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Compartilhamento de arquivos :Troca-troca

Sistemas que permitem aos usuários trocar arquivos diretamente entre si estão mudando a forma como as pessoas ouvem música, assistem a filmes e até cometem crimes.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h48 - Publicado em 31 jan 2006, 22h00

Texto Marcelo Cabral

O documentário Outfoxed trouxe uma denúncia: a rede americana de televisão Fox News distorce as notícias, defende o governo de George W. Bush e faz sensacionalismo. Verdade ou não, o filme causou polêmica e impressionou o universitário americano Gary Lerhaupt, que quis distribuí-lo para o maior número possível de pessoas. Conversou com os produtores e os convenceu a disponibilizar um pedaço do documentário para download em seu website. Em dois meses, mais de 1 500 pessoas baixaram o trailer. Foi uma bola-de-neve: um usuário passou para o outro até atingir centenas de milhares de downloads em poucos dias. O custo para o estudante? Quatro dólares pela hospedagem do arquivo. Pelo preço de um cinema ele se tornou um distribuidor de filmes. “Se eu tivesse conteúdo próprio, poderia ter uma estação de TV pelo mesmo preço”, disse Lerhaupt à revista Wired.

O segredo de Lerhaupt para distribuir tanto por tão pouco está em 3 caracteres: P2P, sigla para peer-to-peer (algo como “de igual para igual”, em inglês). São tecnologias que permitem enviar arquivos via internet diretamente para outras pessoas, sem precisar de servidores especialmente dedicados para conectá-los (veja infográfico acima). Coloque um arquivo à disposição e os usuários se encarregarão de distribuí-lo uns para os outros. Você se lembra do Napster, o software que permitia trocar mp3 pela internet? A idéia é a mesma, mas os últimos anos viram o surgimento de programas muito mais sofisticados de troca de arquivos e multidões aderindo a eles. O BitTorrent – o programa usado por Lerhaupt e hoje uma das tecnologias mais populares de P2P – já é responsável por mais de um terço de todo o tráfego registrado na internet. Uma grande parte continua sendo pirataria de dvds, cds, softwares e jogos, mas projetos parecidos já permitem que pessoas assistam a filmes, guiem carros, ouçam rádio, falem ao telefone e até planejem ataques terroristas usando essas redes. O P2P está mudando a forma como distribuímos qualquer conteúdo, para o bem e para o mal.

Sempre ligados

Tudo começou em uma tarde de verão em 1999. Shawn Fanning, um calouro de 18 anos da Universidade Northeastern, em Boston, havia passado horas gravando cds com arquivos mp3 das suas músicas favoritas. Mais tarde ele iria deixar os discos com um colega e, em troca, pegar outros discos. Que trabalhão! Não seria melhor fazer essa troca de modo automático? De repente, Fanning teve uma idéia. Nerd assumido, ele sabia como escrever softwares. Depois de dois meses trabalhando 16 horas por dia, criou um programa que permitia que ele e seus amigos trocassem arquivos digitais de música direto de um computador para outro. Eles podiam agora compartilhar as músicas sem sair da frente do computador. Batizou sua criação de Napster, seu apelido na faculdade (algo como “dorminhoco”). A invenção fez tanto sucesso entre os amigos que ele resolveu distribuí-la de graça na internet. Em poucos dias, mais de 15 mil internautas já haviam baixado o programa e o número continuava a crescer cada vez mais.

O Napster era uma verdadeira revolução: qualquer pessoa podia instalar o programa e em poucos minutos ter acesso gratuito a praticamente qualquer música que quisesse. Claro que grande parte delas tinha direitos autorais reservados, o que tornava a atividade ilegal (portanto você não deve baixar esse tipo de arquivo em casa, entendeu?). As gravadoras processaram e ganharam: em 2001, a Justiça americana ordenou o desligamento dos servidores do Napster. Ele só voltaria em 2003, como um serviço pago e legalizado.

