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A um passo do infinito

A nave Voyager 1 está prestes a sair do Sistema Solar. Será o primeiro engenho humano a rumar para as estrelas.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h32 - Publicado em 31 jan 1999, 22h00

Thereza Venturoli

Eram 20h45 do dia 5 de setembro de 1977, no Centro Espacial Kennedy, Flórida, Estados Unidos. O foguete Titan-Centauro mal começara a subir levando a Voyager 1 para sua missão longínqua quando os aparelhos informaram que os motores estavam queimando mais combustível do que o devido. Muito mais. A sonda espacial – enviada para investigar os planetas Júpiter e Saturno e os confins do Sistema Solar – corria o risco de não escapar da gravidade terrestre e jamais acertar a rota.

O medo invadiu a sala de controle. “Lembro-me bem”, rememora o físico Charles Kolhase, que planejou a longa trajetória do vôo da Voyager 1. “Não havia nada a fazer a não ser esperar e torcer. Foi uma angústia danada”, suspira. “Depois de 45 minutos, quando restava propelente para apenas mais 3,5 segundos de subida, a Voyager atingiu a órbita correta. Três segundos e meio!”

Em 22 anos de missão, foi o único susto. Agora, enquanto Kolhase e quase toda a equipe da Nasa que participou do lançamento já estão aposentados, a Voyager 1 continua a funcionar. Sem problemas. Jamais algum engenho humano foi tão longe. A nave está a 11 bilhões de quilômetros da Terra. Ou seja, já viajou 28 000 vezes a distância entre a Terra e a Lua.

Em 1979 ela passou por Júpiter e, em 1980, por Saturno, dos quais enviou à Terra milhares de fotos impressionantes (veja acima). Suas câmeras fotográficas foram desligadas para poupar energia, já que nem haveria o que retratar na escuridão em que está. Mas ela continua a mandar, por rádio, dados inéditos sobre o ambiente que atravessa. “A cada dia, mergulhamos em regiões jamais observadas que não voltarão a ser visitadas tão cedo”, diz o engenheiro Ed Massey, que chefia, hoje, a missão.

A fronteira do nosso sistema planetário é um cenário cheio de emoções para físicos e astrônomos. É totalmente desconhecido. Nenhuma nave chegou lá. “Muitas vezes perco o sono, em casa, imaginando o vôo da Voyager”, diz o físico Alan Cummings, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Cummings foi um dos últimos a verificar os equipamentos antes do lançamento, naquele susto quase fatídico de 1977, e continua no projeto.

“Trabalhar com a Voyager 1 é como escalar uma montanha difícil”, define o engenheiro Ron Draper, que participou do desenho dos equipamentos. “A aventura faz a minha adrenalina correr. Essa máquina é a criação humana mais distante de casa.” E o mais incrível é que sua viagem não terá fim.

1. A partida

A Voyager 1 foi lançada em 1977. Agora, está a 11 bilhões de quilômetros da Terra. De onde ela se encontra, o Sol não passa de mais uma estrelinha no céu.

2. A 780 milhões de quilômetros

Quando sobrevoou Júpiter, em 1979, a sonda revelou aos cientistas que o maior planeta do Sistema Solar tem um tênue anel de poeira em torno do equador (abaixo).

3. A 1 bilhão de quilômetros

Em 1980, a nave viu que os anéis de Saturno são formados por 10 000 carreiras de pedaços de gelo, de densidade variada, girando em órbita do planeta.

4. A 6,4 bilhões de quilômetros

Em 14 de fevereiro de 1990, 500 milhões de quilômetros além da órbita de Plutão, a Voyager 1 fotografou a Terra pela última vez (abaixo). A faixa clara que aparece sobre o nosso planeta não é um dedo divino apontado para nós. É reflexo da luz solar na lente da câmera.

5. A 11 bilhões de quilômetros

Hoje, a Voyager 1 atravessa um ambiente carregado de partículas atômicas lançadas a velocidades supersônicas pelo Sol. São prótons e elétrons que constituem o chamado vento solar, que a sonda detecta e analisa com aparelhos ultra-sensíveis.

As partículas do vento solar têm 12 000 graus Celsius de temperatura. Mas, como são muito poucas e microscópicas – seis por centímetro cúbico –, não chegam a aquecer o ambiente.

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Um termômetro preso a esta antena mede a temperatura externa: 173 graus Celsius negativos. Os equipamentos só não congelam porque estão protegidos por aquecedores que os mantêm a 24 graus.

Os especialistas calculam que cerca de 100 microgrãos de poeira cósmica atingem a fuselagem da Voyager, por dia. Mas, como são muito pequenos – com um diâmetro cinqüenta vezes menor que a espessura de um fio de cabelo –, não representam risco nenhum.

A energia para os instrumetos vem de três geradores termonucleares movidos a plutônio. A radioatividade do material emite calor, que é transformado em eletricidade.

