sugere soluções ainda mais radicais. Elas tem uma massa de cerca de 5 000 trilhões de toneladas mas poderia ser inteiramente transportada para Marte. A solução seria usar metade da massa como combustível para impulsionar a outra metade na direção do planeta vermelho. Mesmo se apenas uma fração dos gases liberados por tal por tal impacto permanecesse na atmosfera marciana, seria o suficiente para aumentar consideravelmente sua pressão e temperatura e enche-la de vida. Trata-se de uma idéia tão ousada, que vale a pena avançar um passo a mais: por que não pensar num meio de apressar o surgimento da vida em Marte? Na Terra, a natureza teve bilhões de anos para testar diferentes formas de vida em termos de suas possibilidades de sobrevivência. Vamos supor, no entanto, que se possa criar um ambiente controlado, análogo ao de Marte, de tal modo que as formas marcianas de vida pudessem engendrar-se a si mesma. Os limites do metabolismo impossibilitam isto, dirão os céticos, mas os limites metabólicos não impedem que a evolução seja simulada em computador. Os biólogos, de fato, já estão tentando exprimir a genética dos organismos na forma de programas de computador.

O próximo estagio, então, será reunir estes programas num ambiente igualmente simulado.
Dessa maneira, os organismos poderiam competir entre si e adaptar-se ao ambiente, mas isso dentro de um processo evolutivo eletrônico, muito mais rápido que o natural. Aos poucos, as condições poderiam ser modificadas para que se fizesse a transição entre um ambiente terráqueo e o de Marte. A luta pela sobrevivência selecionaria determinadas características dos organismos, cada vez mais velozmente, de geração em geração. Assim, os genes que codificassem essas característica poderiam ser cuidadosamente registrados.
Mais tarde, esse conhecimento seria usado para guiar a criação de organismos reais, por meio da engenharia genética. Surgiriam, assim, os organismos adaptados para viver em Marte. Pode-se questionar se não demoraria enorme tempo para propagá-los à superfície marciana, mas a estonteante matemática da reprodução joga pesado a favor dos jardineiros planetários. Basta ver que as bactérias normais dividem-se em duas em menos de vinte minutos.mas vamos esquecer esse numero: digamos que as bactérias criadas pela engenharia genética se reproduzam à taxa de apenas dez duplicações por dia. Mesmo assim, 1 tonelada de bactérias bem distribuídas numa área rica em nutrientes, e sem competição biológica, poderia transformar-se em 1 000 toneladas ao fim de um único dia. Em meros cinco dias, se não houver carência de nutrientes, essa massa aproximar-se-ia do espantoso numero de 100 trilhões de toneladas.

Semear o bolo com bactéria de micróbios

E isso seria suficiente para cobrir com bactérias, ate a altura de 1 metro, toda a superfície do planeta, 146 milhões de quilômetros quadrados. É certo que o crescimento populacional não é tão simples, mas limitado pelas dificuldades de acesso aos nutrientes e fontes energéticas, bem como pelas variações locais desfavoráveis de temperatura, pressão e outros fatores, alguns dos quais determinados pelo próprio crescimento bacteriano. O que eu estou tentando mostrar, no entanto, é o poder dos instrumentos biológicos à disposição dos colonizadores planetários. Uma única geração de espécies bacterianas não seria, por certo, suficiente: seria preciso que a primeira geração criasse as condições adequadas para a segunda, esta, para a terceira, e assim por diante. Nessa sequencia, o primeiro objetivo seja extrair dióxido de carbono da atmosfera e do rochoso.

O motivo é que esse gás retém calor (ele é responsável pelo chamado efeito estufa, que acredita-se, vem elevando a temperatura da Terra). A certa altura, seria introduzidas cianobacterias produtoras de oxigênio e também bactérias produtoras d nitrogênio. Junto com a água, liquefeita pelo calor adicional, essas substancias constituiriam um ambiente parecido com o da Terra.