Foi uma vitória temporária. Logo surgiu uma segunda geração de redes P2P, da qual fazem parte algumas das mais populares hoje, como o Kazaa e o eDonkey 2000 (veja os principais programas de P2P na página 62). O Napster ainda precisava de computadores centrais para algumas funções, como procurar uma determinada música. Já os novos programas eram descentralizados, e a Justiça não tinha como desligá-los porque não havia nenhuma máquina que fosse essencial para que funcionassem. Além disso, compartilhavam diversos tipos de arquivos: músicas, filmes, jogos, softwares, fotos, e-books… o que se quisesse. Era só encontrar quem tivesse o arquivo e esperar na fila.

Em 2002, até esse último problema acabou, com a chegada do revolucionário BitTorrent. Ele quebrava os arquivos em pequenos pedacinhos e os distribuía pela rede. Baixe um desses pedaços de arquivo e você imediatamente passa a distribuí-lo a outros usuários. Isso evita gargalos na transmissão e permite que mesmo uma pessoa com uma conexão lenta de internet consiga disponibilizar o arquivo para milhões de pessoas. Segundo Bram Cohen, criador do programa, “o BitTorrent chega a ser 1 000 vezes mais rápido do que as redes comuns nos downloads de grandes arquivos”. Essa facilidade tornou o programa imensamente popular, com mais de 20 milhões de usuários. Na prática, ele passou a funcionar como a mais completa estação de mídia do mundo. Perdeu seu seriado na televisão? Não há problema: com certeza alguém já deve ter colocado o episódio na rede. O mesmo pode ser feito com qualquer arquivo que você possa imaginar.

Disputa legal

Agora não eram só as gravadoras, mas também as indústrias de entretenimento e de softwares que ficavam de cabelos em pé ao ver seus produtos circulando livremente pela web. Como as novas redes P2P não podiam ser desligadas, a estratégia de ataque mudou. A idéia agora é obrigar empresas proprietárias dos programas a revelar o nome dos usuários, que então são processados individualmente. Seguindo essa tática, mais de 15 mil internautas já foram parar nas cortes dos EUA desde 2003. O objetivo é criar exemplos, punir alguns para assustar todos os demais.

A estratégia, no entanto, esbarrou em alguns problemas. O primeiro foi a perda de popularidade quando se descobriu que entre os acusados estavam uma menina de 12 anos e uma senhora de 83 anos, que havia morrido alguns meses antes de receber o processo. O segundo é que a internet é uma rede mundial, e diferentes países possuem leis diferentes para tratar dos direitos autorais. Um dos casos clássicos vem da Suécia, um dos países mais liberais no tratamento dessa questão e sede do The Pirate Bay (“A baía pirata”), um site por onde mais de 150 mil visitantes passam por dia em busca de arquivos BitTorrent. Ao serem ameaçados pela empresa americana Dreamworks, por disponibilizar o filme Shrek 2, eles responderam: “Como vocês parecem não ter notado, a Suécia fica na Europa, e não nos EUA. Ao contrário de vocês, nós somos um país com leis racionais sobre direitos autorais. Nossa opinião e a de nossos advogados é que vocês são completos imbecis. Caso nos escrevam novamente, iremos processar vocês por ameaça. Tenham um bom dia”.

Mas o que pode derrubar de vez a estratégia de processos legais é a tecnologia. Estão sendo desenvolvidos redes P2P capazes de evitar que a identidade dos usuários seja revelada. Chamadas de darknets (“redes escuras”, em inglês), aplicações como o Winny e o Freenet embaralham os downloads, fazendo com que um arquivo circule por vários computadores até atingir o destino final. Isso torna impossível descobrir qual internauta baixou qual arquivo. Essas redes ainda não se espalharam mais devido a algumas dificuldades técnicas, como a altíssima capacidade de transmissão exigida para embaralhar os arquivos, mas a maioria dos especialistas acredita que sua popularização é mera questão de tempo.