A qualquer momento, o caminho das estrelas

Onze bilhões de quilômetros da Terra é muito, muito, longe. Lá, a desolação é total, o silêncio ensurdecedor e o escuro absoluto. O Sol, 5 000 vezes menos brilhante do que sobre nossas cabeças, é apenas uma estrela entre milhões num céu constrangedor de tão imenso.

Esse terreno inóspito, entretanto, está repleto de matéria. São prótons e elétrons que escapam do Sol na forma de vento solar, a uma velocidade supersônica (veja ao lado). As partículas formam uma vasta bolha, a heliosfera – a esfera que delimita o campo de influência energética do Sol –, uma área tão grande que jamais foi medida. A principal missão da Voyager 1 hoje é investigar a quantidade, a velocidade, o limite e outras características das partículas que constituem a heliosfera.

Quando a sonda chegar à borda da bolha, terá atingido o lugar em que o vento solar perde a força. Aí é a heliopausa, a fronteira na qual a matéria lançada pelo Sol se perde entre outras partículas existentes no espaço interestelar.

Perdida, mas com remetente

Viajando a 62 000 quilômetros por hora, a Voyager 1 pode cruzar, a qualquer momento, esse limite remotíssimo e, por isso mesmo, impreciso. “Calculamos que ela vai entrar na área em que as partículas começam a ser freadas daqui a uns três anos”, diz Alan Cummings. “Mas a estimativa pode estar errada e a nave chegar lá amanhã. Ela é que vai nos dizer.”

Uma vez fora do Sistema Solar, continuará sua viagem solitária rumo ao nada. Os geradores de energia manterão os equipamentos aquecidos e funcionando sem problemas até o ano 2020. Depois disso, não haverá mais contato com a Terra.

Após a heliopausa, a próxima escala prevista ocorrerá daqui a 40 000 anos – quando ela já estiver desligada, fria e morta. Será quando passar a 16 trilhões de quilômetros de uma obscura estrela na Constelação da Ursa Menor. Tão obscura que ninguém se preocupou em dar-lhe um nome mais simpático do que a identificação burocrática AC+793888. Depois, não se sabe. Vai se perder no incógnito. Para sempre.

A menos que seja capturada por alienígenas. A Nasa embutiu na parede lateral da Voyager 1 um disco, idealizado pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996), com imagens e sons terráqueos (veja na página ao lado). Se algum ser inteligente encontrá-lo, poderá descobrir o endereço do remetente. Quer o homem ainda esteja por aqui, quer não.

Um projeto da década de 60

Breve história do nascimento de duas gêmeas.

O projeto Voyager foi idealizado, entre 1962 e 1965, para enviar sondas aos planetas gigantes do Sistema Solar e depois sair dele. A Voyager 1, que pesa 795 quilos, foi destacada para visitar Júpiter e Saturno, e sua irmã, a Voyager 2, recebeu a tarefa de vasculhar ainda mais longe, estudando Urano e Netuno. Apesar de a Voyager 2 ter sido lançada um mês antes que a 1, em agosto de 1977, seu passeio em torno dos planetas é maior e ela voa mais devagar. A 2 também vai deixar o Sistema Solar, só que mais lentamente e em outra direção. As duas sondas gêmeas custaram ao bolso dos americanos, ao todo, 865 milhões de dólares.

Nos confins do reino

Visto do lado de fora, o Sistema Solar é envolvido por partículas, lançadas pelo Sol, que formam uma vasta bolha de matéria.

1. O Sol lança matéria constantemente no espaço, na forma de vento solar. São elétrons e prótons que escapam da atmosfera da estrela, a chamada coroa.

2. As partículas percorrem o Sistema Solar à velocidade supersônica de 1,4 milhão de quilômetros por hora. E formam uma bolha de matéria que os astrônomos chamam de heliosfera.

3. O ambiente interestelar também contém matéria. São gases e grãos microscópicos de poeira que preenchem o espaço aparentemente vazio entre as estrelas.

4. Os astrônomos nunca viram, mas estimam que, em algum ponto distante, a matéria externa à heliosfera tromba com as partículas solares. Estas, então, são freadas para uma velocidade inferior à do som.

5. Aos poucos, as partículas viajam mais e mais lentamente, até se acumularem no limite da heliosfera, chamado heliopausa. Além desse limite, só há o espaço aberto, dominado pela matéria interestelar. A Voyager pode entrar nessa região a qualquer momento.

Mensagem para E.T.s

A quem interessar possa, um disco carrega informações sobre nós, os terráqueos.

“Paz e felicidade a todos.” A frase, em português do Brasil, é uma das mensagens que a Voyager 1 leva para o infinito, gravadas em 55 línguas num disco de cobre revestido de ouro. Além das saudações, há ainda informações sobre a origem da nave, 115 imagens do nosso planeta e 35 sons típicos do planeta Terra – como trovoadas, ronco de motores e 27 músicas étnicas, clássicas e populares. Entre elas, o rock Johnny B. Goode, interpretado por Chuck Berry. O E.T. que eventualmente interceptar a sonda terá que lidar com a antiga tecnologia fonográfica usada para gravar long-plays. Por via das dúvidas, a Nasa mandou uma agulha junto. O resto é problema deles.

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