Logo, a luz solar começaria a moléculas de oxigênio nas partes mais altas da atmosfera, criando uma camada de ozônio capaz de proteger o planeta contra a radiação ultravioleta. A água se acumularia em mares rasosm nos quais se poderiam semear corais. Por meio deles é possível estabelecer um sistema de controle de gás carbônico, pois absorvem esse gás. Após algum tempo, poderiam ser introduzidos fungos rústicos e vegetais, e a seguir gramíneas e plantas mais sofisticadas, juntamente com insetos para polinizá-las. Finalmente, depois dos animais de grande porte, viriam os seres humanos- os novos colonos, com uma nova perspectiva para a humanidade.
Minúsculo sol no céu violeta

Em apenas quarenta anos, o trabalho de jardinagem planetária imaginado pelo escritor Frederick Turner terá tornado Marte um agradável lugar. Postada em algum ponto desse novo mundo,nessa época, uma pessoa veria, por exemplo, vastos chapadões cobertos de florestas. Altas e recortadas por grandes falha e precipícios de fortes tons ocres e castanhos, essas massas rochosas perdem estatura gradualmente, ate cederem lugar a um oceano de aspecto peculiar. Suas ondas, azuis na direção em que bate a luz de um minúsculo Sol matinal, adquirem um tom de rosa profundo do lado da sombra. No céu violáceo, mais adiante, o visitante pode admirar as paredes gigantescas das Crateras de Pandoras, cridas pelo homem. Esse imaginário acidente geográfico surgiria após o impacto de uma antiga lua de Saturno desviava de sua orbita e arremessada à superfície para alterar as condições marcianas.

Em alguns pontos, a cor do céu tende ao púrpura. A luz pálida do Sol ilumina chapadões de menor porte onde se vêem penhascos nevados e pequenos bosques. A distância, suas arvores parecem comuns, mas, alem do tamanho excepcional, tem troncos prateados e folhas cor de esmeralda. Por uma ravina, cachoeiras despenam com extrema lentidão e, sibilando, transformam-se em vapor ao atingir as rochas embaixo. Sobre os montes, começam a formar-se nuvens altas e encapeladas. A luminosidade, nesse mundo estranhamente confortável, é como a de um crepúsculo bem claro, ou como o cálido brilho do meio-dia, no inverno. O planeta tem o ar embaçado e um característico matiz rosado. O horizonte, muito próximo, confere as paisagens um aspecto intimo, ainda mais acentuado pela poeira e o vapor artificialmente introduzidos na atmosfera.

Mundo vermelho dos homenzinhos verdes

A bela cor vermelha de Marte associada ao sangue, talvez explique por que gregos e romanos o tinham na conta de deus da guerra e pode, também, ter ajudado a transformá-lo em um mito. O termo extraterrestres por muito tempo,foi sinônimo de marciano. Fixou-se, assim, a figura dos conhecidos “homenzinhos verdes”, supostos habitantes de Marte. Em 1895, o astrônomo americano Percival Lowell expôs a teria de que certas linhas quase retas, recém-descobertas na superfícies marciana, eram canais construídos por uma raça inteligente, com o fim de obter água. Isso deve ter inspirado escritores como o americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) e o inglês H.G.Wells (1866-19460).

Surgiu, assim, a trepidante visão de um mundo em decadência, coberto por grandes desertos e esbatido por brisas rarefeitas onde sobrevivia antiqüíssima civilização. Em 1938, numa genial novela de radio- baseada na historia de Well. A guerra dos mundo-, o americano Orson Welles (1915-1985) simulou a invasão da terra por marcianos, causando pânico na população. Mais recentemente, o mesmo mito seria explorado pelos escritores de ficção cientifica, como nos admiráveis contos americano Ray Bradbury Noites marcianas. Mas, desde a década de 70, o Ito da vida em Marte esboroou, pois as naves americanas Viking pousaram em sua superfície e fizeram experiências indicativas de que o planeta seta biologicamente morto.

No entanto, imaginação popular não especulou sem motivos. Marte, mais do que qualquer outro planeta, é bastante parecido com a Terra. Esta apenas 50% mais distante do Sol do que a Terra e seu ano dura aproximadamente o dobro do ano terrestre. O dia tem a mesma duração, na pratica. Alem disso, como a inclinação do eixo polar dos dois planetas é quase a mesma, da origem ao mesmo tipo de estações- primavera, verão, outono e inverno.

Frederick Turner