Tanto desespero em bloquear o P2P tem um motivo: as empresas de entretenimento afirmam estar em crise por conta do prejuízo de milhões de dólares causado por esse tipo de pirataria. Mas isso faz sentido? Vários estudos tentaram esclarecer a questão, mas ainda não há um consenso. Uma das pesquisas, feita por Joel Waldfogel e Rafael Rob, da Universidade da Pensilvânia, EUA, apontou que as redes P2P provocaram de fato queda nas vendas dos artistas mais populares, que respondem por uma parcela de 25% do meio musical. No entanto, os outros 75% de músicos menos conhecidos aumentaram suas vendas graças ao maior espaço para divulgação. A conclusão mais surpreendente do estudo é que, em geral, essas redes trazem 3 vezes mais ganhos para a sociedade como um todo do que as perdas que provocam para a indústria musical. Com as redes P2P, não existem mais bandas desconhecidas, seriados antigos demais ou filmes fora de catálogo. Os consumidores se tornam mais instruídos, exigentes e seletivos. Tudo está à disposição. O problema, difícil de resolver, é como garantir essas vantagens e ainda recompensar artistas e gravadoras.

Mas existem outros problemas além da pirataria. Países como China e Cuba, que restringem o uso da internet, têm acusado as darknets de serem usadas por ativistas para escapar da espionagem das autoridades governamentais. Além disso, investigações do FBI sugerem que terroristas as utilizam para planejar seus ataques, e redes de pedofilia, para trocar fotos. Elas abrigariam até mesmo um ativo mercado de encomenda de assassinatos e roubos. Para combater essas atividades, o governo americano está tentando operações conjuntas com as polícias de outros países, como Holanda e Suécia. Mas é como enxugar gelo: para cada computador desligado, vários outros se conectam.

De volta para o futuro

Todas essas disputas, entretanto, podem em breve se tornar uma nota de rodapé na história do P2P. Várias empresas já aplicam a tecnologia a projetos inovadores e legalizados. Como o P2P divide entre os usuários o custo de transmitir grandes arquivos, utilizá-lo para divulgar qualquer produto pode ser bastante lucrativo. Esses recursos tornaram viável, por exemplo, grande parte dos programas de telefone pela internet. Um dos mais populares, o Skype (veja mais na matéria “O Futuro do Telefone”, edição 212), conecta um usuário a outro e depois deixa que eles transmitam os dados da ligação diretamente entre si em um sistema P2P.

Até a indústria do cinema está entrando na onda. O festival Cinequest, da Califórnia, permitiu que os internautas assistissem a seus filmes gratuitamente (mas não gravassem cópias) por meio de um programa de P2P chamado Konitki. De forma parecida, a BBC inglesa, considerada uma das melhores redes de televisão do mundo, está lançando o iMP, um programa P2P que permite a qualquer pessoa baixar e assistir às atrações de seus canais. Depois de 7 dias, o espetáculo se apaga automaticamente do computador do usuário. Existe a perspectiva de que, no futuro, as redes P2P criem até um mercado capaz de competir em pé de igualdade com as salas de cinema: se o filme tiver público, ele poderá ser distribuído rapidamente pela rede sem precisar entrar em cartaz.

Qualquer área pode se beneficiar. O projeto Edutella está criando uma rede P2P que vai conectar universidades alemãs, suecas e americanas para a troca de materiais de estudo, teses e provas entre alunos e professores. Outro projeto quer conectar carros em redes P2P. Ligados a uma central, os automóveis trocariam entre si informações sobre congestionamentos, buracos, defeitos mecânicos e até tentativas de assalto.

De modo geral, os especialistas concordam num ponto: é impossível deter o progresso da tecnologia. As redes P2P vão continuar existindo e ampliando sua área de atividade, quer se chegue a um acordo nos tribunais sobre sua legalidade ou não. Afinal nem todas as decisões judiciais do mundo podem impedir que um moleque de 18 anos, no meio de uma tarde de verão, tenha uma idéia e resolva mudar o mundo.

