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Colisões cósmicas

Choque de fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 contra Júpiter atesta a importância desse planeta como escudo protetor da Terra

Leandro Steiw

Com as suas lentes voltadas para Júpiter, o telescópio espacial Hubble e a sonda Galileu flagraram a colisão de fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 contra a superfície do maior planeta do sistema solar. Naqueles seis dias de julho de 1994, os cientistas documentaram um dos eventos celestes mais importantes do século. Ao vivo, astrônomos e telespectadores do mundo todo puderam assistir à desintegração de pedaços do cometa na atmosfera mais alta de Júpiter, liberando uma quantidade de energia superior à de todo o arsenal nuclear existente no nosso planeta. Imagens captadas por telescópios de grande potência eram divulgadas na internet, provocando sobrecarga. Só um site mantido pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia recebeu mais de 1 milhão de solicitações para baixar imagens atualizadas da colisão nas duas semanas durante e imediatamente após o grandioso acontecimento no céu.

O que foi apenas um espetáculo visual para pessoas comuns reforçou duas convicções dos cientistas. Primeira, a de que Júpiter tem um papel importante como escudo protetor do sistema solar. “Sem ele, esses cometas poderiam entrar com mais facilidade em órbita de colisão com a Terra”, diz o físico Marcelo Gleiser, professor catedrático do Dartmouth College, nos Estados Unidos. Segunda, a de que essas colisões podem ocorrer inclusive aqui em nosso planeta. “Somos mais frágeis do que imaginamos”, afirma Gleiser.

O Shoemaker-Levy 9 foi descoberto por Eugene e Carolyn Shoemaker, e David Levy, em 1993. Logo depois, determinou-se que o cometa estava em uma trajetória elíptica bem acentuada, em rota de colisão com Júpiter. Durante o choque, em julho de 1994, foram observados pelo menos 21 fragmentos do cometa, com diâmetro de até 2 quilômetros. Os fragmentos chocaram-se numa velocidade superior a 200 000 quilômetros por hora. A explosão do primeiro pedaço do cometa na atmosfera criou uma bola de fogo gigantesca e levantou uma coluna de detritos com mais de 3 000 quilômetros de altitude. Esses detritos voltaram à superfície do planeta e produziram uma mancha negra correspondente a um terço do diâmetro da Terra. Isso tudo em Júpiter, que é 11 vezes maior do que nosso planeta.

Depois que o Hubble e a Galileu registraram a colisão, uma pergunta ficou no ar: o que aconteceria conosco se o alvo do Shoemaker-Levy 9 fosse a Terra? Parte da resposta está no nosso passado terrestre, pois acredita-se que o choque de um cometa de 10 quilômetros de diâmetro a 72 000 quilômetros por hora tenha dizimado os dinossauros, há 65 milhões de anos. A outra parte veio numa explosiva seqüência fotografada em 1994. Em seu livro O Fim da Terra e do Céu, Gleiser escreve que atualmente três programas em busca de cometas e asteróides com rotas próximas à Terra funcionam com sucesso: Linear (do Massachusetts Institute of Technology – MIT e da força aérea americana), Neat (do Laboratório de Propulsão a Jato de Pasadena e da força aérea americana) e Loneos (do Observatório de Lowell, no Arizona).

Marcado para morrer

Hubble, o voyeurdas estrelas, está comos dias contados

Os astrônomos reconhecem: graças ao telescópio espacial Hubble, o mundo pode ver as mais fantásticas imagens já feitas do Universo. Além de flagrar os estragos causados pelo choque do cometa Shoemaker-Levy contra Júpiter, o Hubble ajudou os cientistas a entenderem o nascimento e a morte de estrelas, caçou buracos negros, identificou cerca de 1 500 galáxias, estudou as atmosferas planetárias e encontrou algumas dezenas de planetas fora do sistema solar. A Nasa colocou o supertelescópio – cuja construção começou em 1978 – em órbita há 14 anos. Ele permitiu aos astrônomos observar o cosmos sem as distorções causadas pela atmosfera terrestre nos telescópios instalados na superfície do nosso planeta. Pena que o governo americano decidiu cancelar a manutenção futura do Hubble, alegando preocupação com a segurança dos astronautas, crescente desde a explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003. O telescópio que homenageou o astrônomo americano Edwin Hubble – que em 1929 comprovou a expansão do Universo – deve virar sucata cósmica em 2008. Seu sucessor será o telescópio James Webb, assim batizado em homenagem a um ex-administrador da Nasa, com lançamento previsto para 2011.

O impacto da descoberta

A observação do choque do cometa Shoemaker-Levy 9 com Júpiter mostrou que o planeta é um escudo protetor do sistema solar. Foi outra prova de que somos frágeis no Universo. E nos ajudou a entender ainda mais a extinção dos dinossauros na Terra