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Casas do futuro , a cara da casa

Nossos lares serão moldados ao nosso corpo e às nossas idéias - e, se precisar, também andarão junto com a gente.

Cristina Ramalho

Daqui a uns 30 anos, se ainda existirem aquelas mocinhas que distribuem folhetos de apartamento nos semáforos, poderemos receber tentadoras ofertas de felicidade mais ou menos assim: condomínio de altíssimo padrão, paredes dobráveis, metragem ampliável em até quatro vezes, cômodos com formatos inacreditáveis – e que você mesmo pode escolher! Na ilustração – provavelmente uma telinha digital –, um casal colorido se movimenta ao lado da planta de um apartamento, desdobrável como uma sanfona. Ou, então, carregando uma casa que cabe na mala. O slogan deverá ser cheio de personalidade, daqueles que a gente se acostumou a ver nos anúncios de cigarro ou jeans: “Cada um na sua”.

Taí uma das inovações mais prováveis na moradia do futuro: a mobilidade. Que pode ser da porta para dentro, como nos apartamentos esticados/encolhidos, conforme o gosto do freguês, e na mobília de funções mutantes. Mas também mobilidade no sentido nômade do termo: casas que podem ser levadas para onde a gente quiser. Será uma variação mais elaborada das pré-fabricadas e, quem sabe, até mais divertida: algo como um Lego gigante. Se essa onda pegar, como alguns notáveis estão prevendo, o charme do negócio será empurrar as paredes para lá e para cá, transformar cama em mesa ou… trocar de paisagem a cada estação. A partir de componentes-padrão, comprados em grandes lojas e magazines, faremos nosso lar com a nossa cara e (bom, isso não vai mudar nunca) tão inconstante quanto os nossos desejos.

Os sujeitos que bolam a tecnologia de ponta já apostam nisso. No Massachusetts Institute of Technology (MIT) um laboratório vem desenvolvendo ferramentas que permitirão aos arquitetos manipularem estruturas totalmente modulares, prontinhas para montar. Outra equipe de cientistas pesquisa softwares para que a gente mesmo bote a mão na massa – ou melhor, nas estruturas –, projetando e construindo nossas próprias moradas. Na Inglaterra, Bernard Hunt, consultor do Royal Institute of British Architects, acredita, com certa poesia, que as casas corresponderão aos nossos sonhos. O sonho acabou? É só mudar a casa. Para facilitar, haverá um sistema de molduras (as estruturas) e painéis (as paredes), tudo de encaixe, feito em grandes fábricas, num processo similar à linha de montagem dos automóveis.

No Brasil, um fã dos esquemas modulares é o arquiteto Sidonio Porto, autor do projeto da Casa Inteligente exibida recentemente em São Paulo. Nela usou pouquíssima alvenaria, muito alumínio, grandes planos de vidro. Daqui a pouco tempo, Sidonio acredita, módulos e estruturas metálicas de titânio e plásticos ultra-resistentes (que podem ser montados e desmontados do jeito que a gente quer) substituirão as estáticas paredes de tijolo e cimento. “As pessoas mudam de acordo com a necessidade do momento e o esquema modular permite que o ambiente também seja modificado ”, diz Sidonio. Essa idéia de módulos flexíveis não é exatamente nova: gênios como Le Corbusier já falavam disso nos anos 20; Buckminster Fuller criou um famoso protótipo do gênero na década de 40; e outros nomes estrelados da arquitetura arriscaram as suas. O bacana dessa história é que a tecnologia está se aprimorando, assim como o conceito de mobilidade.

Os novos tempos prometem um glamourzinho extra: nossa expressão pessoal em tudo. Cada morador montará a casa a seu modo e depois vai salpicar nela as cerejas que quiser. É aquilo que os mais modernos chamam de customização – o mesmo que bordar um retalho no jeans ou navalhar a camiseta.

Já ouviu falar da casa sanfona? O nome diz tudo: ela é articulada, poderemos esticá-la para qualquer lado. É um dos projetos dos irmãos Campana, os designers brasileiros que mais se aproximam do toque pessoal na moradia. Eles já fazem um tremendo sucesso transformando vassoura em fruteira com cara de cocar, adaptando tampas de ralo em tampos de mesa ou folhas de papelão em sofá. Nos últimos anos também vêm inventando outras formas de morar. “Haverá uma uniformização da sociedade, com mecanismos cada vez mais sofisticados de controle. A tendência é que aumente a necessidade da individualização em tudo e também no jeito de morar”, fala Humberto, um dos Campana. Eles também desenharam a casa cogumelo (quem passou dos 30 já viu idéia parecida nos desenhos dos Smurfs). É uma adaptação da velha e boa cabana na árvore. Tudo mutável. Tudo possível de ser misturado ou carregado para outros cantos. Porque as casas vão andar por aí conosco.