Transmissão direta

A diferença entre as redesP2P e as tradicionais

1. Sistema tradicional

Blogs, e-mails, páginas da web e quase todos os programas de internet funcionam com um modelo parecido de rede. Qualquer arquivo que você mande para eles (uma foto ou uma música por exemplo) precisará primeiro ser transferido para servidores, computadores que fazem a ligação entre os vários usuários. Só depois ele estará à disposição dos outros internautas.

2. Peer-to-peer (P2P)

Em uma rede P2P, basta ter o arquivo armazenado na memória do seu computador. Os outros usuários da rede poderão buscar por ele e fazer o download diretamente de lá, sem que o arquivo precise ser transferido para nenhum computador central. Da mesma forma, você pode baixar arquivos diretamente de outros computadores.

Como entrar na onda do P2P

O melhor e o pior dos sistemasmais populares (mas lembre-se:trocar arquivos ilegais é feio)

Programa – eDonkey2000 / http://www.edonkey2000.com

Mais indicado para – Músicas, vídeos, games e programas.

Vantagem – Consegue baixar o mesmo programa de mais de um computador ao mesmo tempo, diminuindo o tempo de download.

Desvantagem – No final de setembro, foi anunciado que a empresa controladora do programa poderia fechar as portas devido a pressões judiciais.

Programa – Soulseek / http://www.slsknet.org

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Mais indicado para – Músicas.

Vantagem – Tem os melhores arquivos de músicas independentes e underground, além de chats sobre todas as subdivisões musicais imagináveis.

Desvantagem – Algumas funções ainda são controladas por servidores centrais, o que pode derrubar toda a rede no caso de desligamento dessas máquinas.

Programa – Phex / phex.org

Mais indicado para – Arquivos em geral.

Vantagem – Como é baseado na linguagem de programação Java, pode ser usado em qualquer sistema operacional, tanto de PCs quanto de Macintosh.

Desvantagem – É lento para localizar e baixar arquivos. A conexão também cai com freqüência.

Programa – BitTorrent / http://www.bittorrent.com

Mais indicado para – Filmes e softwares.

Vantagem – De longe, o melhor para arquivos grandes. Além da alta velocidade, é fácil verificar a qualidade do arquivo.

Desvantagem – Depende de sites que tenham links para os downloads. Muitos desses sites estão sendo fechados por ações na Justiça.

Programa – Kazaa / http://www.kazaa.com

Mais indicado para – Músicas e arquivos em geral.

Vantagem – Tem um grande número de usuários, o que gera uma variedade enorme de arquivos para download. É possível achar de tudo, do obscuro ao popular.

Desvantagem – Baixa uma grande quantidade de programas danosos e de propaganda junto com os downloads.

Programa – Morpheus / http://www.morpheus.com

Mais indicado para – Músicas e arquivos em geral.

Vantagem – Simplicidade e facilidade: o programa pode ser operado até por uma criança.

Desvantagem – Poucas opções. É difícil achar nomes menos conhecidos ou de gêneros alternativos.

Programa – Shareaza / shareaza.sourceforge.net

Mais indicado para – Músicas, filmes, games e programas.

Vantagem – Conecta-se a diferentes redes, inclusive ao sistema BitTorrent, possibilitando assim uma opção muito grande para buscas e downloads de arquivos.

Desvantagem – A alta capacidade exigida para rodar diversas redes ao mesmo tempo faz com que o programa fique lento em horários de maior tráfego na internet.

Programa – LimeWire / http://www.limewire.com

Mais indicado para – Músicas e vídeos.

Vantagem – Consegue trocar arquivos entre computadores com firewalls instalados.

Desvantagem – Existem informações de que a empresa responsável pode parar de distribuir o programa devido às implicações judiciais.

Para saber mais

http://www.zeropaid.com – Notícias sobre troca de arquivos

super.abril.com.br/3quu5 – Equus Graechus

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