“Cada vez mais tem gente vivendo em trailers ou outras variações”, diz Fernando Campana. “Já existem laptops, celulares e vão surgir outras tecnologias para as pessoas poderem se deslocar mais facilmente.”

Casa de borracha?!?

Há muitos gênios de talento em busca de novas formas e materiais. Gaetano Pesce, famoso designer italiano, desenvolveu uma resina que serve tanto para o mobiliário quanto para os revestimentos. No momento ele constrói uma casa de borracha. Simón Vélez, arquiteto colombiano, elegeu o bambu como o material do terceiro milênio: é flexível, barato, e, quando usado com outras tecnologias ganha aspecto futurista. Vélez recheia o bambu com cimento ou o combina com outros materiais, como o aço, para criar estruturas inusitadas. E já existem até casas e prédios de tubos de papelão – uma sacada do premiado arquiteto japonês Shigeru Ban.

Escolas de design e arquitetura na Holanda, na Bélgica e na Inglaterra, as top de linha na área, estimulam os alunos a criarem lares e móveis a partir de suas sensações e desejos. Surge muita coisa esquisita, mas algumas propostas fazem sentido: casa inflável, casa em placas de resina que podem ser empilhadas e transportadas por um trator, casa em formato de casulo – como os dos bichos-da-seda. Não que a gente um dia tenha mesmo de morar num troço desses – essa turminha bem-humorada está experimentando possibilidades. Algumas idéias talvez não saiam da tela do computador, outras podem tornar-se soluções práticas para casas populares. Todas, sem exceção, preocupam-se com os aspectos ambientais, especialmente quanto ao uso das formas de energia.

Na opinião de alguns especialistas, os projetos mirabolantes podem ser legais, mas o design é efêmero, as modas vêm e vão e a vida continua. “As casas e os prédios são chamados de imóveis, de certa forma feitos para durar. E estão situados na cidade, têm de ser pensados com a cidade, no coletivo”, diz Milton Braga, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU). “As questões essenciais da arquitetura não mudaram muito: o arquiteto precisa se preocupar por onde vem a luz, como a construção se relaciona com a paisagem, coisas básicas de sempre.” Ele divide a moradia em dois tópicos: há o que chama de relicário – móveis, objetos, fotos, aquelas bugigangas das quais a gente não se separa e que, bem ou mal, contam a nossa história; e há a “caverna”, a casa propriamente dita, que é parte de um contexto.

Nosso contexto, a cidade, não deve se transformar demais nos próximos séculos. Paris ainda continua com seu layout do século XVIII; Londres mantém aquela cara de século XIX; São Paulo encarna os séculos XX e XXI – e, bem, não vamos derrubar tudo para fazer tudo de novo. A tecnologia vai entrar muito mais nos objetos e no backstage do dia-a-dia. Ou dando uma mãozinha nos sonhos coletivos, como imagina Milton Braga: “Os carros tendem a desaparecer, porque não haverá espaço para eles, então o transporte coletivo terá de ser eficiente, rápido. A tecnologia vai poder nos ajudar a realizar sonhos coletivos, fazer praia em São Paulo, construir pista de esqui, melhorar a vida”.

Para Roliços e Magrelas

Da porta pra dentro, melhorar a vida parece ser mais simples. Já estão inventando eletrodomésticos que realmente trabalham por nós. Os homens que entendem de filosofia, assim como os da ergonomia e os do mobiliário, asseguram que nossos lares serão leves. E o melhor: feitos sob medida. Seguiremos o “cada um na sua” dentro de casa também. Móveis de materiais fluidos, que podem mudar de função e não atravancam a sala. Resinas sintéticas, peças que montam e desmontam como as próprias casas e materiais moldáveis às nossas formas, sejam elas roliças ou magrelas.

Designers têm se esmerado em criar peças que combinem com nosso estilo de vida. As famílias, como já acontece, tendem a diminuir ou se transformar – daí a cozinha pesar cada vez menos no conjunto do lar. “Vamos mudar nosso padrão alimentar e os fornos, fogões e coifas terão de absorver totalmente o cheiro de comida”, fala José Bonetti, projetista das cozinhas Kitchens. Áreas sociais, como de fato já acontece, devem se espalhar, e os cômodos mudarão de lugar para dar mais praticidade. “A área de serviço, que nem existe em países europeus, vai sumir mesmo. E a máquina de lavar ficará junto aos quartos, para facilitar – não tem sentido buscar a roupa nos quartos e atravessar a casa para lavá-la”, diz Bonetti. Isso vai fazer com que as máquinas se tornem menores e muitíssimo silenciosas.

Por enquanto, aqui na vida real, vamos esbarrar no conservadorismo. Parece que, no fundo, temos dificuldade de engolir modernidades. É complicado ser up-to-date? “Até hoje a grande maioria dos projetos das nossas cozinhas precisam ser iguais aos antigos, para agradar aos clientes”, conta Bonetti. “E não é por uma questão de preço. Nem adianta argumentar que hoje as coisas são diferentes, porque o cliente não quer mudar.”

Os arquitetos podem engrossar o coro – quantos não gastam saliva para convencer a madame a não copiar a casa de Scarlett O’Hara, aquela mansão do filme … E o Vento Levou? Porque tem essa, na hora em que a gente começar a criar as próprias casas, talvez se espalhe uma estética horripilante, para pavor dos mais sofisticados. William Mitchell, o prestigiado arquiteto do MIT, chamou a atenção para isso recentemente, ainda que em defesa da revolução digital na arquitetura. “Quando qualquer um que tenha um computador puder projetar e construir, o amadorismo vai se multiplicar, como já acontece em outras áreas. Hoje quase todo mundo filma e edita em câmeras digitais e muitos fazem coisas ruins. Mas acredito que colocar o poder de construção e criação nas mãos das pessoas é uma coisa boa.”

Os arquitetos de ponta não se sentem ameaçados pela futura onda do faça-você-mesmo e alguns inclusive investem nisso. Claro que vai haver espaço para os elaboradíssimos megaprojetos, prédios que trazem a natureza para dentro das estruturas, moldam-se à paisagem ou usam vidros para captar vento e gerar energia – como os criados pelo papa das grandes construções mundiais, Sir Norman Foster, ou os do italiano Renzo Piano. Ou ainda as formas retorcidas, alucinadas, quase psicodélicas – como as propostas pelo grupo de ingleses Future Systems.

O fato é que com os novos softwares, com as construções modulares e os móveis e objetos multiuso, vai mudar bastante a parte que nos cabe em tudo isso. No futuro ali da frente, nossas casas tendem a ser menos previsíveis, mais originais, já que todo mundo terá como criar e recriar continuamente seu cenário particular – para o bem ou para o pesadelo estético.

De volta ao embrião

Vários especialistas estão bolando projetos habitacionais para nos ajudar nessa empreitada. Greg Lynn, um dos gurus dos desenhos inusitados, vem criando em seu escritório, na Califórnia, um protótipo no formato de uma célula, para construção em massa. Batizada de casa embriológica, é feita para inspirar os moradores a gerarem seus próprios projetos.

A casa começa a ser construída a partir de um pequeno núcleo – e quando for necessário poderá ir crescendo, exatamente como um embrião. O finlandês Jarmo Suominen inventou um sistema computadorizado, o Virtual Apartment Server, que permitirá aos compradores uma participação efetiva no desenho dos seus lares.

Bernard Hunt, o arquiteto e consultor inglês que fala de casas poéticas, imagina um mundo de moradias modulares montadas por seus proprietários, que vivem, não por acaso, ao lado de pessoas com quem têm hábitos e gostos em comum. Ele enxerga comunidades trocando idéias via internet e juntando-se em bairros ou condomínios. Ou, explicando de outro jeito, se hoje procuramos namorados ou namoradas na rede, em breve também escolheremos nossos vizinhos. E seremos escolhidos. Daqui a uns 30 ou 50 anos, talvez uma das mocinhas dos semáforos – se houver semáforos – de repente apareça caminhando decidida na sua direção. Ela traz um folheto sobre um fabuloso novo condomínio e o texto anuncia que ali só mora gente fina. E lá estão seu nome e sua foto na telinha: eles querem moldar as casas deles junto com a sua. O que você faria?

A casa será apenas mais uma roupa

A moda vai emprestar para a casa tecidos e boas idéias. O estilista japonês Issey Miyake – aquele que faz roupas-esculturas – associou-se a um engenheiro têxtil, Dai Fujiwara, para desenvolver o A-POC (a piece of cloth, ou um pedaço de roupa), tecido sintético que grudará nas nossas formas criando de roupas a móveis, como poltronas e sofás. “É um trabalho dedicado às gerações do futuro, que terão outras necessidades”, diz Miyake. Você pode atirar um pedaço no chão e ele se espalha como um tapete. Ou pode sentar no tecido e ele se transformará, feito massinha de moldar, em poltronas com o desenho exato do seu corpinho – parece divertido, embora possa se tornar mais um inimigo colaborando com a ditadura da elegância.

Imagine o shape dos sofás de quem veste o tamanho extra-grande… Programada por computadores e softwares especiais, a produção do tecido criado por Miyake será totalmente interativa: você escolherá inclusive a forma que o tecido deve assumir para se adaptar ao seu corpo – como vestido ou sofá? Clique aqui ou ali. “Acredito que as idéias devem ser fáceis de trocar, assim como as roupas. Isso permite que as coisas sejam mais simples”, diz Miyake sobre a descoberta que vai trazer novos conceitos de criatividade.